Para a maioria dos adeptos de futebol, será estranho viver num mundo em que José Mourinho não é considerado um dos melhores treinadores. Trata-se de um período em que o técnico português — com um currículo que inclui, entre vários troféus, duas Ligas do Campeões e campeonatos em Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha —, se tenta reerguer e parece destinado a falhar, com as análises a dividirem-se entre o tempo de glória que já passou e o tempo que o futebol já não lhe dá para alcançar essa mesma glória.

Foi há precisamente quatro anos, cinco meses e 19 dias que Mourinho conquistou o último título da carreira, uma Liga Europa como treinador do Manchester United, naquela que foi a melhor temporada dos Red Devils no conturbado período pós Alex Ferguson. Desde então, somaram-se mais duas épocas no United, outras duas no Tottenham e 18 jogos na nova aventura em Itália ao comando da AS Roma. No total, foram 184 jogos, 101 vitórias, 35 empates e 48 derrotas. Em quatro anos, cinco meses e 19 dias, o treinador português venceu cerca de 54% dos jogos e zero títulos.

Os números são espelho do declínio dos resultados do treinador que um dia se autointitulou de Special One e cumpriu. Se olharmos para os números desde a primeira época no FC Porto, quando conquistou os primeiros títulos da carreira — e logo três: liga, Taça de Portugal e Taça UEFA —, até à primeira época no Manchester United, a último temporada com conquistas — também três: Supertaça, Taça da Liga e Liga Europa —, Mourinho soma 779 jogos, 515 vitórias, 159 empates e 104 derrotas. Em 15 anos (FC Porto, Chelsea, Inter de Milão, Real Madrid, Chelsea novamente e Manchester United), somou 25 títulos e perdeu apenas 13% dos jogos, uma percentagem bastante inferior à dos últimos quatro anos em que saiu derrotado em 26% dos encontros.

Depois da conquista do último troféu, numa temporada em que também conseguiu um segundo lugar para o United na Premier League, as coisas nunca mais pareceram que iam voltar a ser o que já foram, com a equipa a não conseguir alcançar o rendimento que se esperava e a afastar-se do técnico. Na terceira época em Old Trafford, Mourinho acabou mesmo por ser despedido antes do final da temporada, num ano em que o clube viria a terminar o campeonato na sexta posição.

Seguiu-se o regresso à tão amada Londres, cidade que o tornou Special e que o catapultou definitivamente para a história do futebol mundial com as conquistas alcançadas pelo Chelsea. Nessa época de 2004/05, só faltou a Liga dos Campeões, apesar de Mourinho ter conseguido delinear o caminho para que a equipa chegasse à primeira final da competição em 2007/08 — foi, aliás, nessa temporada em que o treinador natural de Setúbal foi despedido ao fim de oito jogos, tendo sido substituído pelo israelita Avram Grant.

No Tottenham, José Mourinho encontrava um desafio ainda maior do que o que tinha encontrado em Manchester: uma equipa grande que não vencia um título desde 2007/08 (Taça da Liga) e que não era campeã desde 1961. E mais uma vez, o português era o primeiro após uma dinastia que, apesar de não ser tão longa como a de Ferguson no United, era importante, uma vez que tinha sido com Mauricio Pochettino que o clube voltou a estar entre os gigantes, tendo alcançado, inclusive, uma inédita final da Champions.

Mourinho chegou e não venceu, tendo terminado a temporada em sexto lugar e a pedir tempo. "Quanto tempo demorou o Klopp a ganhar um título no Liverpool? Quatro anos, quatro temporadas. E depois de comprar um dos melhores guarda-redes do mundo, um dos melhores centrais do mundo e assim sucessivamente. Estou concentrado no meu contrato de três anos. Creio que nesse tempo podemos ganhar troféus. Se não o fizermos, mas se ficar aqui só três anos e o clube ganhar logo a seguir, ficarei contente com isso. Eu trabalho para o clube, não penso em mim.", disse o treinador português em 2020, na antevisão de um encontro com o Arsenal.

No futebol moderno, o tempo, na maior parte das vezes, não é o que se quer, é o que se tem. E com Mourinho a colocar as expectativas na sua segunda temporada com os Spurs, a primeira que iria planear e ter a pré-época para preparar, o tempo foi irredutível perante a continua ausência de resultados. E se é verdade que aquele Tottenham tinha problemas — um plantel curto e que sofreu com uma série de lesões e ausências —, também é verdade que aquela fé no treinador, tão característica dos projetos de sucesso de Mourinho, aquela garra que substituía com eficácia o futebol bonito, nunca chegou a aparecer. Só os primeiros jogos da segunda época nos Spurs foram um vislumbre disso mesmo.

O impacto do Special One não se fez sentir e Mourinho acabou por ser despedido antes da temporada terminar. E aquele que é um dos treinadores mais titulados do novo milénio via o seu nome associado não à lista de técnicos com mais conquistas, mas à de que mais dinheiro receberam em indemnizações por despedimentos. Em 2007, Roman Abramovich, proprietário do Chelsea, desembolsou 21 milhões de euros para prescindir do treinador que levou o clube ao bicampeonato. Uma década depois, os responsáveis do Manchester United pagaram ao treinador português 22 milhões e 900 mil euros pela rescisão. O valor só não aumentou mais 18 milhões de euros com a saída do Tottenham porque Mourinho foi anunciado em pouco tempo como novo treinador da AS Roma.

A ida para Itália parecia o cenário ideal não só para os Spurs pouparem milhões, mas para o treinador português revitalizar a carreira. Da mesma maneira que Cristiano Ronaldo deixava a Juventus para rumar a um clube e um país onde se sentia amado, Mourinho fazia uma jogada parecida, embora não voltasse verdadeiramente a casa - entenda-se, o Inter de Milão, clube onde conquistou o triplete em 2009/10. A AS Roma não é o Inter daquela altura, nem sequer o Inter de agora. É, mais uma vez, um clube à procura de voltar à glória. Tal como José Mourinho.

O casamento parecia perfeito. Apesar de não ter uma equipa recheada de estrelas, o facto de ter tido uma pré-época para planear a temporada e de ter conseguido garantir reforços como Rui Patrício e Tammy Abraham projetava esperanças no clube e treinador. E a época, em boa verdade, dificilmente poderia ter começado de melhor forma: seis vitórias em seis jogos e a qualificação para a Liga Conferência carimbada.

No entanto, com a primeira derrota frente ao Hellas Verona, na jornada quatro da Serie A, veio a instabilidade e ficou a nu uma equipa que só sabe estar muito bem ou muito mal, extremamente deficitária na defesa e perdulária no ataque. Nos 11 jogos seguintes ao primeiro desaire, a equipa romana somou quatro vitórias, dois empates e cinco derrotas. Uma dessas derrotas, a contar para a Liga Conferência, foi a maior goleada sofrida pelo treinador português em toda a sua carreira (6-1), frente aos noruegueses do Bodo/Glimt.

Desde essa derrota que a Roma se foi definitivamente abaixo. Caiu para o sexto lugar do campeonato — está a 13 pontos do primeiro classificado, o Nápoles — e voltou a empatar com o Bodo/Glimt, um resultado que impediu a formação italiana de recuperar a liderança do grupo C.

Aos maus resultados somaram-se as ‘queixas’ de Mourinho, ora de um plantel curto em qualidade, ora da arbitragem. A última vez foi no passado fim de semana após a derrota em casa do Venezia por 3-2, equipa recém-promovida e que na jornada anterior estava a apenas a um ponto acima da zona de despromoção.

E um treinador como Mourinho, longe de ser unânime, tanto no presente como na fé em conquistas futuras neste futebol distante daquele em venceu, não é poupado pelos críticos. Logo vieram dizer que é impossível que um técnico com a experiência do português se queixe de um plantel que o próprio planeou, que prefira dizer que a maioria da equipa não serve do que ‘sacar’ um coelho da cartola com adaptações, reinvenções ou promoção de jovens como fez no passado. Dizem que a equipa com mais oportunidades de golo criadas na liga e mais remates não pode não ser o melhor ataque. Dizem que a linha defensiva da Roma não pode ser ultrapassada com tanta facilidade ou, nos jogos em que se consegue manter segura, como aconteceu recentemente diante da Juventus, cair nos minutos finais. Isso não é típico de um grande equipa, de uma equipa que tem o treinador mais bem pago da Serie A, da equipa que mais investiu em Itália no último mercado - mais de 100 milhões de euros.

Os críticos não poupam Mourinho e sugerem mesmo que, se era para isto, mais valia ter mantido Paulo Fonseca ao leme, que com menos fez mais. Por esta altura no campeonato, tinha mais cinco pontos e fez um percurso que só se tornou mais turbulento com a passagem às eliminatórias da Liga Europa, em que a Roma acabaria por conseguir eliminar o Ajax nos quartos de final, — sim, essa mesma turma holandesa que esta temporada parece estar preparada para voltar a deslumbrar a Europa do futebol com o mesmo treinador, alguns antigos jogadores e novas estrelas.

“Este trajeto na Roma, aparentemente, vai pelo mesmo caminho do que aconteceu no Tottenham”

“Este projeto na AS Roma começou começou como outros anteriores de Mourinho. Se olharmos para o Tottenham, ali até outubro/novembro também havia muito entusiasmo, resultados relativamente positivos, a equipa a superar-se até numa fase inicial. Isto porque creio que Mourinho, apesar de num passado recente não ter tanta longevidade nos clubes e tanto sucesso em termos de resultados, continua a ser um treinador que, ao chegar, consegue deixar marca. O problema surge depois mais à frente, quando é preciso ter um modelo mais estável para atravessar lesões e resultados negativos. Essa tem sido a principal lacuna nos últimos anos de José Mourinho. Claro que ainda não dá para fazer um balanço sobre este trajeto na Roma, mas aparentemente vai pelo mesmo caminho do que aconteceu no Tottenham, por exemplo”, analisa o comentador desportivo Tomás da Cunha.

Na ótica de Tomás, há dois grandes problemas que o treinador português tem de enfrentar. Um de comunicação e de balneário e outro de superação do plantel nos setores mais frágeis ou que ao longo da época podem ficar fragilizados devido a lesões ou castigos.

Comecemos pela comunicação. “O próprio já admitiu que quando treinava o FC Porto, por exemplo, tinha um estilo de liderança que acabava por bater certo naquele balneário, mas hoje em dia os jogadores têm outra necessidade e há um exemplo que me parece paradigmático, que são as críticas ao jogo após derrotas. O jogador de hoje em dia tem uma imagem pública que quer preservar, isso acaba por ser um problema muitas vezes em termos de comunicação interna porque Mourinho não tem qualquer problema em criticar os jogadores, dizendo que os suplentes não servem. Aliás, tem acontecido isso recentemente na Roma. O jogador do século XXI respeita muito a sua imagem pública e ver constantemente o seu nome assim enxovalhado, vá lá, acaba por ser um problema que Mourinho tem de resolver e creio que ainda não encontrou um certo equilíbrio que lhe permita ter mais continuidade porque, de facto, consegue ter um impacto positivo, mas depois a coisa descamba”, explica.

Para o comentador da TSF e Eleven Sports, hoje, “Mourinho perde facilmente o balneário”, algo que “noutras alturas da sua carreira não acontecia”.

No que diz respeito ao plantel, Tomás da Cunha diz que é óbvio que os romanos não têm um conjunto ao nível da Juventus, Inter de Milão ou Nápoles. “A Roma tem um bom plantel com um desequilíbrio claro em termos defensivos. Do meio-campo para a frente existe muito mais qualidade do que no setor mais recuado, mas isso é uma consequência inevitável do passado recente do Mourinho. Se não ganha, obviamente, não terá a facilidade para entrar nos principais clubes que lutem por títulos e tem de descer uns patamares, provar novamente que merece chegar lá acima. É por isso que entra em clubes como o Tottenham, como a Roma, que têm de funcionar como outsiders. Nunca terão capacidade financeira, e até de estatuto, para poder trazer os melhores jogadores”, explica, sublinhando que isso também denota uma qualidade que está esbatida do treinador português, que anteriormente conseguiu “tornar jogadores que não eram os melhores nas respetivas posições em craques, ou pelo menos jogadores que naquela equipa faziam sentido e que desempenhavam perfeitamente a função”.

“Nesta Roma a lógica terá de ser a mesma porque de facto, individualmente, não há um plantel ao nível de outros clubes da Serie A. Mas há matéria prima para Mourinho trabalhar”, remata.

Na defesa, setor mais frágil da equipa, onde não há um “central que seja realmente fiável”, surgem “consequências diretas na forma como a equipa compete”. “Por exemplo, lembro-me do jogo em Turim contra a Juve em que a Roma até faz uma boa exibição, mas depois a equipa de Allegri consegue aguentar-se na parte final porque tem muita segurança nos centrais e no outro lado não aconteceu o mesmo. Mas esse é um problema que Mourinho terá de contornar, sendo certo que se olharmos para uma fase mais inicial da carreira, construía equipas muito sólidas defensivamente, o FC Porto, o Inter que era uma equipa muito dificil de surpreender nesse aspeto... Hoje em dia já não há a mesma facilidade e creio que Mourinho está a sofrer um pouco as consequências de não conseguir resultados porque, como consequência, faz com que depois os plantéis sejam mais frágeis e com plantéis mais frágeis é também difícil conseguir resultados. É uma bola de neve”, explica.

“Para ter um trabalho de longo prazo é preciso sustentar a relação e Mourinho não está a fazer isso quando tem aquelas declarações em que ataca os jogadores, os mais novos, os suplentes... Isto acaba por minar a equipa internamente. É o próprio quem faz isso. Se a coisa começa a romper, já se sabe que o treinador é o elo mais fraco, por muito que Mourinho seja um técnico consagrado. E para ter algum sucesso na Roma, é preciso estabilidade, é preciso um trabalho de longo prazo, é preciso criar essa mentalidade competitiva, Mas se depois Mourinho não consegue criar uma relação estável com os jogadores, acaba por interromper o trabalho a meio. É essa sensibilidade que tem faltado em muitos momentos e que depois impede que o treinador português tenha trabalhos de longo prazo. É difícil pedir muito na Roma nesta primeira época, mas se calhar na segunda ou terceira poderia haver mais reforços, poderia haver uma ideia de continuidade. É preciso é saber se Mourinho vai lá chegar com os jogadores todos do seu lado e isso, nesta altura, já começa a deixar dúvidas".

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