Depois de ter levado o Paços de Ferreira ao 3.º lugar do campeonato em 2013, o futuro de Paulo Fonseca prometia. Pinto da Costa abriu-lhe as portas do Estádio do Dragão e o jovem treinador, então com 40 anos, chegava a um grande.

A época começou bem, com a conquista da Supertaça, e um plantel formado por nomes como Jackson Martinez (atualmente na China), Alex Sandro (dono do lado esquerdo da defesa da Juventus), Danilo (suplente de Carvajal no Real Madrid) ou Mangala (que faz agora companhia a Garay no eixo defensivo do Valência), e reforçado em janeiro de 2014 com Ricardo Quaresma, parecia prometer. Contudo, a realidade foi diferente. Os resultados tardavam em aparecer e após um empate em Guimarães na 21.ª jornada, que deixava os dragões a 9 pontos do Benfica de Jorge Jesus, o treinador era dispensado pelos portistas, precisamente no dia do seu aniversário.

Foi um duro golpe para o técnico. Fonseca viria a admitir, no ano passado, que não foi “genuíno” no Dragão, fruto da exigência do cargo. Talvez fosse demasiado cedo. Mas o antigo defesa do Estrela da Amadora não ficou muito tempo parado e no início da época seguinte fez o que muitos desaconselham: voltar a um sítio onde já tinha sido feliz. O regresso a Paços de Ferreira não teve o mesmo sucesso da sua primeira passagem, mas, ainda assim, o 8.º lugar dos pacenses no final da temporada consolidou Paulo Fonseca como um dos bons treinadores portugueses. E foi no seu nome que António Salvador, presidente do SC Braga, pensou para substituir Sérgio Conceição no comando técnico dos guerreiros do Minho. 

A tarefa não se afigurava fácil. O Braga vinha de uma época em que tinha ficado em 4.º lugar e atingido a final da Taça de Portugal, perdida dramaticamente no desempate por pontapés da marca de grande penalidade para o Sporting de Marco Silva.

E se a verdade é que no campeonato a performance dos minhotos foi exatamente a mesma (4.º lugar, com os mesmos 58 pontos conseguidos no ano anterior), a verdade é que o desempenho na Europa foi bastante digno (primeiro lugar na fase de grupos à frente do Marselha e derrota nos quartos de final aos pés do... Shakhtar Donetsk) e o final da época foi coroado com a vitória na Taça de Portugal, contra o FC Porto, também após o desempate por penáltis.

Cinquenta anos depois, o Braga voltava a sorrir no Jamor. E Paulo Fonseca voltava a recuperar grande parte do estatuto perdido com o mau período no Porto. E foi da Ucrânia, mais concretamente de Donetsk, que chegou o convite que prometia levar o treinador português de voltar a um clube que luta por ser campeão nacional.

Donetsk: chegar, ver e (con)vencer

O virar do milénio na Ucrânia trouxe uma liderança bicéfala no que a títulos nacionais diz respeito. Desde a temporada de 2000/2001, Dínamo Kiev e Shakhtar Donetsk têm dividido a coroa de campeão ucraniano, com vantagem para o clube de Donetsk (9 campeonatos, contra 7 da equipa da capital da Ucrânia). Inclusivamente, numa das temporadas em que não foi campeão nacional (2008/2009), o Shakhtar conseguiu vencer a atual Liga Europa (antiga Taça UEFA), o que o torna indiscutivelmente o grande dominador do futebol ucraniano dos últimos anos. E muito do palmarés conquistado neste período deve-o a Mircea Lucescu, treinador romeno que passou 12 temporadas e meia ao serviço do clube e que venceu 8 campeonatos, 7 Supertaças, 6 Taças da Ucrânia e, claro está, a Taça UEFA.

Depois de conquistar o penta-campeonato em 2013/2014, as temporadas de 2014/2015 e 2015/2016 foram sinónimo de perda de fulgor do Shakhtar no que à principal competição do país diz respeito, tendo visto o seu rival de Kiev arrecadar o título nessas mesmas épocas. Lucescu saiu para o Zenith de São Petersburgo (curiosamente para substituir um treinador português, André Villas Boas) e Paulo Fonseca aterrou em Donetsk com a missão de devolver o Shakhtar ao primeiro lugar do campeonato ucraniano.

E foi isso que Paulo Fonseca fez.

Com apenas uma derrota (sofrida já em abril deste ano, frente ao Chornomorets) e três empates nos 28 jogos já disputados, os comandados de Paulo Fonseca são ainda o segundo melhor ataque (59 golos marcados) e a melhor defesa (19 golos sofridos), tendo “cavado” uma vantagem de 14 pontos para o anterior campeão, Dínamo de Kiev, que lhe permitiu festejar o título a 4 jornadas do fim.

O título tem ainda a agravante do clube não jogar em Donetsk desde 2014, fruto das tensões existentes na fronteira com a Rússia nessa zona do país. Começando a época a jogar em Lviv, a mais de 1.200 (!) quilómetros de Donetsk, o Shakhtar mudou-se no início deste ano para Kharkiv a uns distantes mas, ainda assim, mais simpáticos, 300 quilómetros da cidade que dá nome à equipa.

Num plantel que mistura a frieza e rigidez tática do jogador soviético com o perfume e a magia de intérpretes sul-americanos, o treinador nascido em Moçambique guiou o gigante ucraniano a mais um título e conquistou um campeonato nacional pela primeira vez na sua carreira.

Na baliza, Pyatov é indiscutível. O titular da seleção ucraniana é o último esteio defensivo e posiciona-se atrás de um quarteto de “betão” (melhor defesa do campeonato ucraniano e apenas 31 golos sofridos nos 43 jogos já disputados, em todas as competições: à direita, o veterano Darijo Srna (23 jogos e 1 golo), lateral croata com mais de 500 jogos pelo clube; à esquerda, Ismaily (28 jogos e 2 golos), ex-jogador de Estoril, Olhanense e SC Braga; ao meio, a dupla de centrais é habitualmente composta por dois internacionais ucranianos: Yaroslav Rakitskiy (20 jogos) e Oleksandr Kucher (21 jogos).

Passando para o meio-campo, saltam à vista vários nomes: os internacionais ucranianos Taras Stepanenko (26 jogos e 1 golo) e Maksym Malyshev (21 jogos e 1 golo) e o brasileiro Fred (18 jogos e 1 golo) são os homens que garantem a sustentação do miolo do novo campeão ucraniano.

No que toca aos homens que pisam terrenos mais ofensivos, destaque para o jovem internacional ucraniano de apenas 21 anos, Viktor Kovalenko (24 jogos e 7 golos), para o argentino Facundo Ferreyra (melhor marcador do campeonato, com 13 golos em 19 jogos) e para um quarteto de brasileiros que levam o samba ao frio da Ucrânia: Marlos (27 jogos e 3 golos), Dentinho (20 jogos e 4 golos), Taison (22 jogos e 4 golos) e Bernard (23 jogos e 4 golos), estes dois últimos já internacionais pela canarinha.

A época dos mineiros, contudo, ainda não está fechada. Apesar da eliminação na Liga Europa frente ao Celta de Vigo (a maior desilusão da época), o Shakhtar está na final da Taça da Ucrânia, que será disputada a 17 de maio contra o Dínamo de Kiev.

“Ainda temos a final da Taça, e vamos preparar-nos o melhor possível. Quem joga no Shakhtar tem de jogar sempre para vencer”, disse o técnico português depois de se sagrar campeão.

Assim é Paulo Fonseca, o novo czar de Donetsk, com o resto da Europa à espreita.

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