48 nações em competição por um título de campeã. Há fases de qualificação, quartos-de-final, meias-finais e uma final, tal como no futebol. As equipas, constituídas por 11 nacionais de um país, têm um capitão, que escolhe metade dos que “vão a jogo”. A outra metade é eleita seguindo a inspiração no ranking ATP, no ténis. Todos estarão equipados a rigor, com números nas costas das camisolas, nomes e identificação patriótica.

Não se trata de mais um evento de 11 para 11 à volta de uma bola, nem o objetivo é colocá-la do outro lado da rede. Trata-se, sim, de uma competição de vela que envolve nações - SSL Nations Gold Cup –  e que foi buscar inspiração ao futebol e ao ténis para por de pé, em 2021, entre setembro e outubro, no Lago Neuchatel e no Lago Geneva/Léman, na Suíça, o evento que determinará quem é o país campeão mundial dos barcos. Confuso? Passamos a explicar.

48 nações em barcos de 15 metros onde o dinheiro não manda

Apresentado em Lausanne, Suíça, no museu Olímpico, está aberto às 144 nações inscritas na Federação Internacional de Vela. A primeira edição terá 48 países. Envolve embarcações monocascos de 47 pés (15 metros de comprimento), os SSL47, um barco one design (todos iguais), colocado à disposição das equipas pela organização. Isto é, não há custos associados, não há o peso do dinheiro e da tecnologia a funcionar, antes impera a arte dos velejadores em prova (o verdadeiro ativo), velejadores esses que têm que ser nacionais do país que representam.

“Todo o conceito à SSL Gold Cup é muito similar ao Campeonato do Mundo de futebol. Arranca com fase de qualificação e segue para quartos-de-final, meias-finais e finais”, explicou ao SAPO24, Mateusz Kusznierewicz, velejador polaco duplamente medalhada nos JO na classe Finn e diretor desportivo da Star Sailors League Gold Cup durante a apresentação do evento que decorreu no Museu Olímpico, em Lausanne, Suíça.

Para participarem, os 11 tripulantes, sendo que nove ocupam lugares no barco, são escolhidos de acordo com dois métodos. O capitão, que pode, ou não, fazer parte da tripulação, escolhe cinco. Os demais são eleitos através de um ranking criado para o efeito. E aqui entram nas contas as conquistas no ano passado, os campeonatos mundiais e internacionais nas diversas classes de vela, a participação olímpica em Tóquio e na 36ª edição da America’s Cup.

Portugal é um dos primeiros 20 países a inscrever o nome nesta competição (ao lado de Brasil, Canadá, Croácia, Estónia, Alemanha, Inglaterra, Grécia, Hungria, Itália, Holanda, Noruega, Polónia, Eslovénia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia e Estados Unidos da América). O windsurfista madeirense João Rodrigues, que conta no seu portfólio a participação em sete Jogos Olímpicos, é o capitão. Afonso Domingues, velejador profissional, campeão mundial, a voz de comando a bordo.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

João Rodrigues, o mais olímpico dos atletas nacionais na pele de capitão. Afonso Domingues, a sua extensão no barco

A ideia foi apresentada a João Rodrigues “há uns meses”, na Suíça. Para o mais olímpico dos atletas nacionais, criar um ranking parece, à partida, difícil. “Todos os anos, na vela, há 127 campeões do mundo”, reforça. “Quando se pensa em motociclismo, pensamos em Rossi e Miguel Oliveira, na F1, no Hamilton, em futebol, no Ronaldo. Na vela é difícil dizer um nome”, assumiu ao SAPO24.

Informa que não vai para o barco e que assumirá competências de team manager, responsável pela logística e parte financeira. “Ajudarei o Afonso”, que fica com o barco “à responsabilidade”, sublinha João Rodrigues.

No livro da organização, Portugal, como os outros países, conta com 20 velejadores. “Foram apresentados estes, mas podemos escolher fora desta lista”, avisa Afonso Domingues. “A única pessoa que está certa é o Afonso”, interrompeu o windsurfista que reforça que Portugal tem “velejadores muito experientes, em muitas classes”.

Mateusz Kusznierewicz no discurso de apresentação do inovador evento náutico “meteu” uma cunha para Mariana Pires de Lima, 16 anos, um nome que aparece ao lado dos consagrados Gustavo Lima, Diogo Cayolla, Frederico Melo, Hugo Rocha, Jorge Lima, Nuno Barreto ou Mariana Lobato.

Nas listas das tripulações dos 20 países apresentados há campeões do mundo, da America’s Cup, da Volvo Ocean Race, de travessias oceânicas, mais de 70 olímpicos, 17 medalhados com ouro, 16 de prata e 18 de bronze. São eles o coração das nações a competir na SSL Gold Cup.

Para além das escolhas com base o ranking mundial, a decisão de chamar os velejadores a bordo tem a ver com “as posições que ocupam no barco e o nível até lá”, notou Afonso. Sobre a regra de só os nacionais de um país serem habilitados a “entrar em campo”, como nos “Jogos Olímpicos”, dá um exemplo. “Na America’s Cup, ganha a Suíça ou os EUA, mas a tripulação é kiwi (neozelandeses) e australianos. Ganharam os kiwis com dinheiro suíço. Aqui não será assim. É uma liga das Nações, sem naturalizações”, definiu.

Campo de treinos e barcos à disposição. Uma prova democrática que mete os mais fracos na água em igualdade

“Teremos à disposição 10 dias de treinos por ano até à prova (de abril 2019 a agosto de 2021)”, explica Afonso Domingues. Será no campo de treinos em Grandson, no Lago Neuchâtel, local de eleição da náutica helvética. As nações emergentes beneficiarão de “30 dias” por ano, sabe-se.

Os barcos são e ficam na posse da organização. “Para além da Suíça, podemos treinar em Cascais e tentar arranjar um barco parecido”, assinalou. Sobre o papel que desempenhará ainda não sabe. Mas tem uma certeza: “há certas posições que não posso fazer. Não faço nem proa, nem mastro”, sublinhou.

Antes da fase final, a SSL Gold Cup compreende quatro rondas de qualificação (35 dias) para 16 equipas cada, na sede e centro de treino no Lago Neuchâtel. Cada um dos grupos de 16 será dividido em 5 regatas de 4 barcos, “um número que é de fácil perceção para o público e dá mais hipóteses às equipas menos experientes”, conclui Kusznierewicz.

As nações entram mais cedo ou mais tarde na competição conforme o seu estatuto internacional. Divididos em três zonas (Europa, América/África e Ásia/Oceânia), os países emergentes e mais fracos entram numa fase inicial, sendo que as nações melhor sucedidas entram com a competição já em andamento. “É idêntico ao ténis onde, por exemplo, Roger Federer não joga o qualifying”, exemplifica Kusznierewicz.

Após a fase de qualificação, a Liga das Nações de vela desloca-se do Lago Neuchâtel para o Lago Léman (os oradores preferiram apelidá-lo assim sempre que se falava do Lago Geneva), para as rondas finais. As oito nações vindas da qualificação enfrentam as oito melhor classificadas nos quartos-de-final. Depois, reduzidas a oito passam às meias-finais para determinar as quatro finalistas e para, em última instância, coroar a nação campeã da SSL Gold Cup

“A ideia é tornar simples para os espetadores de compreenderem quem ganha e quem será coroada a melhor nação náutica do mundo” finalizou Kusznierewicz.

O jornalista viajou até Lausanne a convite da Star Sailors League Gold Cup

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