Este não é um jogo como outro qualquer. Independentemente da forma em que as equipas se encontram, dos pontos na tabela ou das melhores ou piores prestações nas últimas épocas, em dia de dérbi, nada conta a não ser a motivação para humilhar o rival. Estes são 90 dos 180 minutos mais importantes da época para ambos os conjuntos de adeptos. Esta é a primeira parte do ‘jogo’ mais antecipado da época. O consenso parece geral em colocar esta rivalidade entre as duas primeiras no futebol inglês no que toca a números e intensidade. O ódio que une os adeptos de ambos os clubes vem de há muito e está para durar.

O jogo que não dá prazer

Um verdadeiro adepto, de ambos os clubes, já pensa neste jogo há pelo menos duas semanas. A antecipação é grande, os nervos estão à flor da pele e até ao apito final qualquer destes sintomas terá tendência apenas para piorar.

Quem acompanha o futebol sabe que as maiores rivalidades provêm de equipas vizinhas, cujos estádios se situam perto um do outro. Os protagonistas da jornada catorze não são exceção e a sua proximidade física faz com que os adeptos de ambos os clubes tenham uma antipatia uns pelos outros muito vincada. A inimizade, vamos chamar-lhe assim, entre os adeptos de ambos os clubes, é genuína e vem de há mais de um século a esta parte, aquando da mudança de estádio por parte do Arsenal. Com pouco mais de quatro quilómetros a separá-los desde 1913, altura em que o Arsenal se mudou de ‘armas e bagagens’ de Manor Ground, Plumstead, para Highbury Stadium, Highbury. Desde então que a rivalidade veio a crescer, atingindo o seu esponte máximo nas últimas épocas.

"Será mais um alívio que outro sentimento qualquer. É isso que caracteriza um jogo contra o Arsenal. Ainda bem que isto já acabou é o que se sente ao ouvir o apito final", John Crace, jornalista e conhecido adepto dos Spurs

Três razões para o nascer e o florescer de tamanha rivalidade

1. Do acordo de cavalheiros às suspeitas de corrupção

A primeira grande equipa a surgir no norte de Londres (com uma massa adepta predominante judaica) foi o Tottenham, clube que conta com o apoio massivo naquela zona da capital inglesa; até o Arsenal se mudar do Sul para o Norte de Londres, apesar do acordo de cavalheiros que existia entre os clubes para que tal não acontecesse. Com a chegada dos gunners chegaram também os cânticos e insultos racistas que visavam constantemente o facto de os adeptos do Tottenham serem, em grande parte, judeus. Começava então um ódio que viria para ficar.

Como se já não começassem a existir razões que justificassem por si só a rivalidade, o Tottenham, por via dos seus adeptos, acusou o Arsenal de alegadamente corromper a sua volta à primeira divisão após a segunda Grande Guerra. Desde então que o abuso entre adeptos não tem fim.

créditos: ODD ANDERSEN / AFP

2. A gota de água numa rivalidade secular

O ídolo dos adeptos do Tottenham, o menino que se juntou à formação do Tottenham com apenas 14 anos e aquele que chegara a capitão da equipa principal, decidira mudar-se para o único clube que não podia — na visão de qualquer adepto dos Spurs — o Arsenal. Depois de terminar o contrato com os Spurs e depois de, por diversas vezes, descansar os adeptos do Tottenham (com a promessa de que apesar do seu contrato estar a chegar ao fim, este não iria abandonar a equipa), em 2001 o internacional inglês Sol Campbell, com várias opções na mão, decidiu destroçar o coração dos seus adeptos e juntar-se a um dos mais ambiciosos projetos da Premier League na altura, o Arsenal de Arsène Wenger.

Mesmo assim, na opinião de alguns adeptos, o pior não terá sido o facto de Campbell se ter mudado para o rival. Pior que isso, na sua opinião, terá sido a forma como este o fez. Com mentira após mentira até à traição final. Em novembro desse mesmo ano, o defesa central viria a visitar, pela primeira vez com a camisola do rival, o seu antigo estádio. Seria recebido como nunca antes um jogador tinha sido recebido por uma ex-equipa em Inglaterra. Recebido com quatro mil balões com a palavra Judas, insultado durante todo o jogo e com um minuto de silêncio em memória da sua alma, este seria um dos momentos mais marcantes da Premier League até aos dias de hoje.

Adepto do Arsenal: "Uma pessoa como o Steven Gerard nunca assinaria pelo Manchester United, uma pessoa como o Gary Neville nunca assinaria pelo Liverpool. É por isso que eu acho que ele não sabia bem o que estava a fazer, hoje penso que mais que um adepto de futebol, o futebol podia apenas ser a sua profissão."

Se tudo isto não chegasse, em 2004, na época dos invencíveis, Thierry Henry, Sol Campbell, Patrick Vieira e companhia, eram campeões em casa do arqui-rival. Em pleno White Hart Lane os gunners beneficiavam de um empate (2-2 o resultado final) para se sagrarem campeões. No final, os festejos do rival no seu estádio marcariam para sempre o Tottenham e esta rivalidade. Esta foi a segunda vez que tal se passara, sendo que a primeira foi em 1971 e não estará tão presente na memória dos Yid (alcunha dos adeptos dos Spurs). Uma nota para o significado do termo Yid — Judeu. Ainda que normalmente utilizado de forma pejorativa por outros adeptos, muitos dos adeptos do Tottenham adotaram a alcunha e usam-na com orgulho.

créditos: FP PHOTO / ODD ANDERSEN

3. Os tempos modernos da rivalidade

Nos últimos anos a rivalidade tem crescido ainda mais e ao que parece devido ao comportamento dos adeptos do Arsenal. Desde há muito que o Arsenal tem sido superior ao Tottenham, muito superior diga-se, o que terá levado a que os gooners (alcunha dos adeptos do Arsenal) não tenham colocado mais do que a energia necessária nesta rivalidade. Sempre com uma aura de superioridade, a contenção por parte dos adeptos do Arsenal acabava sempre por se impor. O problema a que estamos a assistir hoje em dia é que, há pouco mais de uma década a esta parte, o Tottenham tem melhorado a olhos vistos; por seu turno, o Arsenal tem piorado consideravelmente. A combinação de ambos os factores levou a que, pela primeira vez em décadas, os spurs tenham conseguido terminar o campeonato acima dos gunners (alcunha da equipa). Desde então que o jogo tem ganho uma relevância ainda maior, muito devido ao crescente interesse/ódio dos gooners, já que, na opinião dos adeptos do Tottenham, o seu ódio pelo Arsenal sempre foi máximo e constante.

Esta semana na Premier League

Além de podermos ver o grande jogo da jornada com outros olhos, domingo, dia 2, pelas 14h05, podemos também assistir a mais história, e com sotaque português.

Marco Silva tem a grande tarefa de se poder tornar no primeiro treinador do Everton, em época de estreia, a vencer em Anfield. Desde o seu primeiro encontro (1894) que nunca um treinador conseguiu bater o, também arqui-rival (Liverpool) no Dérbi de Merseyside. E já que falamos em rivalidade, pode descobrir mais sobre esta, pois já a abordei nesta coluna. O outro grande dérbi da jornada terá lugar no mesmo dia, no domingo, dia 2, pelas 16h15.

Por fim, sinalizar o apoio, pelo terceiro ano consecutivo, da Premier League à comunidade LGBT. Já vem a ser hábito, uma jornada por ano, a Premier League vestir-se com as cores do arco-íris demonstrando o seu total apoio, na esperança de um ‘Jogo para todos’ — This is everyone’s game’. Na temporada passada, tivemos o prazer de explicar detalhadamente o acontecimento e a parceria entre a Stonewall e a Premier League.

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