2018 tem sido um ano importante para as seleções jovens nacionais que têm alcançado metas fundamentais: em futebol, Portugal conquistou o Campeonato da Europa de sub-19, em râguebi, o Europeu de sub-20, em andebol, um 4º lugar no Campeonato da Europa de sub-20.

Têm sido anos de grande sucesso, glória e ambição confirmada por parte das várias modalidades nacionais, principalmente a nível juvenil.

Mas entre o final de agosto e o início de setembro, haverá mais uma etapa para se conquistar no Campeonato do Mundo “B” de Râguebi sub-20 que vai ter lugar na Roménia. Portugal é o vice-campeão em título, depois de ter chegado à final em 2017 e capitulado perante o Japão.

Uma vitória nesta competição permite ascender ao Mundial de Râguebi “A” onde jogam os Baby Blacks (os “filhos” da super-seleção dos All Blacks), a Austrália, a extraordinária França, campeã em título, entre outras formações que estão no topo do desporto da bola oval.

Contudo, terão os resultados de 2017 sido uma excepção ou foram uma demonstração de que pelo menos neste escalão o râguebi português está bem e recomenda-se?

Fomos falar com o selecionador nacional de sub-20, Luís Pissarra, antiga lenda dos Lobos - fez parte da seleção portuguesa que chegou ao Mundial de Râguebi em 2007, pela primeira vez na história lusa da modalidade - e um dos grandes obreiros dos vários sucessos alcançados nas camadas jovens, entre os quais dois campeonatos da Europa de sub-20 em 2017 e 2018.

créditos: Luís Cabelo Fotografia

Estas semanas de treino dos sub-20, um mês antes do Mundial, foram realizadas com que propósito?

O objetivo foi claramente recuperar os jogadores, uma vez que alguns estavam sem jogar há uma série de tempo, enquanto só uns poucos tinham participado nos Sevens [variante do râguebi disputada apenas com sete jogadores em campo, por cada formação]. Arrancámos com estas três semanas de treinos, que acabaram na sexta-feira passada, e trabalhámos dentro de um esquema planeado entre recuperação e de pôr o grupo psicologicamente à prova.

Em que consistiram tecnicamente os treinos?

Recuando só até junho, encontrámo-nos por duas ocasiões, para trabalhar skills individuais de ataque e defesa, enquanto nestas três semanas de julho foi implementar o trabalho geral quer no ataque ou defesa e de um aumentar um total de intensidade. Cada semana foi temática, que culminava à quinta-feira um jogo entre nós, onde procurávamos evoluir.

Havia como que um calendário predefinido?

A semana era montada desta forma: segunda-feira destinava-se a um trabalho mais físico e no fim do dia entrávamos com alguns skills; terça era o dia mais duro, tínhamos uma parte de setores de avançados - formação ordenada principalmente - e três-quartos, sendo que à tarde íamos às componentes físicas e psicológicas. Quarta-feira treino específico, quinta-feira novamente físico e defesa.

Que balanço faz destas semanas?

Foram assim uma mistura entre o técnico, tático e físico em que os jogadores tinham de saber ir ao fundo, trabalhar com cansaço e aguentar a pressão. Aliás, o facto de estarmos três semanas fora de casa a competir, é uma das questões mais importantes e é nessa base que temos de trabalhar o jogo mental; vai ser muito importante para não vacilar.

É complicado esta "ponte" do fim de uma época para o início de outra?

É complicado impor intensidade nesta fase, como estamos numa época do ano em que geralmente os jogadores estão habituados a estar de férias, num off-season e sem terem treinos, só indo ao ginásio, onde estão com os amigos, com uma alimentação menos correta. Era, portanto, a parte difícil: alinhavar todos os jogadores neste objetivo.

Como se consegue isso? Através do exemplo?

Não tenho dúvidas que os grandes embaixadores deste trabalho são os antigos jogadores que por aqui passaram, que defenderam bem esse sacrifício e deram o exemplo. Este podia ser o aspeto negativo, mas o positivo é que como não havia trabalho dos clubes, pudemos trabalhar com eles completamente focados na seleção e nestes treinos. Conseguimos fazer uma gestão muito nossa dos atletas, praticamente “vivemos” quase em ritmo profissional, que nos divertimos e sofremos, mas o resultado final será muito positivo.

créditos: Luís Cabelo Fotografia

É uma equipa completamente diferente comparada com a de 2017? 

Realmente é caso para dizer que não há equipas iguais, nem processos que se repetem, e esta geração comparada com a de 2017 é diferente. Desde logo pelo Campeonato de Europa que fez, mostrou que é diferente da do ano passado [a que era conhecida pela Geração de Ouro do râguebi nacional], mas para quem dizia que a geração anterior era fenomenal - e que ainda me traz excelentes memórias - esta de 2018 não é menos relevante e importante, pode ter menos nomes e individualidades, mas a nível do coletivo são letais no contra-ataque e gigantes na defesa.

A única comparação possível são os resultados finais. Têm uma capacidade de se adaptar ao jogo mais depressa do que a de 2017, mas é algo mais juvenil e/ou imatura. Esta é a riqueza do nosso trabalho, de juntar as “tropas” todas, de passarmos a mensagem e de fazer um grande trabalho. É um grupo especial, não tenho dúvidas.

O que procura agora durante estas duas semanas de repouso? 

Atenção, que neste pequeno período de férias que os jogadores vão ter, continuarão a trabalhar individualmente, com todos os cuidados possíveis. Há alguns que não vão conseguir ser selecionados e isso é um dos pontos mais importantes, a riqueza mental deste grupo, o quererem estar envolvidos, de sacrificarem-se pelo objetivo comum. Estas duas próximas semanas serão de um repouso aparente, todos têm um trabalho intenso e individual a fazer. Contudo, é importante também limpar a cabeça e relaxar durante este período de descanso, uma vez que treinámos com muita intensidade. Não esquecer que se trata de um grupo amador e jovem que precisa também do seu tempo de pausa.

Apesar da equipa ser 100% amadora, concorda com o facto de os seus jogadores estarem a demonstrar um profissionalismo enorme?

Eles têm plena noção que não podem descurar a parte física, de não se desleixar, mas é importante poderem aliviar a carga psicológica e fazerem um reset. Esta paragem pode fazer-nos regredir ligeiramente a nível da estrutura de jogo que tínhamos estabelecido. Todavia o encurtar do grupo vai nos possibilitar trabalhar de outra forma, com uma maior dedicação a outros detalhes que com um grupo maior não conseguiríamos desenvolver com tanto afinco.

É importante referir este ponto: o profissionalismo com que estes jogadores têm-se entregado nos treinos e na preparação para o Mundial de Râguebi “B”. Todos querem estar lá e têm feito um trabalho descomunal para atingir esse sonho.

O que se segue na preparação para o Mundial?

A partir de 13 de agosto, iniciamos uma nova fase, com quinze dias antes da saída para o Mundial. São dois novos ciclos de treino e nestes quinze dias vamos estar em Mafra, com apoio da Câmara Municipal local, que vai culminar com um jogo entre nós, para podermos testar a nossa capacidade física e de jogo.

Daí resultará a lista final de 26 convocados, e só esses vão treinar na última semana de treinos pré-Roménia. Vão ser duas boas semanas de treinos, que vai dar para alinhar todos os pormenores, afinar o nosso jogo e preparar-nos definitivamente para o Campeonato do Mundo.

O primeiro jogo de Portugal está agendado para dia 28 de Agosto, frente ao Canadá, seguindo-se as Fiji (1 de Setembro) e Uruguai (5 de Setembro). O grupo dos 35 atletas selecionados para trabalhar na segunda fase de treinos é a seguinte:

créditos: Federação Portuguesa de Râguebi/DR

A equipa técnica liderada por Luís Pissarra, é composta ainda por António Aguilar (treinador adjunto), Pedro Cardoso (preparador-físico) e Paulo Vital (fisioterapeuta).

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