A sonhar com voos europeus mais altos depois de um bom percurso na Liga dos Campeões 2021/22 (e, claro, com o troféu de campeão nacional), o Benfica vai entrar na segunda metade da época sem aquela que se tornou numa das suas peças-chave: Enzo Fernández. O médio argentino, que brilhou no Mundial, foi vendido ao Chelsea por uma soma que não era muito comum vermos no futebol português, mas que se está a tornar cada vez mais: 121 milhões de euros, quase dez vezes mais que o valor de mercado de todo o plantel da grande surpresa da temporada, o Casa Pia.

São números aos quais o desporto-rei nos tem habituado, que podem fazer corar de vergonha quem se preocupa menos com questões do futebol e mais com questões sociais, que levam os adeptos a encolher os ombros porque o que importa, no fim, é meter a bola lá dentro. E que deixam as SADs a esfregar as mãos ou a coçar a cabeça, dependendo do lado da barricada em que se encontrem: gastar mais ou lucrar mais? No primeiro caso, desde que se atinjam os fins – os títulos –, os meios pouco importam; no segundo, lembramo-nos do que Stefan Szymanski e Simon Kuper escreveram em"Soccernomics": "Se o futebol se tornar rentável, os adeptos poderão acabar a ter saudades dos dias em que era o pior negócio do mundo".

Este mercado de inverno foi bom para os clubes portugueses. Ignorando Enzo, olhamos para as boas vendas (em termos puramente financeiros) do Sporting e do Sporting de Braga, da ausência de complicações de maior no FC Porto, dos balanços positivos de Gil Vicente ou Santa Clara. Após um ano em que, de acordo com um relatório da FIFA, os clubes portugueses foram os que mais contrataram ao mercado internacional, os clubes extra-três grandes preferiram manter as suas contas minimamente estáveis (até porque sem isso, e ao contrário dos três grandes, não sobrevivem), procurando colmatar falhas internamente. E aqui falamos não só das eventuais equipas B como das divisões inferiores, onde há cada vez mais talento. Eis os números que compõem o mercado de transferências do inverno de 2023 em Portugal.

0: O valor que o Portimonense gastou em reforços, que não foram poucos. A passar por uma fase mais desconfortável do que o que desejaria, o emblema algarvio foi buscar Yony González, Sérgio Conceição, Matheus Nogueira, Wagner ou Alemão, todos a custo zero ou por empréstimo. Para outras paragens rumaram Iury Castilho, Berke Özer ou Shuhei Kawasaki. O Portimonense ocupa atualmente o 13.º lugar, com 20 pontos, seis acima da "linha d'água". Porém, não vence para o campeonato há seis jogos – sendo que a última vitória, frente ao Gil Vicente, aconteceu ainda antes do Mundial, em novembro.

2,5: O número de meses, mais dia menos dia, que César Peixoto esteve afastado do comando técnico do Paços de Ferreira. Os castores estão a ter uma época para esquecer, com o treinador a ter sido despedido em outubro, após perder contra o Vitória FC por 3-0, em jogo a contar para a Taça de Portugal. O ícone José Mota, que o substituiu, não conseguiu alterar o rumo dos acontecimentos e acabou, também ele, por sair. Peixoto voltou por pressão do plantel, que pediu o seu regresso, e está a dar-se um bocadinho melhor: já soma duas vitórias no campeonato, quando anteriormente tinha zero. Neste inverno, o Paços foi buscar jogadores como Marafona, Maracás ou Paulo Bernardo, estes dois últimos por empréstimo, com o objetivo de conseguir a permanência no escalão principal do futebol português. A tarefa é árdua, mas este desporto está repleto de milagres.

Casa Pia vsSanta Clara
Casa Pia vsSanta Clara créditos: © 2023 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

5: O lugar que é ocupado pelo Casa Pia, a equipa sensação do campeonato. O clube, que não pode sequer jogar no seu estádio, construiu um plantel forte e os resultados estão à vista: está em lugar de acesso às competições europeias e a cinco pontos do quarto classificado, o Sporting. Neste mercado, foi buscar Felippe Cardoso em Santos, a custo zero; Beni, ao Trofense; Kiki Silva, ao Leixões; e Yuki Soma, por empréstimo dos japoneses do Nagoya Grampus. O ideal é que o balão não se esvazie na segunda volta.

9,5: O número de épocas que André Almeida cumpriu ao serviço do Benfica. Outrora capitão das águias, o lateral – que nos últimos tempos era dos mais mal-amados para os lados da Luz – rescindiu com o clube nesta janela de transferências e é, agora, um jogador livre. Para trás ficam outros números, os dos títulos que conquistou: cinco campeonatos, duas taças de Portugal, quatro taças da liga e uma supertaça.

12: O número de meses que o Rio Ave ficará impedido de contratar novos jogadores, após castigo aplicado pela FIFA. O caso prende-se com a contratação do camaronês Fabrice Olinga, que já nem sequer está ligado ao clube. Em dezembro de 2021, o Rio Ave assinou com o atleta depois de este se ter desvinculado do Mouscron, da Bélgica. O que o Rio Ave não sabia é que Olinga já tinha um pré-acordo com os marroquinos do Raja Casablanca, que apresentou queixa e levou à proibição do clube português de realizar novos contratos, tanto nesta janela de transferências como na próxima. Olinga saiu em setembro, o Rio Ave já apresentou recurso, e o treinador Luís Freire reagiu dizendo que a sanção "não nos torna mais fracos, mas sim mais fortes, porque precisamos ainda mais uns dos outros". Por enquanto, o clube português terá de se contentar em fazer regressar os emprestados, como Savio (estava no Goiás, do Brasil).

Paços de Ferreira vs Gil Vicente
Paços de Ferreira vs Gil Vicente créditos: OSÉ COELHO/LUSA

5: O lugar que o Gil Vicente ocupa na tabela classificativa, apesar de ter no plantel o melhor marcador da competição, ex aequo com Gonçalo Ramos: Fran Navarro. O espanhol deu que falar neste mercado de transferências, falando-se no interesse do FC Porto, que já o terá garantido para a próxima época depois de o Celta de Vigo e o Sporting de Braga terem demonstrado interesse. Fala-se que os azuis e brancos pagarão 6 milhões de euros pelo passe daquele que é, depois de Vitinha ter saído, muito provavelmente o melhor jogador da liga portuguesa sem contar com atletas dos três grandes.

16: O número de minutos que Gonçalo Guedes precisou para voltar a marcar pelo Benfica, seis anos depois da última vez. O avançado volta ao clube do coração para o ajudar a conquistar o título, e a sua estreia não poderia ter sido melhor. Emprestado pelo Wolverhampton, Guedes chegou, viu e venceu: um golo após sair do banco frente ao Santa Clara, a estreia a titular contra o Paços de Ferreira. Roger Schmidt só lhe deixou elogios: "Ele sabe como queremos jogar, disse-me que viu todos os nossos jogos da época antes de voltar ao clube".

18: O número de meses que Luan Brito estará vinculado ao FC Porto, que o pediu emprestado ao Fluminense. O jovem jogador fará parte do plantel da equipa B, onde terá de provar todo o valor que lhe é reconhecido para que os azuis e brancos accionem a cláusula de compra, estimada em 3 milhões de euros. Em 2022, marcou 12 golos em 26 jogos pelos tricolores e tem no FC Porto uma inspiração: Evanilson, oriundo da mesma escola carioca.

35: O número de golos sofridos esta época pelo Guarda Desportiva, último classificado da série B do Campeonato de Portugal. E porque é que isto é relevante? Porque o clube beirão protagonizou uma pequena surpresa neste mercado de transferências, ao garantir o empréstimo do central Heitor Casagrande junto de um dos maiores clubes do Brasil, o Corinthians. O empréstimo contempla ainda uma opção de compra cifrada em um milhão de euros, valor provavelmente incomportável para um clube da quarta divisão portuguesa. Mas, dado que "este negócio surge, em primeiro lugar, de uma boa relação de amizade que existe entre os membros da direção e o Corinthians", conforme explicou o vice-presidente do Guarda Desportiva, Alexandre Chaves, pode ser que o preço final seja ainda mais amigo.

38: O número que o avançado brasileiro Léo Pereira ostenta na camisola, depois de ter assinado pelo Marítimo este inverno. Os madeirenses estão a passar por uma das piores fases da sua história e arriscam cair para a segunda liga, competição que não disputam desde 1985. Agora com José Gomes ao leme, sendo que o treinador é o terceiro da temporada, o Marítimo está obrigado a encurtar rapidamente distâncias para os clubes imediatamente acima de si, o Santa Clara e o Gil Vicente. Para que isso aconteça, os madeirenses foram buscar vários reforços nesta janela: Marcelo Carné, Val, Makaridze, Paulinho ou Brayan Riascos tentarão manter a Madeira no escalão principal.

56: O número de anos na Terra que Kazuyoshi Miura cumprirá no próximo dia 26. O jogador japonês é uma lenda viva do seu país, tendo inspirado Yoichi Takahashi a criar o famoso "Captain Tsubasa", o melhor jogador de futebol da história da ficção. Ainda no ativo (é o mais velho jogador do planeta ainda a competir), Miura terá agora uma oportunidade na UD Oliveirense, da segunda liga, tendo vindo por empréstimo do Yokohama FC, detido pela Onodera, empresa que também tem uma participação maioritária no clube português. Por um lado, a vinda de Miura – que aos 15 anos, como Tsubasa, se mudou para o Brasil – pode ser vista como uma jogada de marketing; por outro, é deste género de histórias que o futebol (também) se faz. Se marcar um golo, brindemos com saké.

SCP vs SCB
SCP vs SCB créditos: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

81: O minuto em que Pizzi voltou a vestir a camisola do Sporting de Braga, no seu regresso ao clube onde mais deu nas vistas enquanto jogador. Um regresso infeliz, já que os arsenalistas acabaram goleados pelo Sporting. Após temporadas curtas na Turquia e nos Emirados Árabes Unidos, o médio português não escondeu "uma felicidade enorme" por "estar neste grande clube". Consigo veio Bruma, que assim regressa também ao futebol português, agora num Sporting diferente daquele em que jogou no passado. Ambos terão a tarefa de tentar levar o clube minhoto a patamares ainda mais elevados.

233: O número de minutos que Henrique Araújo somou pela equipa principal do Benfica, esta época. O jovem avançado é uma aposta de futuro para o clube da Luz, e tentará encontrar no Watford as oportunidades que Roger Schmidt não lhe concedeu. A ideia é, naturalmente, somar golos suficientes para que o valor da sua cláusula – 100 milhões de euros – faça mais sentido.

901: O número de contratações internacionais feitas pelos clubes portugueses ao longo do ano de 2022, segundo um estudo divulgado pela FIFA. Portugal foi, aliás, o país onde mais se contratou além-fronteiras, o quinto país a receber mais dinheiro (532,6 milhões de euros) e o nono a pagar mais (160,5 milhões). Sem surpresa, o país que mais vendeu para Portugal foi o Brasil, com 338 atletas a chegar ao país.

975: O número de quilómetros que separam o Funchal de Ponta Delgada. Depois de se ter destacado no Marítimo, Nanu foi contratado pelo FC Porto, mas ainda não se conseguiu impor nos campeões nacionais. Após ter estado emprestado ao FC Dallas, da MLS, Nanu tentará ser feliz em São Miguel, alinhando até ao verão pelo Santa Clara. O clube açoriano quer evitar a despromoção e, para além do lateral guineense, foi buscar jogadores como Walter González (ao Olimpia, do Paraguai), Kento Misao (ao Kashima Antlers, do Japão) e Ygor Nogueira (ao Mazatlán, do México).

4,1 milhões: O número de seguidores que Hector Bellerín tem no Instagram, tendo ganho imensos assim que foi anunciada a sua vinda para o Sporting (pelo menos no que ao Twitter feminino diz respeito). Chegou por empréstimo do Barcelona e, mais que pela sua qualidade futebolística, dá que falar por se distinguir da maioria dos seus colegas de profissão: assume-se politicamente à esquerda, adotou uma dieta vegana, mostra-se preocupado com a destruição do meio ambiente e afirmou, no passado, que os futebolistas deviam pagar mais impostos. Terá a difícil missão de fazer esquecer Pedro Porro e de ignorar os comentários da juventude indie lisboeta que adorava vê-lo num qualquer concerto da Galeria Zé dos Bois. Mas, caso isso não aconteça, também pode ser na Disgraça.

Sporting CP

16 milhões: O valor que o Benfica pagou por duas potenciais estrelas do futebol nórdico, o norueguês Andreas Schjelderup e o dinamarquês Casper Tengstedt – que, curiosamente, foram contratados a um clube dinamarquês (o Nordsjaelland) e norueguês (o Rosenborg), respetivamente. Mais que pegarem de estaca na equipa, ambos são sobretudo apostas de futuro, não tendo para já somado quaisquer minutos de jogo. O treinador Roger Schmidt assumiu que por agora Schjelderup e Tengstedt irão focar-se em melhorar os seus níveis físicos, mas garantiu: "são jogadores muito talentosos".

32 milhões: Aquilo que o Olympique de Marselha pagou por Vitinha, do Sporting de Braga, dois milhões de euros a mais do que o estipulado na cláusula de rescisão. Tido como um dos grandes jogadores do nosso campeonato, Vitinha rumará agora a França para tentar ajudar o Olympique a quebrar a hegemonia do Paris Saint-Germain, depois de Southampton e Brighton também terem demonstrado interesse no jogador. Que já fez história: é a venda mais cara da história do Sporting de Braga, ultrapassando os 31 milhões de euros que o Barcelona tinha pago por Trincão. No contrato está estipulado que os minhotos poderão accionar uma cláusula de recompra, no valor de 60 milhões de euros. Será um até já?

45 milhões: A soma total daquilo que o Sporting irá receber por uma das suas joias da companhia, Pedro Porro. O lateral espanhol despediu-se do clube de Alvalade, depois de quase três anos a defender a camisola verde e branca, saindo com um campeonato, uma supertaça e duas taças da liga no currículo. Depois de alguns dias de novela, o Sporting aceitou emprestar Porro ao Tottenham até final da temporada, por um valor a rondar os 5 milhões de euros; o empréstimo contempla uma cláusula de compra obrigatória, fixada nos 40 milhões. Nas redes sociais, o jogador preferiu não dizer "adeus", mas sim "até já" a Lisboa. "Ali em Inglaterra vão ter mais um adepto sempre a torcer. Se não fosse o apoio que tive de todos nunca teria tido o impacto que tive. Obrigado de coração", escreveu.

121 milhões: O valor que o Chelsea pagou ao Benfica por Enzo Fernández. O argentino quis sair, o Benfica vendeu-o, e Rui Costa teve que explicar a sua decisão aos adeptos, em entrevista à BTV realizada esta quinta-feira. "Tudo foi feito para que essa venda não se efetuasse", afirmou o presidente do clube da Luz. "Desde o início que o Enzo mostrou vontade de não ficar no Benfica. Não estava a mostrar qualquer compromisso" com o clube, continuou. "Estar comprometido com o projeto não é bater no peito quando marca". Um dos melhores jogadores do Mundial sai, assim, do campeonato português após uns míseros seis meses.