"Estou melhor. Ontem foi difícil. Senti-me uma m****, foi uma grande humilhação. Mas o jogo acabou, vi o meu filho novamente e isso fez-me sorrir. Obrigado por todas as mensagens de apoio que recebi", disse Marega em declarações à rádio francesa RMC Sport quando questionando sobre os insultos racistas de que foi alvo em Guimarães.

Já sobre a reação dos seus colegas de equipa — que tentaram impedi-lo de sair de campo — Marega disse que entendeu o ato como "uma reação de amigos".

"Os meus colegas não entenderam a minha reação, ficaram chocados com a minha decisão de deixar o campo. Eles tiveram uma reação de amigos, tentaram acalmar-me. Mas quando está todo o estádio a gritar insultos racistas, não é possível [continuar]", acrescentou.

Já sobre o facto de ter sido alvo de insultos em Guimarães, cuja camisola chegou a vestir, Marega disse que isso foi o que mais o chocou. "Sempre respeitei o clube e os adeptos. Fomos à final da Taça, fizemos uma das melhores épocas na história do clube. Quando jogo contra eles não celebro, respeito-os. O que se passou chocou-me. Nunca pensei que o clube tivesse imbecis como estes".

Sobre a reação do treinador, Sérgio Conceição, Marega disse que este "fez tudo" para o acalmar. "Para que eu não visse um cartão amarelo antes da substituição. Ele estava de acordo com que eu deixasse o campo", disse.

À mesma rádio, o jogador defendeu que é preciso um "gesto forte" por parte dos árbitros sobre estas matérias, nomeadamente interrompendo o jogo.

Sobre o gesto que fez apontando para a pele depois de marcar o golo, o jogador disse que "os insultos começaram antes", ainda durante o aquecimento.

"É triste que isto aconteça em 2020", concluiu.

No domingo, Marega pediu para ser substituído ao minuto 71 do jogo da 21.ª jornada da I Liga, entre o FC Porto e o Vitória de Guimarães, depois de ter sido alvo de cânticos e gritos racistas por parte de adeptos da equipa minhota.

Vários jogadores do FC Porto e do Vitória de Guimarães tentaram demovê-lo, mas Marega mostrou-se irredutível na decisão de abandonar o jogo, numa altura em que os 'dragões' venciam por 2-1, resultado com que terminou o encontro.

O Ministério Público instaurou hoje um inquérito, sob investigação no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Guimarães e a PSP está a analisar imagens de videovigilância para identificar os responsáveis.

Entretanto foram já vários os atletas, personalidades e organismos a mostrarem solidariedade para com o atleta e a repudiar os insultos de que foi alvo, entre os quais Marcelo Rebelo de SousaAntónio CostaFerro Rodrigues, assim como vários colegas de profissão.

O secretário de Estado da Juventude e Desporto considerou o incidente com o futebolista maliano do FC Porto Marega intolerável é inaceitável, assegurando que as autoridades já estão a trabalhar para identificar os responsáveis, a fim de serem punidos.

A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) lamentou o incidente e salientou que os atos de racismo “envergonham o futebol e a dignidade humana”, defendendo a punição destes.

Também os partidos se manifestaram, condenando o sucedido, nomeadamente o PS e o Bloco de Esquerda.

Em comunicado, o FC Porto condenou ontem os insultos racistas ao maliano Moussa Marega, considerando-os como um "dos momentos baixos da história recente do futebol português". Já o Vitória de Guimarães informou no domingo que "vai averiguar o sucedido no decurso do jogo realizado no Estádio D. Afonso Henriques, agindo com firmeza e consequência, em cooperação plena com as entidades judiciais competentes".

Outra das reações foi a do Sporting CP, que em comunicado publicado no seu website manifestou a sua solidariedade com Marega e admitiu não se rever neste tipo de comportamento, considerando, "que as autoridades devem agir em nome de todos aqueles que pretendem elevar o desporto e a sociedade portuguesa". Já o SL Benfica disse estar "sempre contra o racismo. Em todos os momentos em que ele se revele", lê-se numa mensagem das 'águias', acompanhada por um vídeo em que se veem adeptos de vários clubes europeus a mostrarem cartão vermelho ao racismo.

Infelizmente, as denúncias e casos de racismo no mundo do futebol têm acontecido com alguma frequência nos últimos meses. Em outubro do ano passado, a jogadora norte-americana Shade Pratt, que atua no SC Braga, denunciou a existência de insultos racistas num jogo da sua equipa diante do Cadima, em partida a contar para a Liga BPI de futebol feminino. Lá fora, um dos casos mais recentes foi protagonizado por Taison, jogador brasileiro do clube ucraniano Shakhtar Donetsk (orientado pelo treinador português Luís Castro), que foi expulso numa partida em que reagiu a insultos provenientes da bancada através de gestos obscenos e acabou por abandonar o relvado em lágrimas.

Também Romelu Lukaku, avançado belga do Inter de Milão, foi alvo de insultos racistas numa partida que opôs os milaneses ao Cagliari, após apontar um golo, numa atitude que o avançado considerou como "um passo atrás".

Já em janeiro deste ano, foi também notícia o facto de um adepto italiano ter sido banido por cinco anos de eventos desportivos na Europa em virtude de um caso numa partida de futebol que opôs o Brescia ao Hellas Verona. No referido encontro, o avançado italiano Mario Balotelli pontapeou a bola em direção da bancada na sequência de insultos racistas de que estava a ser alvo, algo que, de resto, se repetiu no início deste ano noutra partida que opõs o Brescia (clube que Balotelli representa) e a Lazio de Roma.

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