12h30 em Tóquio. 04h30 da madrugada em Portugal Continental. Pedro Pablo Pichardo sorri. Esfrega a face rápida e desenfreadamente. Grita. Um berro. Dois berros. Tradução imperceptível. Estala sincronizadamente, e por três vezes, os dedos. Bem poderia estar a preparar-se para a uma dança. Debruça-se. Simula arrancada. Para trás e para a frente. O joelho quase que toca na axila. Prepara o movimento para a eternidade.

Pichardo parte para o último salto, o sexto da final do Triplo Salto masculino, com a medalha de ouro a uma distância de trinta e tal passadas rápidas, dois passos de gigante e um voo até aterrar na caixa de areia.

O chinês Zhu Yamin, na derradeira oportunidade não conseguiu voar por cima dos 17,98 metros alcançados pelo saltador cubano naturalizado português. O mais alto lugar do pódio fica com nome reservado para Pichardo, lugar esse que entra para a história como a quarta medalha olímpica de Portugal e o resumo da melhor participação de sempre nos Jogos Olímpicos.

A mensagem de que Pedro Pichardo é campeão olímpico corre em rodapé gigante da televisão. O atleta nascido em Santiago de Cuba, a 30 de junho de 1993, e que se diz “apaixonado por Portugal”, sobe antecipadamente ao Olímpio com o record nacional batido (mais 3 centímetros) e a melhor marca do ano garantida (havia conseguido 17,92 metros, em Székesfehérvár, na Hungria, em junho).

Um salto de ouro conseguido ao terceiro ensaio. 17,98 metros. Metade do percurso. O pé ficou a 4,6 cm da risca encarnada que separa o válido (bandeira branca) do nulo (encarnada). Na repetição na televisão é percetível uma pausa no ar de milésimos de segundos que parecem segundos. Não mexe. Se Ronaldo consegue ficar quieto a centímetros do chão antes de cabecear a bola, também o saltador o faz para, no imediato, deitado na areia, levantar um pé e um braço para a fotografia.

Esteve na liderança desde as 3h07m, hora portuguesa. Mais oito horas em Tóquio, no Japão. Desde o primeiro salto. De fita branca na cabeça, vestido de verde e ténis amarelos e tons laranja, transpirou confiança logo após o primeiro de um duplo 17,61m.

O segundo lugar seria alternado ao longo hora e meia de prova entre Triki (Argélia), Claye (EUA), Zango (Burkina Faso), medalha de Bronze (17,47) e o primeiro cidadão daquele país africano a conquistar uma “chapa” olímpica em qualquer desporto e Zhu (China), ao fixar a marca de 17,57 na segunda ronda de dois saltos após a triagem dos primeiros três.

Se subtrairmos 17,57m aos 17,98m ficamos a saber que eram (e são) 41 centímetros a distância que separava China de Portugal, a prata do ouro. Foi com esta folga que Pablo Pichardo acompanhou os oito saltadores do triplo salto nos três últimos saltos. Cristian Napoles, cubano de nascença, fechou o primeiro capítulo desta final olímpica disputada, inicialmente, por onze atletas. Passaram oito para a luta por três lugares na cerimónia de entrega das medalhas.

Rezar, saltar, voar e aterrar

Rezou. Palmas da mão viradas para cima, olhos fechados, sentado numa cadeira, sem parceiro de nacionalidade para dividir espaço no tartan, Pedro Pablo Pichardo repetiu a rotina a cada salto. Ou antes voo. Rezar, saltar, voar, aterrar, conversar com o treinador, que por acaso é o pai, Jorge Pichardo, sacudir a areia e voltar a sentar. Para, minutos depois, rezar. Antes de se preparar para saltar.

Faltavam três ensaios. Três corridas a puxar o vento para se projetar mais um ou dois palmos na areia. Pichardo faz um salto nulo. Ri. Olha para o treinador que o acompanha desde os seis anos e que o conhece desde o berço (28 anos). Aponta duas vezes para os ténis amarelos.

Sentado, ele, dois brincos e um fio. E um pensamento acompanhado de concentração seráfica. O pé pede uma massagem. Um pequeno cilindro satisfaz a vontade. Zhu, o chinês regista o segundo melhor salto. À quinta tentativa atinge os tais 17,57 metros. Pichardo, passa. Não salta.

Um a um, vai terminando a prova para Fang (China), Scott (EUA), Er (Turquia), Triki (Argélia), Claye (EUA) e Zango. Falta Zhu Yaming.

Pichardo ajoelha-se. Apoiado num só joelho, olhos fechados virados para a pista, volta às manifestações de Fé. Sabe que a prata poderá ser o mínimo olímpico.

Não foi prata. Foi ouro. Zhu aterra na marca dos 15,02 e o proforma ficou nos pés do cubano que é tão português como outro qualquer e que não veio para Portugal “para substituir ninguém”, conforme sublinhou o pai em declarações à Agência Lusa.

Preparou-se. Saltou. Talvez naquele instante ainda sonhasse em bater o melhor registo da história, do britânico Jonathan Edwards, fixada em 18,29 metros, ou, pelo menos, ser o primeiro português a passar a mítica barreira dos 18 metros. “Queríamos bater o recorde do Mundo, mas não conseguimos. Trabalhámos para o bater agora, contudo não deu. Será para a próxima”, antecipou o pai e o treinador do atleta de 28 anos que deixou um desejo. Que o país “aprenda a reconhecer” o êxito de quem não nasceu com a mesma cidadania.

Estava terminada a final do triplo salto. Pedro Pablo Pichardo, atleta do Benfica, embrulhado na bandeira portuguesa olhava para a bancada vazia. Para o pai. Mostrava o símbolo das quinas. Sentou-se e tapou o corpo com as cores verde e encarnado.

Fim de prova. A medalha de ouro será entregue às 18h47 de Tóquio, 10h47 em  território nacional.

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