Episódio 6: A Era Scolari, ou como aprendemos a ser felizes (Parte 1)

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"Eu acho que Portugal, o país, não percebeu bem o que ia acontecer em 2004", começa por explicar o jornalista Rui Dias. Já o sociólogo e comentador político Pedro Adão e Silva, acrescenta que "no fundo, ainda estávamos no pós-Expo'98, que é uma celebração do país. As coisas corriam bem do ponto de vista da economia, sociedade, o emprego — isso também se transportava para o futebol". Por fim, Jorge Andrade, antigo internacional português e que fez parte dos protagonistas que elencam este pedacinho delicioso na história portuguesa que neste episódio documentamos, conclui: "Nunca tinha visto Portugal assim. Portugal estava despreocupado do que é o dia-a-dia. Em termos políticos, em termos económicos. Todo o país estava concentrado para que aquele Europeu fosse um Europeu inesquecível."

Não há muita coisa que se possa assemelhar aos dias calorosos, quentes e bons para se estar na rua do verão de 2004. A crise ainda não tinha estalado, a Expo’98 ainda estava muito presente na memória e, apesar dos avisos, ainda não era tempo de pensar no futuro dos estádios que haviam sido construídos para o torneio. E haviam bandeiras. Muitas delas.

O Decreto de 19-6-1911, da Assembleia Nacional Constituinte, veio dispor:

“1º- A Bandeira Nacional é bipartida verticalmente em duas cores fundamentaes, verde escuro e escarlate, ficando o verde do lado da tralha. Ao centro, e sobreposto à união das duas côres, terá o escudo das Armas Nacionaes, orlado de branco e assentando sobre a esfera armilar manuelina, em amarello e avivada de negro. As dimensões e mais pormenores de desenho, especialização e decoração da bandeira são os do parecer da commissão nomeada por decreto de 15 de outubro de 1910, que serão immediatamente publicados no Diario do Governo.” 

O Sargentão tinha dado o apelo. E os portugueses ouviram, corresponderam e carregaram nas suas varandas, janelas e outros adereços tais, a bandeira nacional. Quem viveu na altura recordar-se-á de viva memória; quem não estava, só muito dificilmente não terá dado já com as suas pestanas a movimentar perante as fotografias ou vídeos sobre a passagem do Campeonato da Europa por cá. Ainda assim, uma descrição para avivar: reza um artigo do Público que naquela altura havia mesmo “uma bandeira em cada janela”, assim como “muitos são [eram] os portugueses que, após o apelo do seleccionador Luiz Felipe Scolari, começaram a colocar bandeiras de Portugal em carros, janelas e varandas de prédios, animais ou até mesmo carrinhos de bebé. Há gostos para tudo e, desde que foi instaurada a República em Portugal, em 1910, estima-se que esta seja das alturas em que a bandeira portuguesa foi mais exposta, por tantos portugueses, de norte a sul do país”.

Para o jornalista Camilo Lourenço, Scolari era "um tipo muito controverso" e que "sabia que tinha anticorpos cá", pelo que "precisava de ganhar rapidamente o país". Para quê? "Para abafar as críticas que tinha. E acho que ele fez isso muito bem. Pediu para colocar as bandeiras e manifestarem-se (...) [que] foi um belíssimo exemplo disso".

Felipão tinha entrado para a história do futebol em 2002, ao levar o Brasil à conquista do "penta", um ano após ter chegado a uma formação "canarinha" à deriva. No Mundial 2002, enquanto os grandes candidatos foram precocemente afastados (nomeadamente França e Argentina), o escrete foi 100 por cento vitorioso de início ao fim, depois de levar de vencida a Bélgica (2-0, nos “oitavos”), Inglaterra (2-1, nos “quartos”), Turquia (1-0, nas “meias”) e Alemanha (2-0, na final). Além de Ronaldo (o Fenómeno), — melhor marcador da prova, com oito golos, dois deles na final —, Scolari contou ainda com o talento de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, num conjunto que funcionou à sua imagem, mas que tinha um talento de sobra, muito por culpa da categoria de outros jogadores como Marcos, Cafu, Roberto Carlos, Edmilson, Lúcio, Roque Júnior ou Gilberto Silva. O seu trajeto como técnico há muito havia começado (1982) e já contava com diversos sucessos, sendo de destacar duas Taças dos Libertadores da América (1995 e 1999) e um campeonato brasileiro (1996). No final do Mundial da Coreia e do Japão, o técnico brasileiro não quis continuar e aceitou o convite para orientar a seleção portuguesa.

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créditos: VANDERLEI ALMEIDA

"Foi-se buscar o Scolari porque ele tinha ganho um campeonato na Oriente, pelo Brasil, não se sabe muito bem como. Foi um campeonato péssimo — onde, aliás, Portugal também saiu muito mal. E foi uma saloiíce. E também não havia treinadores evidentes para ir treinar. Então, como Scolari tinha ganho, vai-se buscar o Scolari", indica o cineasta António-Pedro Vasconcelos sobre a vinda do brasileiro.

Todavia, Afonso Melo, jornalista e assessor de imprensa da seleção nacional de futebol entre 2002-2004, tem uma visão diferente.

"Acho que na altura não era muito concebível que um campeão do mundo pudesse vir a treinar a seleção portuguesa”, começa por explicar. "A seleção nacional, durante muitos anos, foi uma espécie de parente menor do futebol português, ganhou um apoio popular do qual se pode falar de facto em pátria. E é curioso porque se calhar foi um brasileiro nos ensinou a gostar de nós próprios, não é?", refere.

Foi nesta euforia que, antes e durante o Euro 2004, em qualquer prognóstico, em qualquer texto ou missiva desportiva que dissecasse o torneio que Portugal recebeu e tão bem organizou, poucos, ou mesmo nenhuns, colocaram a Grécia no lote dos favoritos à vitória. Todavia, não será falta de aprumo afirmar que as seis vitórias consecutivas na fase de qualificação, sem sofrer qualquer golo, podiam ou deviam de ter servido de aviso. E note-se que os helénicos não surpreenderam (por duas vezes) tão somente os rapazes das Quinas: franceses e checos que o digam.

O clima ajudou. E as pessoas e os corações dos portugueses fizeram o resto. De 12 de junho a 4 de julho, enquanto o sol polvilhava e as almas lusas resplandeciam perante os adeptos-turistas que, de forma harmoniosa, se espalharam por esse território afora (e iam tomando, de amigável e afável assalto, as esplanadas e locais com uma TV a dar bola), era difícil encontrar olhar português que, durante aquele período, que não estivesse a cintilar e rutilar em cada jogo. O mal, para nossos pecados, é que havia um grupo de gregos que se mostraram sólidos, pragmáticos e combativos — e que estavam numa batalha para conquistar o que lhes era pedido. Nem mais, nem menos. Sabiam aquilo que tinham e que podiam oferecer. E assim o fizeram. Jogo a jogo. Golo a golo. Bola parada a bola parada.

A cerimónia de abertura acontece no Estádio do Dragão, no Porto, a 12 de junho. O adversário é precisamente o futuro campeão. A transmissão é da responsabilidade da estação pública e o árbitro é o italiano Pierluigi Collina. Havia ambiente, público e festa — até "Força" de Nelly Furtado para animar. Só que faltou quase tudo o resto em campo.

Cerimónia de Abertura
créditos: EPA/Filippo Monteforte

"No jogo com a Grécia, no Estádio do Dragão, no primeiro jogo, nem sequer imaginávamos aquilo que iria acontecer dali para a frente. E depois do jogo, ainda pior. Porque nós perdemos um jogo que não esperávamos, de forma alguma, perder. Ou seja, entramos muito mal no Europeu", recorda Nuno Gomes.

Portugal entra quase logo a perder. Aos 7’, Paulo Ferreira está mal no capítulo do passe e Karagounis, fora de área, remata para fazer balançar a rede. Pouco mais se passaria até ao intervalo. Praticamente durante todo o jogo estiveram eles próprios gregos da cabeça; não se entendiam, havia demasiada descoordenação nas movimentações e mostravam-se perplexos pelo bloco adversário estar tão recuado e não procurar fazer um ataque como as outras equipas que defrontaram até ali. Ainda assim, no segundo tempo, Ronaldo sai do banco para o relvado e está presente nos dois momentos do jogo: comete penálti sobre o defesa Seitaridis (que acabaria por rumar ao FC Porto) e marca, num golpe de cabeça, o tento de honra português, aos 90’.

Ninguém gosta de começar a perder — muito menos em casa. E, tal como acontecera depois do amigável em Itália durante a fase de preparação, e numa altura em que Scolari vinha com ideias de jogar com três centrais, houve a necessidade de mudar. A precisar de uma vitória para esquecer a derrota, o brasileiro muda quase todo o quarteto defensivo. Saem Paulo Ferreira, Fernando Couto e Rui Jorge para dar lugar a Miguel, Ricardo Carvalho e Nuno Valente. Do primeiro desaire, em campo, só Jorge Andrade manteve o seu posto na defesa. Mais à frente, no meio-campo, sai Rui Costa para dar lugar a Deco.

"Scolari preparou uma equipa para 2004, mas verdadeiramente Mourinho preparou-lhe outra. E, portanto, quando o plano A não resultou, havia o plano B, em grande parte o Porto, campeão da Europa, uns dias antes, com um trio de ataque chamado Figo, Pauleta e Ronaldo. Quer dizer, não é preciso dizer muito para se perceber muito que, jogando em casa, um país mobilizado e um grupo unido, havia condições para ter sucesso", realça Carlos Daniel.

Esta mudança, acredita Jorge Andrade, foi a receita para o sucesso registado nos jogos seguintes. Frente aos soviéticos, Maniche faz o 1-0 e Rui Costa, saído do banco, faz o segundo da tranquilidade e fecha o resultado, num encontro que esteve sempre favorável e que assim permaneceu desde a expulsão do guarda-redes russo Ovchinnikov. "O jogo a seguir era com a Rússia que era uma seleção que jogava bastante bem. E tivemos a sorte que as coisas resultavam e então, essa equipa, depois, foi à final toda junta e foram os jogadores que iniciavam, quase sempre, os jogos", recorda.


Episódio 6: A Era Scolari, ou como aprendemos a ser felizes (Parte 2)

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Última viagem durante a Fase de Grupos

Próxima paragem: Alvalade. Adversário: Espanha. Agora é que começa a complicar porque nem era preciso fazer muitos cálculos para decidir o grupo. Para os espanhóis bastava o empate; a Portugal, só a vitória interessava. E essa chega aos 57’, através de um portentoso remate fora de área, colocado, rente à relva e de belo efeito.

"É daqueles jogos que tudo bate certo — até o pontapé do Nuno Gomes, que faz o golo, é um pontapé certeiro, que só o Nuno podia fazer", explica Jorge Andrade. Mas nada como o testemunho do próprio autor, que tinha sido suplente, mas que entrou para resolver.

"Foi uma explosão de alegria: eu marcar o golo e quase sentir que o estádio vinha abaixo. Foi um lance que ninguém esperava que eu fizesse golo, daquela forma. Mas é sem dúvida um dos melhores momentos que eu vivi como jogador de futebol", diz Nuno Gomes.

Ainda sobre o esse jogo, Afonso Melo, recorda a curiosidade passada dentro de campo.  "Lembro-me do Petit estar aos gritos a dizer para o Raul [avançado espanhol], que estava perto do banco de Portugal a dizer: não te preocupes, não te preocupes, que no outro jogo... [Grécia x Rússia] passamos os dois, passamos dois, mesmo com este resultado. Não passaram os espanhóis".

Mas passou Portugal.

Portugal vs Espanha
créditos: AFP

E depois do golo de Nuno Gomes, Torres iria atirar ao poste e Helguera à barra. Audaces fortuna juvat. Que é como quem diz, a sorte protege os audazes. E como se diz na gíria quando estamos do lado de quem defende: fazem parte do jogo.

O encontro que se seguiu, nos quartos-de-final, está na memória de muitos portugueses. Foi frente à Inglaterra. E foi tão épico como o jogo frente de 2000.

"O jogo como Inglaterra pareceu um filme. Teve um princípio, um meio e fim como uma história perfeita. Começámos a perder com um golo do Owen — e o Hélder Postiga entra, ele que talvez não era a primeira opção para o ataque e faz o golo. Numa situação em que pensámos que já tínhamos dado a volta ao resultado, eles marcam e vamos a penáltis", relata Jorge Andrade.

No prolongamento, Rui Costa, que tinha entrado a pouco mais de 10’ do fim do tempo regulamentar, faz um golo de belo efeito e dos melhores golos da carreira ao serviço da seleção. Cristiano Ronaldo recupera na direita, Deco recebe a bola ainda atrás da linha meio-campo e entrega quase no pé a Rui Costa; este só vê terreno para desbravar e procede numa imponente (mas tão elegante) galgada no centro do terreno até à área adversária. Phil Neville ainda bem tentou ir atrás do 10, mas este flete para o centro já com o defesa caído no chão e de pé direito envia um bilhete que ainda toca na barra.



Para triste infortúnio, Lampard jogava na equipa adversária e adiou a festa. Foi tempo de reunir as tropas e o grupo abraçar para ver o colega Ricardo fazer das suas.

Nas palavras do próprio: "A emoção às vezes fala mais alto também. Aquele momento mágico, aquele momento divino em que parece ouvi uma voz do céu que disse Ricardo tens de fazer alguma coisa para nós ganharmos isto. E, pronto. Decidi tirar as lutas e defender já este e a seguir a é a minha vez de marcar e vamos lá ganhar isto."

O resto todo o mundo sabe. Mas Nuno Gomes relata um detalhe sobre essa decisão de bater o penálti que talvez não seja assim tão famosa e conhecida.

“Eu era o último a bater. E o Ricardo pediu para bater em último. Lembro-me de que, com o mister, com o Scolari, no meio do campo, estávamos a olhar para o papel e tinha-lhe dito: Olhe, o Ricardo quer ser o último! [E Scolari responde] Ricardo, Ricardo...? Ah, não sei. Decidam vocês!”, conta. “Pronto, era o Ricardo a ser Ricardo. A minha dúvida era se ele ia fuzilar o guarda-redes ou se ele ia colocar. Ainda bem que ele quis chutar com força”, remata

E, agora, outra história, daquelas de foro pessoal. O mesmo lance, o mesmo protagonista, mas com intérprete diferente. Sai Nuno Gomes, entra Camilo Lourenço.

"Uma vez estava a jogar golfe com o Ricardo, o guarda-redes da seleção. E perguntei-lhe assim: olha lá Ricardo, quando a Inglaterra, quando fomos a penáltis, o que é que tu pensaste? Ele dizia: pensar, o quê? Quando estava a defender? Não, não. Quando tu foste marcar aquele penálti. E o Ricardo diz-me assim: O que é que eu pensei? Não pensei nada. Eu já a estava a ver lá dentro. Até me arrepiei...".

Depois desse momento, numa questão de minutos, a Praça Marquês de Pombal, em Lisboa, que estava literalmente vazia, encheu-se de um momento para outro com milhares de pessoas com bandeiras e buzinas. Foi uma alegria repleta de paixão que representa bem o que foi este jogo, esta vitória, que terminou com o 6-5 nos penáltis. Seguia-se a Holanda, em Alvalade, nas meias-finais.

É o jogo que serviu para carimbar a passagem à final da Luz. Ronaldo marcou de cabeça (mais um) e Maniche, talvez o melhor jogador do torneio, escreveu, do meio da rua, uma das mais lindas histórias que se podem recordar em linhas sobre este Europeu. A Laranja não teve muito sumo, tendo exprimido um autogolo azedo e sem açúcar, por infelicidade de Jorge Andrade. Vale a pena recordar o golo, ainda que a cabeça já esteja na Luz.



Portugal estreou-se na prova com uma derrota, naquilo que, na altura, a imprensa apelidou de "tragédia grega". Mas mal sabiam os jornais que essa expressão, um mês depois, daria lugar à verdadeira "tragédia". De nada valeram as rezas quando, num Estádio da Luz a rebentar pelas costuras, Charisteas nos fez aquela autêntica iniquidade. Todavia, a triste verdade, vistas as coisas agora a frio, é que já se tinha combinado com o porteiro a entrada para o afago da histeria final da festa de Dioniso, mas ninguém se lembrou de ver primeiro se ele nos tinha enviado um convite.

Não há como mentir e negar que, na nossa cabeça, uma das mãos estava já estava na taça porque a nossa crença era por aquela altura inabalável e seria impossível perder contra os gregos. Éramos superiores. E jogávamos bem melhor à bola. E depois de ver um guarda-redes a defender sem luvas, Maniche a fazer uma obra arte que mandou com as tulipas uma seleção onde perfilavam nomes como van der Sar, Edgar Davids, Jaap Stam, Clarence Seedorf, Arjen Robben ou Marc Overmars, quem é que nos podia censurar? Derrota à vista? Nem por sombras, nem num milhar de anos.

"Creio que, de repente, estávamos todos convencidos que depois das vitórias épicas sobre a Holanda, sobre a Espanha, sobre a Inglaterra (aquele jogo absolutamente memorável), que nós não podíamos deixar de ganhar à Grécia. A verdade é que no futebol é sempre possível deixar de ganhar a alguém. Eles defendiam num 4-5-1 que era quase um 9-1, se quisermos ser justos. Porque, pronto. Era o Charisteas à frente, à espera que houvesse depois um canto para marcar de cabeça. E jogavam depois com 9 jogadores em duas linhas muito fechadas e baixas, criando portanto muitas dificuldades”, começa por relembrar o jornalista da RTP Carlos Daniel.

“Nós podemos arranjar muitas explicações laterais, mas verdadeiramente 90% da explicação para um jogo está sempre no que se vê no relvado. Portugal, se formos ver essa final outra vez, vamos perceber que Portugal não fez um bom jogo. E o que explica essencialmente isso é que nós, com equipas que jogavam mais, que se abriam mais, que vinham jogar, como a Holanda, uma Inglaterra, mostrar todo o nosso talento e a nossa qualidade, [mas] com uma equipa que jogava toda atrás, fechada, nós não fomos capaz de encontrar o caminho”, finaliza.

Final do Portugal vs Grécia
créditos: Agência Lusa

Cada um terá a sua história e recordar-se-á da festa que tinha planeado. Infelizmente, muitos tiveram que, impávidos e cabisbaixos, ter que ir para casa. Rui Jorge, que fez parte do plantel e do grupo que Scolari escolheu em 2004, conta a sua versão. "Tenho na minha memória a forma como saí do Estádio da Luz na altura. Saí, fui a pé para casa e era a desilusão em todas as pessoas”, disse.

Mas a história de Nuno Gomes, porém, não deixa de ser mais caricata. É muito difícil viver aquela final enquanto português apaixonado por futebol, mas mais será para quem andou a correr e a suar no campo, a sentir o peso nos ombros de nos representar a todos da melhor maneira. Especialmente se a derrota acontecer na véspera de aniversário.

"Eu não fui a pé para casa. Tem a curiosidade que a final foi a 4 de julho e eu faço anos a 5. E quando sai do Estádio já era depois da meia-noite, já era dia 5. E, portanto eu fui para casa e abri a porta e tinha lá uma série de amigos que me tinham organizado uma festa surpresa — a contar que íamos ser Campeões da Europa. Apeteceu-me correr com eles todos dali para fora, mas achei indelicado. E tive a festejar, entre aspas, com eles", conta-nos Nuno Gomes.

Entre aspas porque, na verdade, todos nós sentimentos com aquelas imagens dos jogadores a ver a festa dos gregos. Florbela Espanca escrevia no seu Livro de Mágoas que sentia a alma cheia de tristeza! / Um sino dobra em mim Ave-Maria! e nós sentíamos a desilusão total e cabal como país anfitrião que perde uma final em casa pela primeira vez na história dos europeus. Ronaldo chora e nós com ele pelo que dói imenso, mas pior é ver o nosso Eusébio a entregar a Taça aos gregos. De coração de pedra e negro, reconhecemos que, ainda que não tenha deslumbrado, a seleção helénica ganhou com mérito na sequência de um malfadado canto que nos pôs gregos a todos.

Portugal
créditos: EPA/YURI KOCHETKOV

Como uma força, como uma força

Como uma força que ninguém pode parar

Como uma força, como uma força

Como uma fome que ninguém pode matar

A música oficial do evento, "Força" foi escrita e interpretada pela cantora luso-canadiana Nelly Furtado. A música passou em todos os jogos do torneio e a cantora atuou ao vivo no último jogo, no Estádio da Luz. Mas a verdade é que a cabeçada de Charisteas, naquele final de tarde, não nos matou, mas foi mais forte e tirou-nos a fome.

Este nome que é sinónimo de frustração, mágoa e imensa melancolia aos portugueses para todo o sempre. Angelos Charisteas. O grego que é o autor golo que ditou que Portugal fizesse parte da história daquele torneio para todo sempre como organizador e… finalista. Campeões haveríamos de o ser, 12 anos depois.

Apesar de ter marcado o golo vitória, a verdade é que o jogador do torneio acabou por ser Theodoris Zagorakis. O médio não marcou qualquer golo em Portugal (tal só aconteceria à 101ª internacionalização, num encontro frente à Dinamarca, sete meses depois) e viria a terminar a carreira em 2007, na sequência da seleção helénica ter falhado a qualificação para o Mundial do ano anterior. Somadas, foram cerca de 120 internacionalizações e 3 golos, tendo representado Kavala, PAOK, Leicester City, AEK, Bolonha (devido ao bom Europeu em Portugal) e PAOK. Retirou-se em 2007, tendo conquistado, a nível de clubes, apenas uma Taça da Grécia conquistada no ao serviço do AEK, em 2002, e uma Taça da Liga, pelos foxes, em 1999/2000.

Os gregos, liderados pelo alemão Otto Rehhagel, um veterano nestas andanças do futebol, com passagens por clubes como Werder Bremen e Bayern Munique, foram subindo degrau a degrau e ludibriando os adversários. Aquilo que não tinham em recursos técnicos, tinham em disciplina. Era a sua forma de sufocar, vergar e ultrapassar os adversários. E estes, quando davam por isso, já estavam a contas com o relógio para marcar — só que no fariam até final. Podiam ter a bola, controlo do jogo e terreno. Mas não tinham nos golos.

Grécia vs República Checa
créditos: EPA/ANTONIO SIMOES

Enamorados por toda uma envolvência anacional, provavelmente nem estudámos da melhor forma o jogo grego. Não reparámos como os franceses, campeões em título, chegaram aos quartos-de-final e acabaram derrotados. Tal como nos aconteceu no primeiro jogo a Portugal e iria acontecer também à República Checa, nas meias-finais, via Golo de Prata. E atenção que estes checos eram bons nisto do futebol — eles, sim, teriam hipóteses e credenciais para levarem o caneco, segundos os especialistas. Petr Cech, então com 22 anos, iria rumar ao Chelsea no início da época; Karel Poborský, Tomáš Galásek, Tomás Rosicky, Pavel Nedvěd (Bola de Ouro e que saiu lesionado na meia-final do Euro 2004), Milan Baroš (que ganharia a Liga dos Campeões no ano seguinte ao serviço do Liverpool e seria o melhor marcador do Euro) e o possante Jan Koller de 2,02m (ainda o melhor marcador da história da seleção) na ponta do vértice ofensivo. Ficaram em 1º num grupo com Holanda, Alemanha e Letónia.

As entradas, prato e sobremesas preparadas para Otto Rehhagel foram imaginadas sempre com os mesmos ingredientes: o esteio principal da defesa era Trainos Dellas; Theodoris Zagarakis, era um autêntico espartano que servia de escudo aos centrais; na frente, o oportunista Charisteas. Foi assim na fase grupos e assim foi durante a fase do mata-mata.

Mas, então, cadê os crónicos candidatos? Aqueles com grandes estrelas e favoritos? Na Fase de Grupos, a França de Zinedine Zidane, ainda que tenha conseguido uma reviravolta daquelas épicas em jogo frente à Inglaterra, com dois golos depois dos 90’, nunca foi capaz de apresentar um nível semelhante ao registado em 2000. As individualidades estavam, mas o coletivo nem por isso. E por falar em Inglaterra: foi mais do mesmo. Muito alarido, desta feita com a esperança depositada num jovem com 18 anos. Wayne Rooney era o adolescente que tinha assinado pelo Manchester United e era o jogador cujos ingleses queriam que Scolari, atual campeão mundial de seleções em título, na conferência de imprensa, dissesse que era o novo Pelé. Marcou quatro golos (bisou frente à Croácia e Suíça), mas o fado lusitano (e o Jorge Andrade) empurrou o jogador para fora das quatro linhas para ver a bota de Ricardo, num dramático desempate por grandes penalidades nos quartos-de-final, a ditar o fim de linha para a seleção dos três leões.

Final Portugal vs Grécia
créditos: EPA/OLIVER BERG

Quanto aos nuestros hermanos, que nos fizeram companhia na fase de grupos, tal como acontecerá no próximo dia 15 de junho, no Mundial da Rússia, em Sochi, nem passaram da desta fase — ao contrário daquilo que Petit gritava para o banco espanhol em Alvalade. A Holanda, repleta de talento a nível individual, foi eliminada por Portugal nas meias-finais. E, no fim, acabou por ser uma equipa sem estrelas famosas que conquistou a Europa.

Findo o capítulo, o que terá levado Portugal desta derrota? Na opinião de Samuel Úria, músico e cronista do SAPO24, "o simples facto do Scolari não ter sido despedido depois duma derrota com a Grécia, comprova que nós conseguimos olhar para o lado positivo do que tinha acontecido. E passavam as imagens do autocarro da seleção, com as bandeiras, com as escoltas e com tudo aquilo que tinha acontecido de bonito. Acho que perseguiu e deu ganas a Portugal a pensar: epá, somos tão felizes quando estamos juntos que vamos carpir juntos que isto também vai ser bonito..."


 “Chegámos Lá, Cambada” é um documentário produzido pela MadreMedia e que vai estar em exibição no SAPO24 entre 22 de maio e 14 de junho. Ao longo de oito episódios vamos contar a história de 30 anos da seleção, do pontapé de Carlos Manuel, em Estugarda, ao golo do Éder, em Paris, que nos deu a vitória no Euro 2016.

As suas memórias destes 30 anos fazem parte da história. Partilhe-as connosco através do email chegamoslacambada@sapo.pt e os melhores textos serão publicados neste dossier especial.

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