A Caixa Geral de Depósitos (CGD) - que registou em 2016 um prejuízo histórico de 1.859 milhões de euros, mais de dez vezes superior aos resultados negativos registados em 2015 - vai encerrar 61 agências, a maior parte destas (18) na região da Grande Lisboa, 15 a norte, 15 a sul e nas regiões autónomas e 13 na zona centro, sendo que pode consultar aqui a lista dos locais visados. Mas, se o número é nacional, a realidade é local e o impacto direto para cada agência que fecha as portas. Queixam-se autarcas, queixam-se comerciantes e queixam-se idosos.

“Não fomos tidos nem achados nesta decisão. A cidade de Lordelo está a ser tratada como uma cidade de segunda. Não pode haver cidadãos de primeira e cidadãos de segunda”, diz Fernando Nuno Lamas Serra, presidente da Junta de Freguesia de Lordelo. Como ele, também Manuel da Conceição António (Monte Gordo), José Manuel Cunha (Pousos) e Dário Silva (Oliveira do Douro) souberam dos encerramentos pela comunicação social. “As pessoas só contam quando vão fazer depósitos”, lamenta este último, salientando que o processo foi “unilateral”. “Se fosse para negociar teriam entrado em contacto com a Junta. Nem sequer um alerta”, diz Dário Silva. “As pessoas ainda não se consciencializaram dos efeitos. Ainda não perceberam que ‘é a sua agência’ que vai fechar. E o descontentamento da população vai sobrar para a Junta, mas nem sequer fomos ouvidos”, acrescenta.

“Vamos lutar pelos nossos direitos porque todos pagamos impostos"

E cada caso é um caso. Em Gualtar, Braga, quatro minutos de carro ou 20 minutos de caminhada permitiram chegar à agência que se vai manter aberta, no Campus de Gualtar da Universidade do Minho. O problema? “O acesso é mais difícil porque se encontra dentro do campus e a filosofia da própria agência é virada sobretudo para os estudantes”, conta o presidente da Junta de Freguesia de Gualtar, João Nogueira, que adiantou ao SAPO24 que será colocada uma faixa no edifício da agência a encerrar com a frase ‘A CGD também é serviço público. Não ao encerramento’. “Vamos lutar pelos nossos direitos porque todos pagamos impostos. A solução não está em cortar a regra e esquadro”, assegura.

Já em Termas de S. Vicente, Penafiel, a distância entre o balcão a encerrar e a alternativa mais próxima do banco público é determinante: são 15 quilómetros. “[O encerramento] é um erro. Enviámos uma carta ao Governo de Portugal e estamos a fazer um abaixo-assinado”, conta José Soares, para quem este tipo de decisões deveria ser tomada depois de se conhecer a realidade local. “A população está um bocado desanimada. Ponderou-se fazer uma manifestação, mas acabou por não se considerar oportuno”. Para já, segue a recolha de assinaturas para o documento que tem como destino o Ministério das Finanças.

“É mais uma daquelas medidas que não tem pés nem cabeça”. É a primeira frase que sai da boca de Fernando Nuno Lamas Serra quando questionado sobre o encerramento da agência da Caixa em Lordelo. “Os poucos serviços públicos que temos aqui estão a ser retirados. Eu estou indignado e a população também”, garante. “Eu pago impostos para ter um balcão aqui. Andamos a lutar diariamente contra o próprio Governo que é quem nos devia ajudar”, lamenta.

A alternativa do banco público a esta agência da Caixa, conta o responsável, fica a 10 quilómetros, na sede do concelho, e não há soluções de transporte à altura. “Perde-se um dia”, diz. No centro das suas preocupações estão “os idosos, que não sabem o que fazer agora. Possivelmente, terá de ser a Junta a levar os idosos no autocarro social para irem levantar as pensões”. “Estou a pensar se nos devíamos associar aqui a outras freguesias para fazer uma manifestação”, conta Lamas Serra. No fim da conversa, um desabafo: “o apelo é para que o Governo repense esta situação, ou então que se privatize a Caixa. Aí não temos nada a ver com isso. Se não, além de dar prejuízo não serve a população”, remata.

Em Atouguia da Baleia, Peniche, a notícia do encerramento da agência foi recebida com “alguma mágoa”, diz António Prioste Salvador. “É sempre uma mais valia que se perde. Aqui a Junta não vai deixar de ser cliente da Caixa, mas vai coordenar-se de outra forma com as restantes entidades bancárias”, conta. Além disso, num primeiro momento, foi enviado “um ofício para Mário Centeno e Paulo Macedo para protestar de forma clara, frontal e veemente contra o encerramento”. À data desta conversa, a 31 de março, não havia resposta à missiva. O balcão mais próximo fica a seis quilómetros, mas “não se têm deslocado muitas pessoas à Junta para protestar porque existem alternativas”, ou seja, bancos privados que podem dar resposta. Quando questionado sobre a possibilidade de fazer um abaixo-assinado, responde: “seria mais do mesmo”. “Serão os idosos os mais afetados com esta decisão”, reconhece, acrescentando: “Quanto a mim, quero ver se vou lá [ao balcão alternativo] o menor número de vezes possível”.

“(...) está tudo preocupado, perguntam-se como vão receber a reforma, como vão atualizar as cadernetas"

Em Monte Gordo é exatamente ausência de alternativas que preocupa Manuel da Conceição António, presidente da Junta de Freguesia. Com o encerramento da agência da Caixa Geral de Depósitos resta apenas o balcão do Crédito Agrícola, que pode não conseguir dar resposta ao pico de verão, altura em que Monte Gordo se enche de turistas. No que concerne os idosos “está tudo preocupado, perguntam-se como vão receber a reforma, como vão atualizar as cadernetas.

A Caixa mais próxima fica a cinco quilómetros, em Vila Real de Santo António. Temos um transporte social e estaremos atentos às necessidades da população, sobretudo às pessoas de mais idade”, diz. Assim, também nesta localidade está em curso a recolha de assinaturas para um abaixo-assinado. “A recolha está a ser feita em casas de comércio e também na Junta”, conta o presidente. Uma coisa é certa, diz, “não podemos ficar de braços cruzados”.

É exatamente a “componente social” da Caixa que José Manuel Cunha, presidente da União de Freguesias de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes destaca quando questionado sobre o encerramento da agência em Pousos. Primeiro uniram-se as freguesias, depois encerraram-se escolas para fazer mega-agrupamentos, “as pessoas têm a sensação que é sempre a perder” e acabam por ficar “resignadas”, resume.

No que diz respeito à Junta de Freguesia de Pousos, “terão de ser reorientados os recursos financeiros para outras instituições. Deixaremos de trabalhar com a Caixa com a mesma intensidade”, assegura. “Pousos é uma freguesia com muita atividade comercial. Pessoalmente estou convencido que vão [a Caixa] perder com isto. Devem olhar atentamente para esta freguesia de Pousos que está em crescimento. Atrai muita gente e, logo, depósitos. Estamos a criar condições para se investir aqui e é um revés”, diz. Com este encerramento, o balcão mais próximo da CGD ficará a cinco quilómetros, em Leiria, mas Cunha lembra: “O fator tempo para as empresas é essencial”.

A Caixa Geral de Depósitos, liderada atualmente por Paulo Macedo, registou em 2016 prejuízos de 1.859 milhões de euros. Estes resultados são referentes às administrações lideradas por José de Matos, até final de agosto, e de António Domingues, de setembro até final de dezembro. A lista de agências a fechar foi negociada com Bruxelas pela anterior administração da Caixa Geral de Depósitos, liderada por António Domingues, e é uma das contrapartidas acordadas para que a recapitalização da CGD que está a decorrer, num montante superior a 5.000 milhões de euros, não seja considerada uma ajuda de Estado.

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