Quando um artista português consegue recolher 48 toneladas de lixo e desperdício, quando usa para matéria-prima aquilo que deitamos fora, ou que deixamos apodrecer na rua, algo está mal. A exposição Attero de Bordalo II, goste-se ou não, considere-se arte ou não, é, admitamos, um valente murro no estômago, porque mostra a quantidade de objectos desnecessários na nossa vida, e a despreocupação com que nos livramos daquilo que já não queremos, que se estragou ou que foi substituído por uma versão mais recente. São muitas peças feitas a partir de plástico, o mesmo que anda à deriva no mar, que mata baleias que dão à costa com as suas entranhas repletas de objectos de plástico, o mesmo que deitamos fora todos os dias sempre que abrimos uma nova embalagem.

Eu sei que falar sobre as alterações climáticas chama à discussão um conjunto de especialistas que se aprontam a negar as minhas afirmações, questionando-me por falta de conhecimento na matéria. Obrigada. Não é preciso estudar muito para perceber que há uma diferença fundamental na forma como vivemos hoje, em relação ao passado. Não. Nessa altura não era melhor e foi lá, no passado, que começámos a poluir sem a consciência das implicações que determinadas decisões poderiam ter no nosso futuro. Chama-se falta de informação e conhecimento.

E agora, qual é a nossa desculpa?

A informação está disponível para quem quiser saber mais e, embora possam existir dados contraditórios, há um consenso generalizado em relação à necessidade de fazermos alguma coisa, mudarmos o que fazemos ou, simplesmente, deixarmos de fazer, para garantirmos a sobrevivência futura no planeta.

Acredito nas pequenas ações que não mudam o mundo mas ajudam. Bordalo II, por exemplo, usou a arte para se expressar, demonstrar e apelar às consciências sobre a nossa acção no meio ambiente. Todos podemos fazer mais do que já fazemos: a torneira que se fecha quando lavamos os dentes, o duche que passa a ser de 3 minutos, os alimentos que compramos a granel, o saco das compras que levamos de casa. A mudança está (lentamente) a acontecer. Vejo cada vez mais pessoas com o seu saco para transportar as compras. Muda o mundo? Não. Mas é menos um saco que irá, a seu tempo, parar ao aterro. O attero.

Portugal está a secar e a culpa não é apenas das alterações climáticas. É também de políticas públicas que negam a existência do problema e, principalmente, que preferem ignorar a fonte desse problema, na nascente dos nossos rios que correm por aqui até ao mar. Os que não nascem no nosso país. Tal nunca foi devidamente acautelado. Ou foi, e os nossos vizinhos são uns malandros? Talvez seja um misto dos dois, na certeza, porém, que não somos nós que decidimos quando fechar a torneira. O que significa que estamos muito perto de ficar à míngua. Quando é que chove? Ah, pois. Isso das alterações climáticas...

Paula Cordeiro é Professora Universitária de rádio e meios digitais, e autora do Urbanista, um magazine digital dedicado a dois temas: preconceito social e amor-próprio.  É também o primeiro embaixador em língua Portuguesa do Body Image Movement, um movimento de valorização da mulher e da relação com o seu corpo.

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