A affirmative action enquadra uma ação de promoção de acesso das minorias étnicas a lugares no sistema público. Foi lançada em 1961 pelo presidente John Fitzgerald Kennedy, no pico da batalha contra a segregação racial. É uma medida que veio a ser banida pelo Supremo Tribunal dos EUA, na sequência de uma queixa que gerou um processo célebre conhecido como Bakke vs. University of California.

Tudo começou com um caso no curso de 72-73 na Faculdade de Medicina da Universidade da California em Davis. A Faculdade definiu nota mínima para seleção entre os 2664 candidatos, mas com o critério complementar de reserva de 16% das vagas para alunos de minorias étnicas. O candidato branco Allan Bakke foi excluído, apesar de com melhor nota do que alguns dos candidatos negros e hispânicos que foram admitidos, ao abrigo da affirmative action.

Os advogados de Bakke argumentaram que a affirmative action viola a constituição dos Estados Unidos. O caso arrastou-se com sucessivos recursos até ao topo, o Supremo Tribunal dos EUA que, numa sentença em que cinco juízes votaram a favor e quatro contra, deu razão a Bakke ao considerar que a raça, a etnia e o género não podem ser critério para preferência tanto na contratação pública como no acesso a escolas públicas.

Agora, os órgãos de governo da University of California decidem “repelir” aquela proibição da “discriminação positiva”.

A universidade da Califórnia, com o maior sistema universitário nos EUA, tem cerca de 300 mil estudantes e 23 mil professores, distribuídos pelos dez campus, entre os quais estão Berkeley, San Francisco, Los Angeles, San Diego e Santa Barbara.

A deliberação radical agora tomada pelo governo desta universidade pública coincide com o crescendo do movimento “Black Lives Matter”. É assumida a intenção de “corrigir a representação dentro da universidade dos grupos étnicos que contribuem para a prosperidade da Califórnia”.

Há maioria (36%) de afroasiáticos entre os alunos do primeiro ano das diferentes escolas desta universidade. O segundo maior grupo é o formado por hispânicos (34%). Os brancos são 22% e os negros apenas 5%.

A discussão está há muito instalada, designadamente em assembleias de professores e de estudantes, sobre as condições sociais que favorecem os asiáticos e penalizam os afroamericanos. Sondagens mostram que tem crescido na Califórnia o apoio a políticas que mitiguem as desigualdades no acesso ao ensino superior e à contratação pública nos EUA.  É reconhecido que a discriminação positiva permitiu, no último quarto do século XX, esbater a subalternidade das mulheres. Também contribuiu para melhorar a inclusão de pessoas com alguma incapacidade física.

A discriminação positiva, tanto nos EUA como na Europa ainda não conseguiu encontrar um critério sem polémica para a sua aplicação.

De um lado está o argumento de que deve ser favorecida a autonomia dos menos autónomos. É um modo eficaz, ou pelo menos potencialmente eficaz, para lograr o objetivo social desejável de maior integração de pessoas de grupos tradicionalmente desfavorecidos.

No lado oposto está o argumento de que a adoção de quotas rígidas e obrigatórias pode prejudicar a meritocracia e forçar uma aparência de diversidade que não é real.

Em fundo, está a constatação de duas realidades: discriminação positiva é diferente de igualdade de oportunidades, mas o atribuir alguma vantagem na grelha de partida, de modo a corrigir desvantagens sociais, pode ser o modo para desenvolver a igualdade de oportunidades.

Na University of California os representantes da maioritária comunidade asiática estão a protestar contra o que chamam de recuo na história com o regresso a favoritismos raciais.

Vale ser debatido este confronto entre a igualdade politicamente correta e a cultura de mérito. Como pode ser conseguida a conciliação?

MORRICONE: UM SÉCULO DE MÚSICA PARA “OUVER”

A vida de Ennio Morricone desligou-se agora, aos 91 anos, mas ele já tinha construído através da música uma harmoniosa imortalidade. Morricone é um genial criador musical do último século. Para Morricone, música significa liberdade.

Sucessivas gerações trautearam o Here’s to You que Morricone compôs para Joan Baez cantar no filme Sacco e Vanzetti. Ficou conhecida como a Balada de Sacco e Vanzetti.

Morricone teve sempre sensibilidade extraordinária para criar música capaz de conseguir maravilhosa harmonia com as imagens definidas por grandes cineastas de sucessivas gerações. Foi assim com Brian de Palma, com Sergio Leone, com Giuseppe Tornattore, com Quentin Tarantino. Que pena não se ter concretizado a parceria com Stanley Kubrick, que ambos desejavam. Vale ver a série de documentários dedicou a Ennio Morricone. Este é o primeiro.

Morricone dá-nos a escutar como é a arte para criar sensações através da música: comover, sugerir mistério, causar medo, maravilhar.

Mais do que compositor, Ennio Morricone é um criador, genial.

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