Vamos então olhar em detalhe as três tribos. Para despacharmos já a última (os que não sabem o que é o Natal), podemos assumir que nela estão incluídos os religiosos muçulmanos, budistas, judeus e crentes noutras religiões menos difundidas; mas, é tal a influência do ocidente, que em muitos países não cristãos se fazem festas várias, algumas bastante surreais, para festejar não se sabe bem o quê. Um amigo meu participou numa festa de Natal numa discoteca em Beirute, com decoração de bolas coloridas e neve artificial ... Eu próprio já estive numa tarde natalícia numa casa nocturna cheia de travestis em São Paulo, onde toda a gente chorava porque não tinha Natal em família (que estava longe ou não os reconhecia) e dançava disco freneticamente. Para estas tribos, o Natal é o que uma pessoa quiser.

Depois há as tribos cristãs (romanas, ortodoxas, pentecostais, calvinistas, evangélicas, etc, etc e etc) onde encontramos os outros dois grupos; os que amam e os que detestam a quadra natalícia.

Para alguns dos que amam, é a celebração do nascimento de Jesus Cristo, com missas, rezas, e banquetes alimentares. É uma ocasião para as famílias alargadas se reunirem, o que não acontece no resto do ano, e aproveitarem para declarações de amor fraternal, sessões de má língua e discussão de questões familiares nunca resolvidas. O símbolo de eleição é o presépio, que pode ir da talha dourada seiscentista em escala quase natural para os bem-nascidos e ainda abonados, ou mal-nascidos mas que subiram na vida, até à simples montagem de barro saloio para quem pode menos.

Para os que detestam a quadra, trata-se apenas de  regabofe alimentar e inimizades íntimas com parentes próximos, o que tanto pode levar a afirmações sibilinas e indirectas sarcásticas, como a discussões abertas sobre heranças, casamentos indesejados, o sucesso dos que já subiram tanto na vida que não vão aos festejos familiares e outros atritos que seria extenso demais enunciar. O símbolo de eleição é a árvore de Natal, que às vezes, cada vez menos, convive com um presépio.

E há a questão dos presentes. Inicialmente, isto é, desde o século I até ao XIX, eram singelas prendas a lembrar as oferecidas pelos reis magos. Depois, à medida que a sociedade se tornou mais abundante, foi-se transformando num frenesim de responsabilidades – é preciso dar a todas as crianças, e à tia fulana que fica ofendida se não receber nada, além de retribuir devidamente os brindes dos parentes imigrados que vêem carregados de coisas caras e irritantes histórias de sucesso.

Assim, o Natal contemporâneo é uma penosa peregrinação gastronómica pelos diversos parentescos ou espécie de parentesco que a sociedade moderna criou – a consoada com os filhos do primeiro casamento, o almoço com os sogros do segundo, o jantar em casa do novo marido da Nelinha com os filhos do outro marido da Nelinha. E ainda os banquetes com os amigos, os ágapes da empresa, os lanches do clube de bridge ou bisca lambida. Em todos estes casos há que presentear, e muito. Por isso o Natal contemporâneo é também o pique das vendas para o comércio, indústria, serviços e biscates – a última esperança de grandes lucros para um ano com pouco movimento. O marketing foi inventando outras festas criteriosamente espaçadas para vender mais – o Dia dos Namorados, o Dia dos Avós, o Dia da Criança – mas nenhum tem a massa crítica e o ímpeto frenético do Natal. As lojas enchem-se de consumidores cansados e desesperados, e o comércio online vê-se às aranhas para entregar a tempo os produtos mais estapafúrdios. A China começa a trabalhar em overtime a partir de Outubro.

A maior parte das pessoas já nem sabe o que originou esta orgia alimentar e presenteadora. Começou por ser uma festa religiosa, lembram-se? Mas também não é tão importante que se lembrem, porque a verdade é que a festa religiosa começou por ser uma festa pagã. O acontecimento pré-histórico que séculos depois ainda nos leva a passar tardes às compras e noites em empanturramentos é o solistício de Inverno, que decorre a 21 de Dezembro desde que os homens descobriram que o Sol anda à volta da Terra. (Depois descobriram que é ao contrário, mas não mudou o facto de que se trata do dia em que os dois estão à máxima distância.)

Já em tempos imemoriais, antes da escrita, se celebrava esta situação astronómica com grandes cerimónias. Para certos povos pagãos chamava-se Yule. O monumento de Stonehenge, em Inglaterra, é um dos locais que ainda perduram desses tempos. Outro é o vale de Boyne, na Irlanda, que tem um monumento com mais de cinco mil anos, o Newgrange. No Japão, as pessoas tomam banhos quentes perfumados com um cítrico chamado yuzu.

Mas o Natal que celebramos vem directamente de uma festa romana, a Saturnália. Era uma celebração também relacionada com o solistício de Inverno e durava uma semana, de 17 a 25 de Dezembro. Faziam-se sacrifícios a Saturno e organizavam-se banquetes seguidos de troca de presentes, tudo num ambiente de alegria e permissividade que tem mais semelhanças com o nosso Carnaval.

Quando a Igreja Católica se impôs, a partir da conversão do Imperador Constantino, em 330 da nossa era, sendo difícil acabar com as festas pagãs, optou muito inteligentemente por transformá-las em festas religiosas. E escolheu a Saturnália como data do maior acontecimento da nova fé, o nascimento do Salvador. Assim, oficialmente 25 de Dezembro passou a ser o dia oficial que marca o ano zero da Era Cristã.

Têm-se feito muitos estudos para determinar qual a data verdadeira do nascimento de Cristo. Até há um cálculo a partir da passagem dum cometa que seria a tal estrela que os Reis Magos seguiram. Todas as considerações foram muito bem resumidas pelo filólogo Frederico Lourenço, o nosso maior especialista em estudos bíblicos a partir do seu conhecimento profundo de grego (o idioma dos evangelhos), aramaico (o idioma da Palestina) e romano (a língua oficial do Império). Segundo ele, Jesus nasceu em Nazaré, na fase final do reinado de Herodes, o Grande (rei que morreu em 4 a.C.). Logo aqui se vê que nem sequer o ano “oficial” é o verdadeiro. Quanto ao mês, seguindo várias indicações dos próprios Evangelhos, seria entre Abril e Outubro. Mas vale a pena ler um pouco do que Lourenço pesquisou:

“Jesus era filho de um construtor chamado José e da sua mulher, Maria. Era o mais velho de vários irmãos e irmãs. Em casa, falava-se aramaico; mas Jesus beneficiou do facto de Nazaré estar perto de cidades gregas, como Séforis, cuja distância de Nazaré corresponde à que medeia, na nossa cidade do Porto, entre o Estádio do Dragão e a rotunda da Boavista. Em toda a volta de Nazaré, falava-se grego. De Gádara, uma das dez cidades gregas da zona, era originário o maior poeta grego do século I a.C., Meleagro. A helénica Séforis tinha um teatro; e Jesus sabia o que era o conceito grego de «actor», pois usou a palavra grega «hipócrita» numa acepção sem qualquer equivalente no aramaico falado em casa ou no hebraico da Escritura.”

”Jesus recebeu uma educação judaica baseada nessa Escritura e foi certamente o rapaz intelectualmente sobredotado de que vemos reflexo em Lucas 2:47. As pessoas não lhe chamaram «mestre» à toa.”

“Nos anos 20 do século I, Jesus contactou com o movimento de João Baptista, que apelava aos israelitas que «mudassem de mentalidade» e que, por meio do baptismo no rio Jordão, obtivessem o cadastro limpo perante Deus que, oficialmente, só podia ser obtido por meio do sacrifício de animais no templo. João Baptista atraiu a má vontade da elite sacerdotal de Jerusalém; o mesmo aconteceria com Jesus.”

“Jesus tomou a decisão de ser baptizado por João; mas, depois de João ser preso, passou a ter uma actuação independente. A mensagem de Jesus, de que o «reino» divino estava próximo, era coincidente com a de João, mas Jesus sublinhou acima de tudo a tolerância e compadecimento divinos e a ideia de que nenhum de nós perdeu em definitivo a oportunidade de se «salvar». No cerne da mensagem de Jesus, sempre, o amor: «amai os vossos inimigos, fazei bem a quem vos odeia».”

“Com esta mensagem, Jesus levou uma vida de pregador peripatético na Palestina, falando sobretudo em pequenas localidades na parte norte do lago da Galileia. Escolheu como destinatários homens simples – pescadores, agricultores –, assim como pobres, doentes, e excluídos da sociedade, como prostitutas, etc. De forma talvez surpreendente para a época, não excluiu dos seus potenciais destinatários pessoas do sexo feminino, entre as quais temos de contar como a mais importante Maria de Magdala, conhecida como Maria Madalena (que não era uma prostituta – nada confirma essa ideia nos textos que nos chegaram).”

“A família de Jesus, nesta fase, achou que ele era um louco, embora mais tarde se tenha aproximado da sua mensagem; em especial, o seu irmão Tiago assumiu um papel relevante depois da sua morte (Tiago acabou por ser morto também).”

Quanto à árvore de Natal, tem a sua origem na Alemanha, não se sabe bem quando. A sua universalidade deve-se ao casamento da Rainha Vitória com Príncipe Alberto de Saxe-Coburgo e Gotha, em 1840. O consorte trouxe a moda da árvore para a Grã-Bretanha e, como a Grã-Bretanha era a maior potência do mundo, depressa se espalhou por todos os continentes.

O Pai Natal é outra história. A sua origem seria São Nicolau, um bispo católico que viveu em Mira, na Ásia Menor – hoje em dia Turquia. Era um homem generoso, que no Natal tinha o hábito de enfiar pequenos presentes em peúgas e distribui-los pelas crianças pobres. Esta lenda espalhou-se lentamente pela Europa e também faz parte do folclore britânico do século XIX.

Em 1823 já era conhecido nos Estados Unidos, como atesta um poema de Clement Clarke Moore intitulado “Uma visita de São Nicolau”.

Em 1863 a revista Harper’s Weekly publicou uma ilustração de Thomas Nast que mostrava um senhor gorducho e bonacheirão, vestido com uma bandeira americana e a fumar cachimbo...

O Pai Natal vestido de vermelho com arminho branco, é uma invenção da... Coca Cola! Em 1932 o artista Haddon Sundblom pintou o primeiro anúncio da marca, com o bom velhinho a segurar uma garrafa da bebida.

Esta figura ganhou tanta força que hoje, nesta época pouco cristã, faz uma enorme concorrência ao menino Jesus nas palhinhas. Até o artista Andy Warhol, que adorava o Natal, desenhou muitos cartões com versões mais ou menos pop do ícone.

Assim vai evoluindo o Natal. Como será no final do século XXI, só Deus sabe. Deus, ou uma marca que na altura tenha força para impor nova imaginação. Uma coisa é certa: o Natal veio para ficar.

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