A Roma de há 2100 anos é descrita por Mary Beard como uma cidade com mais de um milhão de pessoas que viviam numa mistura de liberdade e exploração, luxo e lixo. Há qualquer coisa desse retrato antigo que encaixa na Roma de hoje, à beira dos três milhões de residentes. Roma é encantadora para quem a visita mas quem lá vive está farto: embora sempre fiéis ao estilo e à elegância, os romanos perderam a paciência com a degradação da qualidade de vida na sua cidade onde o trânsito é um suplício, o pavimento das ruas está mal tratado, os transportes públicos estão em colapso, os monumentos à mercê da penúria de recursos e cuidados, o lixo com frequência fica vários dias amontoado nas ruas, as águas e margens do Tibre parecem de há muito uma lixeira. Há um vídeo gravado por um estudante que mostra o vai e vem das ratazanas por entre montanhas de lixo no Largo Ferruccio Mengaroni. Há imagens de lixo que sobe à altura de um adulto no bairro Tor Bella Monaca.

É o que resulta do que chamam de "Mafia Capital", redes da máfia tradicional que, infiltradas nas engrenagens do poder municipal, designadamente o serviço de recolha de lixo, usando o sistema de corrupções instalado, com a cumplicidade de gente de todos os partidos, tiram proveito de tudo aquilo onde metem a mão.

É assim, com a promessa de limpar a cidade do lixo e das máfias, que Virginia Raggi, uma advogada com 37 anos e escassa história política se tornou uma loba à conquista de Roma. Ela tinha aparecido na internet a promover campanhas pela Educação e pelo Ambiente. Era elogiada por iniciativas de voluntariado. O Cinco Estrelas (M5E), movimento político que se define "antipolítica", liderado pelo comediante Beppe Grillo, escolheu-a para liderar a candidatura à presidência da câmara de Roma. A imagem dela é sedutora e o discurso surgiu poderoso contra as desgastadas castas políticas italianas. Virginia Raggi avançou sobre Roma e conquistou-a nas eleições de 19 de junho: arrasou, foi eleita com 67,2% dos votos. Tornou-se a primeira mulher a governar em Roma e gerou enorme ilusão com a utopia de uma Roma finalmente, décadas depois, governada de modo imaculado com ideias e projetos, fantasia e paixão, visão e eficiência com, claro está, mãos limpas.

Ainda nem passaram três meses e Virginia Raggi é uma presidente à beira de um ataque de nervos. "Onestá, onestá!" e "Transparenza!" tinham sido os dois gritos mais fortes da campanha Raggi, mas tudo parece em colapso. Ela escolheu para dirigir setores fundamentais para a regeneração da cidade gente nova e com etiqueta de alto nível, inovadora e competente. Parecia ter bom programa e boa equipa. Mas, ao fim de 70 dias, a equipa Raggi está à deriva.

A crise eclodiu na madrugada de 1 de setembro, com o anúncio da demissão da chefe de gabinete, Carla Rainieri, uma magistrada que tinha sido escolhida por, com os seus critérios éticos e sociais, ser considerada uma muralha implacável frente às infiltrações mafiosas na engrenagem municipal de Roma. Demitiu-se por não estar disposta a aturar as intrigas de gente do M5E por ela ter um salário de uns 10 mil euros por mês. A demissão de Rainieri precipitou a queda, como peças de um dominó, de outras quatro figuras de topo entre as escolhidas por Raggi. Beppe Grillo, líder do M5E meteu-se na polémica para dizer que "a Virginia (Raggi) às vezes parece-me louca". Percebeu-se que as heterogéneas fações do M5E não queriam deixar Raggi com mãos livres. Começou a comentar-se que os novos políticos afinal são iguais aos outros, ou ainda pior, por cometerem erros de inexperiência.

Tudo a precipitar-se: quase ao mesmo tempo é revelado que Raggi sabia que dois dos seus principais escolhidos estavam a ser investigados por ligações com personagens mafiosas, mas encobriu-os. O M5E saltou a defendê-la mas ficou exposto à acusação de dupla moral: exige a demissão dos adversários sob suspeita, condescende com os seus. O cartaz após a vitória eleitoral em junho, dominado pelo rosto de Raggi, enquadrado pela proclamação "Ora cambia tutto, ora tocca a noi" perdeu sentido porque afinal eles não escapam às mesmas derrapagens. A atmosfera ficou penosa para Raggi. Muitos que tinham ficado enamorados pela imagem que ela tinha passado não escondem a desilusão. Mas a maioria ainda parece querer dar à "loba de Roma" uma oportunidade para corrigir os erros e tentar voltar a criar ilusão.

O M5E que aspirava usar a governação municipal em Roma e Turim para mostrar que é capaz de tomar o governo do país sai desta crise mais debilitado do que Raggi. Cai nos erros, nas superficialidades, nos amiguismos, nas omissões e nas mentiras tal como os outros que tanto critica no teatro político. O movimento que se proclamava cristalino e que tinha alimentado a promessa de mudar o tempo e o modo da comunicação política com o povo a decidir na internet, afinal, quando ficou acossado mostrou-se burocrático, entrou em guerras internas e passou a esconder os debates. Não acrescenta honestidade e qualidade ao sistema político.

Os novos movimentos e partidos surgidos com as ondas de indignação populista e contra o sistema tradicional confrontam-se agora com a deceção. Em Itália, o M5E tem rombos no casco. Em Espanha o Podemos e o Ciudadanos, agarrados a intransigências e incapazes de negociar acordos viáveis, estão em contínuo retrocesso nas intenções de voto.

Fica o risco de sucessivas desilusões levar a mais abstenção.

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