As palavras têm histórias complicadas e imprevisíveis. «Fetiche», por exemplo, passou por várias línguas e por vários mares até ganhar o sentido que tem hoje.

Tudo começou — ou pelo menos escolho começar por aqui — na palavra «feitiço», um velho vocábulo português que já tinha vindo do latim com o sentido de qualquer coisa artificial. Uma coisa postiça, ou seja, feitiça.

Os navegadores portugueses, aportados na Costa do Ouro, um território longínquo de que pouco conheciam, encontraram objectos mágicos, idolatrados por quem ali vivia. Eram amuletos, que existem em todas as culturas (afinal, os navegadores também levavam as suas cruzes), mas que, nas mãos dos outros, ganham um ar mágico e exótico.

Estes objectos pouco naturais ganharam o nome de feitiços, uma palavra que depois ganhou também o próprio significado de efeito mágico.

Ora, de regresso à Europa a bordo das caravelas, ou melhor, das bocas dos navegadores, a palavra portuguesa foi usada por escritores do Norte da Europa para descrever os hábitos e costumes da Costa do Ouro.

O primeiro, que se saiba, foi o explorador holandês Pieter de Marees, que em 1602 usou a palavra na obra Descrição e Relato Histórico do Reino do Ouro da Guiné — mas em holandês — para designar os amuletos usados pelos habitantes da zona. Lá pelo meio da obra aparecia a palavra «fetissos» (não nos queixemos da maneira como aparece escrita; nem nós tínhamos uma ortografia estável para as nossas palavras, quanto mais os holandeses).

A obra foi traduzida para francês poucos anos depois e o tradutor aproveitou a importação «fetissos». A palavra chegou assim à língua que, à época, era bem capaz de a espalhar pela Europa toda. Com o tempo, os franceses começaram a escrever «fétiche» — e os ingleses rapidamente a puxaram para a sua língua, como é costume, agora na forma «fetish».

Adoptada pelo francês e pelo inglês, a palavra tinha o futuro garantido...

No final do século XIX, começou a ser usada para definir uma fixação sexual num objecto ou parte do corpo — um tipo muito particular de idolatria. A partir deste sentido mais restrito, alargou-se de novo, num jogo de inspiração e expiração, ganhando conotações mais gerais — podemos ter um fetiche por livros amarelos, por exemplo.

A partir do inglês e do francês, o fetiche espalhou-se pelas línguas da Europa e regressou, qual palavra bumerangue, ao português, vinda dos pérfidos mares do Norte, agora mais atrevida e sabida — as viagens mudam uma pessoa e mudam as palavras ainda mais.

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas PalavrasO seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

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