Eu e o meu irmão, que tanta música portuguesa ouvimos nesses anos 80, sem net, nem partilhas, nem acessos facilitados, ouvíamos a Gabriela na sua voz doce e melancólica (hesito entre o dengoso e o melancólico e podem ser ambos de facto). A Gabriela, um dia, foi-se embora de Portugal e eu dela guardo um Best Of como se fosse um álbum de fotografias onde estão alguns dos anos da minha vida. Quem diria que um dia nos juntávamos para fazer parte de um Festival da Canção?

Podemos começar por aí... Uma manhã estava eu na Radar em emissão quando recebi o telefonema da Carla Bugalho, da RTP, com o convite para fazer parte do júri do Festival. Explicou-me o que seria e eu aceitei. Havia a vontade de mudar e de imediato percebi que um certo estigma do festival seria absorvido pela aposta na diferença. Na diversidade?!

O Nuno Galopim começou a juntar músicos e as canções apareciam sem complexos. Tantos e tão diferentes: a Márcia, a Lena D'Água, a Celina, o Noiserv, o Pedro Siraiva, o Salvador. Quem? O Salvador, sim.

Quando tempos depois nos sentámos para ouvir e votar nas canções, e o Salvador nos sussurrou ao ouvido que se podia amar pelos dois, fiquei atarantada. Virei-me para o Nuno Markl, meu companheiro de avaliações espontâneas e disse: é isto, é mesmo isto. Ele e a Inês Lopes Gonçalves concordaram e mais tarde, todos percebemos que a escolha era inevitável: era uma canção tão pura e tão transversal que não podíamos se não levá-la ao colo e no coração. Lembro-me que na segunda semifinal, em direto na RTP 1, acabei a dizer que as canções e os artistas quando bons e com paixão fazem o seu caminho, e as canções podem ter vida própria. Esta ergueu-se diante de um país e de um continente. Chegámos à Eurovisão sem plumas nem lantejoulas. Acreditem, não há nada mais desarmante e desconcertante do que a simplicidade e a verdade, e esta canção tinha isto que era tudo.

De novo estava no júri da Eurovisão: com o Tozé Brito, o Ramón Galarza, a Celina da Piedade e o Nelson Carvalho. Ouvimos dezenas de canções e eu com a sensação de ficar atordoada com o barulho de uma feira de diversões. Depois, quando o Salvador chegava, o silêncio ganhava terreno e era tudo melodia, era paixão.

Apesar da tradição do festival sempre achei que não nos podíamos vergar àquilo que a Eurovisão exigia mas antes ao que nós podíamos oferecer. No fundo, faltava-nos confiança e atitude. Aceitávamos as regras do jogo sem impor as nossas. Vale a pena lembrar que para termos o respeito dos outros, temos de nos dar ao respeito?

O Salvador, no seu desprendimento invejável de quem pode ir jogar matraquilhos e voltar para casa, foi ao Festival da Canção e a acabou a ganhar a Eurovisão. Sabem porquê? Foi ele que se impôs sem fazer cedências. Triunfou com as particularidades que lhe são conhecidas. Pôs um país em frente à televisão entre o povo e a intelectualidade quase incrédula a perguntar-se: como é que eu também gosto desta canção? Gostamos todos! Gostar de uma canção que um país inteiro canta, às vezes é um exercício de humildade: maldito ego que teima em não querer cantar a mesma canção do vizinho do lado...

Hoje senti uma alegria desmedida e não estive sozinha: fomos milhões nessa partilha. Houve quase um regresso à infância e aos dias em que, sem outra oferta, o festival ganhava o serão e no dia a seguir todos cantávamos a canção vencedora.

Votei muito conscientemente no que ouvi, mas tudo me parece pouco, face ao concorrente que ganhou: a vida não é barroca, nós é que às vezes teimamos em complicá-la. A canção do Salvador era simples como o amor: amar pelos dois foi a escolha certa.

(No momento em que acabo este texto, um carro na rua passa e ouve-se a canção do Salvador muito alto. É bonito, caramba.).

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