1. Conversas

Às vezes, parece que nos repetimos, que já dissemos tudo, já ouvimos todas as conversas. Mas ninguém se cala, ninguém desiste de conversar, de comentar o tempo, de perguntar como vão as coisas. Às vezes passamos horas à volta do mesmo assunto, a dissecar opiniões já conhecidas. Outras vezes conversamos sobre viagens passadas, livros lidos ou filmes por ver. Tudo tempo perdido, certamente. E as histórias que contamos vezes sem conta, às vezes às mesmas pessoas? Para quê?

Bem, há o prazer de estar perto dos amigos — ah, mas o tempo que pouparíamos com menos conversas de café, menos diálogos sobre assuntos batidos, menos piadas. O tempo que pouparíamos!

E com esse tempo poupado, faríamos o quê?

2. Literatura

Se os bons livros fossem só histórias que contamos uns aos outros (e contar histórias já parece, a alguns seres mais quadrados, um grande desperdício), bastava ler os resumos, não é? Dizem que o Carlos da Maia andou metido com a irmã. O pobre do avô não aguentou.

Haverá livros que vão logo ao osso, contam uma história e pronto. Mas os grandes livros são outra coisa: contam histórias por caminhos imprevistos, demoram-se, escondem, surpreendem. Embora muitos digam que os bons livros não têm nem uma palavra a mais, não será a literatura a arte de contar histórias com mais palavras do que as necessárias? Eça passa tempos infindos a contar conversas entre amigos. Almeida Garrett demora-se eternidades a descrever um passeio a Santarém — e ainda inventa uma história de amor lá pelo meio. E tantos outros, tantos outros…

O trabalho de depurar o texto não é retirar o que está a mais: é antes tirar o que não serve, o que não apetece, o que não é bom — para acrescentar o que vale a pena, o que sabe bem, o que escorre como sumo pelos cantos da boca. Reparem nos manuscritos dos grandes escritores: tanto cortam uma palavra dissonante, como acrescentam parágrafos inteiros — ou mesmo capítulos! A história sobreviveria sem esses acrescentos. Ah, mas para histórias contadas a correr já temos os resumos, obrigado!

3. Redundâncias

Há quem ande por aí à caça das palavras desnecessárias. Há quem ande por aí convencido que a redundância deve ser evitada a todo o custo. Há quem ande por aí convencido que «um sorriso nos lábios» é erro, que «entra aqui para dentro» não se diz, que «eu, pessoalmente» tem um «eu» a mais.

Ora, a língua não é só um meio de transmitir informação — e mesmo que fosse, a redundância é um dos mecanismos mais importantes em qualquer sistema de transmissão de informação. Há muitas redundâncias da língua que não são prova de estupidez, mas antes uma demonstração do bom funcionamento da língua.

Mas o prazer da redundância vai para lá dessa função (sim, as palavras inúteis têm a sua utilidade). A língua é também uma maneira de brincar, uma maneira de viver, de mostrar o que sentimos aos outros, de falar apenas para dizer que estamos ali. E, não, não brincamos ou vivemos ou dizemos que estamos ali apenas com as palavras estritamente necessárias.

Se alguém desce a rua com um sorriso nos lábios, o sorriso é bem mais saboroso do que um mero sorriso sem mais.

Se uma criança está numa tenda de brincar e diz ao pai «entra aqui para dentro», o pai sente um pouco mais de vontade de ir brincar do que se o filho dissesse apenas «entra».

Se estou com quem gosto e posso dizer quatro, cinco, mil palavras, porque me hei-de contentar apenas com as palavras necessárias?

4. Desporto

Então e o que dizer do desporto? Toda uma indústria criada à volta de jogos, brincadeiras, desafios inúteis. Vá, corre até àquela marca o mais depressa possível — porque sim! Vá, mete a bola na baliza daquele lado e impede que os outros metam a bola na baliza deste lado — porque sim! Vá, dá tiros nos pratos — porque sim!

E a brincadeira das crianças? Adianta alguma coisa ao mundo?

Pronto, já sei: o desporto é útil porque faz bem à saúde. A brincadeira desenvolve a imaginação. Mas será que jogamos à bola porque é bom para a saúde? Será que assistimos a jogos por ser bom para a saúde dos jogadores? E a brincadeira? Não sei porquê, mas desconfio que o meu filho não brinca porque desenvolve a imaginação. Brinca porque gosta.

Ah, então se falarmos de jogos de computador ou outras brincadeiras um pouco mais recentes, o argumento da inutilidade aparece em todo o seu esplendor: não faz bem à saúde e, segundo os sisudos adultos que nunca jogaram, não desenvolve coisa nenhuma. E, no entanto, porque sim, os miúdos jogam — e também correm, gritam, riem. Tudo coisas inúteis.

5. Conhecimento

Para que me serve saber a composição das estrelas? Para nada, na verdade. E o Teorema de Pitágoras? O que me adianta na vida e no trabalho? Pouco ou nada. Aliás, pouco não será: a resposta certa é mesmo: nada!

Para que me serve conhecer o Big Bang ou a maneira como as espécies evoluem?

E, no entanto, saber mais sobre o universo é um prazer — e há dias em que é uma necessidade.

Mas não é só o universo: há esta necessidade absurda de saber mais sobre o mundo, as línguas (cada um tem as suas pancadas particulares), a maneira como funcionam as coisas, tudo aquilo que não preciso de saber para viver razoavelmente bem…

A curiosidade não nos dá descanso.

6. Arte

Haverá maior inutilidade do que a música? Vibrações no ar que nos entram pelos ouvidos. E, no entanto…
Haverá maior inutilidade do que a dança? Movimentos que não servem para carregar nenhuma encomenda nem para chegar a nenhum lado...

Haverá maior inutilidade do que a pintura?

7. Calçada portuguesa

Tudo isto para chegar aqui. Lembrei-me das delícias do inútil ao conversar ontem à tarde com um amigo norte-americano que vive em Hong Kong e está a passar umas semanas em Portugal. Hoje, ao percorrermos um pedaço de Lisboa, ele apontou para o chão e disse-me que aquelas pedras eram uma das razões por que gostava de vir a viver em Lisboa. Hong Kong é uma cidade demasiado eficiente... Não se põe nada nas ruas que não sirva para alguma coisa. Para ele, é comovente ver uma cidade onde o chão que pisamos é feito laboriosamente, pedra a pedra, só para ficar mais bonito.

A calçada, a música, a arte, a ciência, os livros… — tanta coisa que não parece mover os dias. E, no entanto, andamos pelos dias com sede de tudo isto.

Uma crónica — pensarão alguns — serve para convencer ou, pelo menos, para falar de alguma coisa de útil. Pois esta não é assim: serve apenas para empurrar o leitor para um passeio, para um livro, para uma boa conversa pelas calçadas de Lisboa — para as delícias das coisas inúteis.


Marco Neves | Tradutor e professor. Autor do livro Doze Segredos da Língua PortuguesaEscreve no blogue Certas Palavras.

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