Tenho para mim que há uma nova moda: afirmar-se feminista. Aquilo que antes era reconhecido em sussurra, numa auto-crítica e censura, sustentando, por isso, um compadrio com o politicamente correto, num aparente receio das sub-reptícias consequências, está demodé. Foi ultrapassado por essa necessidade de chamar à atenção, mesmo com as mais estranhas propostas e ideias. Tudo pela defesa dos direitos das mulheres. Pois bem. O feminismo, como qualquer ismo, tem tanto de bom, como de negativo, e existe por força do seu contrário. É, acima de tudo, a defesa da igualdade de direitos que, em países como Portugal, à partida estão garantidos.

Então, o que é preciso mudar? A mentalidade, o preconceito social e cultural enraizado, e uma cultural laboral tendenciosa, preconceituosa, pouco baseada no mérito ou características que diferenciam o indivíduo, com telhados de vidro e barreiras invisíveis, quase intransponíveis, principalmente para as mulheres. Estas, quando ultrapassadas, têm um sabor agridoce para muitas profissionais: demasiado branda (porque é emocional) ou dura (uma besta de gaja, porque é frontal).

No essencial, as mulheres em Portugal podem conduzir e não creio que desejem um gueto cor-de-rosa em cada transporte público. Podem sair e circular livremente, tomar decisões sobre a sua vida e o seu corpo, são donas e senhoras de si próprias, que é mais do que se pode dizer de outras mulheres, cujos direitos humanos são violados por leis estritas e uma cultura repressiva, como acontece na Arábia Saudita.

Contudo, não chega. Queremos sempre mais e apontamos armas a problemas que merecem discussão mas não tamanha repercussão. São, portanto, balões de oxigénio para uma fogueira que tende a esmorecer, numa lógica muito pouco coerente do “falem bem, ou falem mal, mas falem de mim”. A questão não se limita a esta proposta peregrina que fez cabeçalhos na passada semana, de criar divisórias para as mulheres nos transportes públicos. E serviu tanto quem precisa chamar a si próprio alguma atenção, como quem decidiu fazer do feminismo a sua bandeira. Mesmo que inconsequentemente.

Se muito há a fazer, não é seguramente com propostas destas, ou palavras inflamadas publicadas na internet, que lá vamos. Menos ainda denegrindo a imagem do seu autor. Se a ideia é boa? Não é, porque o tempo não é de cigarras mas sim de formigas que, silenciosamente, trabalham junto das organizações (todas!) para mudar o estado das coisas e, discretamente, vão contribuindo para mudar o panorama geral de uma sociedade que ainda olha para a mulher como acessório: a mulher de alguém, afilha de outrém, o bibelot que acompanha a figura de Estado nas fotografias. Também não é com anúncios sexistas com homens semi-nús que mudamos mentalidades. Isso é apenas o outro lado da moeda, para jogar o jogo do apelo fácil. E poderia continuar...

O que fazer, então? Estarmos informadas, educadas, dar provas inegáveis da nossa capacidade profissional, começar em casa educando aqueles que vivem connosco, não aceitar o não como resposta e ter sempre resposta pronta para os espertinhos.

Nesta lista, preocupa-me verdadeiramente a violência em espaços públicos que vai além da agressão verbal, para a qual a maior parte das mulheres não tem capacidade de defesa, pela surpresa do ataque e força do agressor. Para tudo o resto, homens e mulheres deverão entender que estamos juntos nisto de viver, e que a vida se vive melhor numa lógica de complementaridade e diversidade. E sem barreiras. Ou divisórias. Ou o que lhe quiserem chamar que nos coloca à parte e os deixa, sem que o percebam, também enjaulados.

Paula Cordeiro é Professora Universitária de rádio e meios digitais, e autora do Urbanista, um magazine digital dedicado a dois temas: preconceito social e amor-próprio.  É também o primeiro embaixador em língua Portuguesa do Body Image Movement, um movimento de valorização da mulher e da relação com o seu corpo.

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