Em vésperas de mais um Mundial, vou tentar puxar pela memória e ver o que me lembro dos últimos mundiais e europeus de futebol, numa bonita cronologia do percurso da selecção das quinas, que tanto sofreu até chegar ao tão famigerado título de campeão europeu.

Mundial 1998

Ficámos em casa a descansar, ainda a ressacar do chapéu do Poborsky no Euro, dois anos antes.

Euro 2000

Ninguém acreditava que Portugal pudesse fazer algo de jeito num grupo com Inglaterra, Alemanha e Roménia. Fazer um ponto contra a Roménia já seria bom para o espírito pessimista do fado tuga. Começámos a perder por 2-0 contra a Inglaterra e tememos a goleada, já se ouvia nos cafés “Mais do mesmo, vamos levar abada, mais valia não termos ido”. De repente, Figo inventa um golo, João Pinto faz um dos melhores golos de cabeça que já vi, e Nuno Gomes mata a partida. Começou a euforia e a história feliz em jogos contra a Inglaterra. Ganhámos à Roménia e demos 3-0 à poderosa Alemanha com a equipa de suplentes, com Sérgio Conceição a fazer o jogo da vida dele. Tudo era possível e teria sido se o nosso cabeça amarela – ainda antes de existirem YouTubers – não metesse a mão na bola. Todos gritámos a dizer que era roubo e que o árbitro estava comprado, mas quando vimos a repetição encolhemo-nos no sofá e ofendemos a mãe do Abel. Viemos para casa de cabeça erguida, mas com um sabor amargo na boca. A França passou a ser a nossa inimiga – já o havia sido em 1984 – mas à qual, anos depois, iríamos servir o prato mais frio de sempre.

Mundial 2002

Grupo acessível com uma geração de ouro no seu auge. Levámos na boca de um país que chama futebol a um jogo que se joga com as mãos. Goleámos a Polónia para depois perder contra os anfitriões, Coreia do Sul. O João Pinto trocou os cabeceamentos pelos murros no baixo ventre dos árbitros e viemos para casa envergonhados.

Euro 2004

Chegou Scolari e com ele uma onda de apoio à selecção nunca antes vista, ajudada pelo facto de jogarmos em casa. A euforia esmoreceu quando levamos na boca dos gregos. Demos a volta ganhando à Rússia, mas ninguém acreditava que ganharíamos à Espanha até que Nuno Gomes, à meia volta, nos meteu nos quartos de final onde ganharíamos à Inglaterra (mais uma vez), desta feita nos penáltis com Ricardo, o guardião sem luvas, a marcar o último tento, meio carambola e sem querer, e a dar-nos a alegria. Seguiu-se a Holanda que levou na boca como gente grande e chegámos à final com a Grécia. Era desta que iríamos ser campeões europeus, não havia dúvidas… perdemos. Tivesse a bola no poste do Figo entrado e a história seria outra, mas para essa história fica que perdemos em casa, duas vezes e no espaço de um mês, contra a Grécia que nunca mais vai fazer uma destas. Orgulhosos, mas insatisfeitos, recolhemos timidamente as bandeiras das janelas.

Mundial 2006

Passámos a fase de grupos meio a brincar, encostámos a Holanda e a Inglaterra mais uma vez (até começámos a ter pena deles) e esbarrámos com a França onde a história se repetiu. Voltámos com um honroso 4º lugar e assumimo-nos, finalmente e sem medos, como uma das potências mundiais no futebol.

Euro 2008

Vencemos o grupo que era acessível. Apanhámos a Alemanha, demos luta, mas viemos mais cedo para casa. Foi giro.

Mundial 2010

Viemos com a vitória moral de termos perdido contra a toda poderosa Espanha, que acabou por se sagrar campeã mundial. Perdemos 1-0 nos oitavos com um golo em fora de jogo. Viemos com aquela sensação que nos tranquiliza “Fomos roubados!”. Ah, e demos 7-0 à Coreia do Norte, mesmo a arriscar levar com uma ogiva nuclear.

Euro 2012

No chamado grupo da morte, conseguimos passar e chegar às meias finais, onde perderíamos, novamente, com a Espanha que se viria a sagrar, mais uma vez, campeã da europa. No fundo, se a Espanha calha em não existir, éramos capazes de ter já três ou quatro títulos. Começávamos a ficar mal-habituados, mas no mundial a seguir voltaríamos à terra.

Mundial 2014

Nem me lembro bem, sinal que devemos ter jogado mal. Sei que viemos para casa mais cedo, ainda na fase de grupos, mas depois da tempestade viria uma bonança não anunciada.

Euro 2016

A desconfiança era generalizada e ninguém acreditava, mas… E FOI O ÉDER QUE OS… deixou muito aborrecidos. Finalmente, a vitória, que não vamos mentir, foi ainda mais saborosa por ser uma final contra a França, em França. Foi o pináculo da vingança. Foi o gaspacho dos gaspachos! Vergámos o nosso eterno inimigo em casa com o mais improvável dos heróis: Éder e a sua coacher motivacional. Um percurso de empates, com equipas relativamente acessíveis, mas o que é que isso interessa? Fomos campeões!

Agora, perdemos o pessimismo humildezinho que nos caracterizava e estamos mais confiantes. Sonhamos, até, com o título mundial apesar de não estarmos nos favoritos e de andarmos a jogar que nem cepos. O futebol tem esse poder de nos subir a autoestima e o de treinar a memória, já que não sei a matrícula do meu carro, mas lembro-me de todo este percurso e muitos outros detalhes que não couberam. A selecção tem o condão de nos unir, mesmo com cores clubísticas diferentes; o futebol tem muitas coisas más, como temos visto ultimamente, mas é das poucas coisas que tem esse dom de nos juntar a todos, sem excepção, em torno de algo. Pode ser triste que apenas nos unamos por causa do futebol, mas ao menos sabemos que é possível.

Sugestões e dicas de vida completamente imparciais:

Se quiserem recordar isto e muito mais, podem aceder a Chegámos lá, cambada! onde podem recordar toda a história da nossa selecção.

Podem ver o primeiro episódio de um documentário sobre a Selecção Nacional: Saltillo, 1986. O 25 de abril do futebol português ou algo muito parecido.

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