As COP (Conferência das Partes) são as reuniões organizadas pela Conferência Compreensiva das Nações Unidas para a Mudança Climática (UNFCCC) destinadas a avaliar as mudanças climáticas e, desde o Protocolo de Quioto de 1997, a estabelecer as obrigações dos países desenvolvidos na redução dos gazes de estufa. A primeira COP decorreu em Berlim, em 1995 e a mais famosa delas, frequentemente citada, é a de Paris, em 2015.

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Desde 1896, graças ao sueco Svante Arrhenius, começou a suspeitar-se que o crescimento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera podiam alterar substancialmente a temperatura da superfície terrestre, devido ao chamado “efeito de estufa”. Em 1938, o inglês Guy Callendar foi o primeiro cientista a calcular quantitativamente esta situação.

Contudo, durante muitos anos, o efeito atmosférico significativo dos combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo) foi considerado uma teoria escanifobética, defendida por excêntricos.

No entanto, como não há nada como a prática para confirmar a teoria, aos poucos os interessados (cientistas e outros estudiosos) foram verificando que, de facto, o efeito de estufa estava a acelerar, e que não havia outro culpado com escala suficiente além dos usos dos combustíveis fósseis. É de salientar que, embora o mix dos combustíveis tenha mudado ao longo dos tempos - primeiro queimava-se mais madeira, depois carvão, a seguir petróleo e, finalmente, gás - todos eles continuam, ainda, a ser usados.

Em 2019, pela primeira vez, um estudo credível concluiu que “100% dos cientistas têm a certeza que os combustíveis fósseis são responsáveis pelo aquecimento global. Quer dizer, 100% é um número impossível de atingir em questões de opinião, mesmo com base científica; há sempre os que discordam, por convicção ou interesse. Contudo, neste caso, o estudo consultou 11.602 documentos científicos de gabarito.

Entretanto - quer dizer, nos últimos anos - as alterações climáticas tornaram-se evidentes e impossíveis de ignorar, sob várias formas, como o aumento das temperaturas médias, degelo dos polos, fogos florestais, tornados mais violentos, subida do nível dos oceanos e outros fenómenos “naturais”, acima das médias desde que há registo, que geralmente começou a ser feito em meados do século XIX. Temos, portanto, os níveis chamados “pré-industriais”, quando se começou a queimar carvão em grandes quantidades, e o nível atual, em que se queima tudo o que arde a parece que tudo pode arder. Como disse o Secretário-Geral da ONU, “não estamos a caminho de uma emergência climática, já estamos a vivê-la.”

É neste contexto que se começaram a realizar as COP, com o peso institucional das Nações Unidas - as quais, como hoje sabemos, não têm peso nenhum. Nos famosos Acordos de Paris ficou decidido que seria necessário reduzir para metade até 2030, as emissões que provocam o efeito de estufa, e chegar a zero emissões, em 2050. Já estamos em 2023 e, pelo que se tem visto, estes objetivos não vão ser alcançados. Um outro objetivo, não subir as temperaturas mais do que 1.5º. C acima dos níveis da era pré-industrial, também se está a revelar impossível. No entanto, continuam a realizar-se COPs todos os anos, cada uma mais catastrófica e ridícula do que a anterior. A deste ano, então, é absolutamente trágica e caricata.

Para começar, a COP28 está a decorrer no Dubai, um país que produz quatro milhões de barris de petróleo por dia, e o diretor do evento é o sultão Ahmed Al Jaber, ministro da Indústria e presidente da companhia estatal de petróleo.
Aliás, Al Jaber defende abertamente a sua dama. Mesmo antes da abertura do evento, deu uma entrevista em que disse, com todas as letras, que seria nocivo para o desenvolvimento económico a redução de 1.5º. C da temperatura mundial e que não havia “provas científicas” da influência do homem nas alterações climáticas. (Perante o escândalo da opinião pública, declarou depois que tinha sido mal interpretado.)

Depois, todos os dados que nos chegam da COP28 - e nem estamos a falar do que as pessoas lá dizem, apenas quem são - mostram um atrevimento e falta de vergonha a níveis nunca alcançados. (Os níveis nunca alcançados são sempre ultrapassados na situação seguinte, é uma lei da física…) Estão presentes 2.456 lobistas das petrolíferas e empresas ligadas à exploração do petróleo e gás. A delegação maior é a do país anfitrião, com 4.409 membros, seguida do Brasil - sim, do Brasil - com 3.081 membros. Seguem-se as delegações da Shell, Total e ExxonMobil.
(Note-se que este ano foi a primeira vez que os presentes tiveram de indicar quem os mandava, por pressão de uma ONG chamada KBPO, pelo que não sabemos quantos lobistas e diretores de petrolíferas estiveram nas COP anteriores.) Agora, sabemos que os lobistas são em maior número do que os delegados dos dez países mais climaticamente vulneráveis, como a Somália, Chade, Tonga, Ilhas Salomão e Sudão.

116 lobistas pertencem à Associação de Negócios Internacionais de Emissões (de gazes nocivos), sediada em Genebra, representando a Shell, a Total e a Equinator (norueguesa).

Esta situação levou David Tong (citado pelo The Guardian), da Oil Change International, a fazer o comentário: “Não se devem convidar traficantes de armamento para uma conferência de paz. Os países e as comunidades estão presentes para lutar pela vida, enquanto as petrolíferas e os seus negociadores vão lá pelos seus lucros.”

Não admira que ao fim de 30 anos de conversações e a prova científica da relação entre os combustíveis fósseis e o aquecimento global, as emissões de gases de estufa não parem de aumentar. Também não admira que no primeiro acordo assinado na conferência, assinado por 125 países, não haja uma única menção aos combustíveis fósseis.

O Presidente do Brasil fez um discurso emocionante e cheio de sentimento (ele tem um grande carisma e com o tempo aprendeu a falar nestes conclaves), dizendo mais ou menos o mesmo que António Guterres tem vindo a dizer, que já estamos em plena catástrofe, e acrescentou que o Brasil vai tomar a dianteira no combate às alterações climáticas, começando com uma tolerância zero no desmatamento da Amazónia. No entanto, o Brasil precisou de pelo menos cinco aviões comerciais a jato para levar a sua delegação, que até incluía representantes dos povos indígenas da Amazónia.

Aliás, os discursos proferidos na conferência são obras primas de oratória comovente, anunciando em termos catastróficos o que temos de fazer para evitar o apocalipse, salvar a vida do planeta e dos seus habitantes.

Então, até agora quais foram as decisões concretas? 16 países ricos prometeram criar um fundo de 655 milhões de dólares (milhões, não biliões) para compensar os países mais pobres dos prejuízos do aquecimento global.

Faz-me lembrar uma anedota: diz o Juiz: “O senhor bate na sua mulher todos os dias, até já teve de ir ao hospital várias vezes.” Responde o acusado: “Mas ó Sr. Dr., eu pago-lhe todos os tratamentos e até a levo sempre ao hospital”.

O que podem fazer os países pobres com o dinheiro? Consumir, eles, menos poluentes? Certamente que não. Tuvalu, a ilha que está prestes a desaparecer com a subida do nível do oceano, poderá pagar um bilhete de avião para os seus 11.000 habitantes emigrarem. O Sudão poderá comprar mais pensos e ligaduras para os milhares de vítimas da guerra civil permanente.

Quanto aos países ricos, com certeza que não se vão descarbonizar, consumir menos plástico (um derivado do petróleo) ou diminuir a produção das suas fábricas.

Restam os belos discursos para a posteridade.

Enquanto houver posteridade.

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