O triunfo de Portugal no Euro 2016 parecia ter induzido o fim da era nacional das “vitórias morais”. Nesse verão, festejámos ebriamente a vitória efetiva, julgando ter enterrado para sempre a necessidade do conforto que o “merecer ganhar” nos dava, já que tínhamos inaugurado a experiência de ganhar sem merecer propriamente. Por outro lado, a perda da virgindade das vitórias em grandes competições pode ter apenas derrubado parte do complexo de inferioridade que sustentava as vitórias morais. Esta semana, ao assistir à final entre Itália e Inglaterra, ao invés de “merecíamos vencer”, muitos de nós considerámos que “devíamos ter vencido”. A desambição complacente foi substituída pela exigência altiva.

País conformado com a recorrência do fenómeno de “morrer na praia”, tanto em Nord-Pas-de-Calais, como em recintos de grandes competições de seleções, a Inglaterra passou por uma experiência diferente. Perdeu a taça cuja conquista já festejava, em casa, perante a atenção dos 10% de adeptos presentes em Wembley a quem a presença de álcool no sangue não tinha diminuído drasticamente a acuidade visual. Quando alguns destes adeptos (alguns que se conseguiram introduzir no estádio, outros que só conseguiram introduzir pirotecnia no ânus) acordaram ressacados, foram vomitar insultos racistas para as caixas de comentários do Instagram dos jovens jogadores negros que falharam os penaltis. Não foi uma vitória moral, foi antes uma derrota obscena para o povo inglês.

Nas instalações do Estádio da Luz, instalou-se um clima que provém de uma outra categoria ético-futebolística: o empate moral. Rui Costa proclamou-se presidente do Benfica, numa declaração à imprensa com duração inferior à de um vídeo do TikTok. Não foi uma substituição amplamente aplaudida, especialmente numa altura em que o clube está a sofrer uma goleada de honradez, na qual o ex-jogador/recém-aclamado-ex-amigo-de-Vieira dificilmente não terá marcado auto-golos. “Vitória” e “moral” são duas palavras que não combinam bem quando vem uma a seguir à outra, mas são dois conceitos essenciais para a vida de um clube. Quero acreditar que tanto as conquistas desportivas como uma consciência tranquila contribuem de igual forma para que um adepto durma bem.

Convocar eleições antecipadas é inevitável, mas a votação de um regulamento eleitoral para o clube é condição essencial para que os benfiquistas não fiquem sem sono nas noites deste verão. Se isso não acontecer, o resultado será um empate moral com sabor a derrota indecente.

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