Eis uma tradução livre, talvez libertária, quiçá libertina. “Olá! Se alguma vez fizeste alguma coisa de errada na tua vida e eu descobrir, vou procurar tirar-te tudo o que tens – e não quero saber o que é que vou descobrir. Pode acontecer hoje, pode acontecer daqui a 15, 20 anos. Se eu descubro, acabou-se.”

Chappelle pergunta ao público quem é que ele está a imitar. Algumas pessoas da plateia gritam “Trump!”. Não. Chappelle revela então o alvo da sua imitação – “vocês!”. Referia-se à chamada cancel culture e à ânsia inquisitória que uma boa parte da classe intelectual partilha nos dias de hoje.

A cultura de cancelamento promove uma justiça draconiana, sem direito a redenção. Mais, preconiza a retroatividade da moral, uma vez que busca incessantemente por falhas de carácter nas suas vítimas, procurando oportunidades para encosta-las à parede para as confrontar com um passado analisado à luz do presente. Por exemplo, a comediante Sarah Silverman revelou há poucos meses que foi recentemente despedida de um filme por ter participado num sketch em 2007 no qual alegadamente fazia blackface. O argumentário de que, independentemente do contexto, é proibido fazer blackface é falível. Concedo que já não será propriamente original, já não será fresco, fazer um sketch em 2019 com um branco a pintar a cara de preto. Agora, vasculhar na antiga década à procura de “falhas morais” em humor? Isto só poderia ser obra uma geração que vê na sinalização de virtude o doping para a sua vaidade. E um sketch em que se utiliza blackface a satirizar os comediantes que em 2019 ainda utilizam blackface? Pode-se ou não se pode? Será pedir muito exigir o regresso de um conceito perdido, já vintage, chamado “contextualização”?

Assistimos ao fim da complexidade das opiniões. Podes ser a favor do fim da impunidade e do ambiente tóxico de assédio em Hollywood e ser contra que Louis CK tenha praticamente sido banido para a vida de atuar nos Estados Unidos e no Reino Unido. Podes ser a favor da causa homossexual, considerar comentários homofóbicos desnecessários e retrógrados e, ao mesmo tempo, não procurar que a pessoa que os fez perca a vontade de viver, através de denúncias em massa, e-mails ao empregador e ameaças de morte.

A verdade é que de todo pretendo contribuir com mais uma opinião divisiva em relação a este tema. Os argumentos das duas facções não são novos. Pessoalmente, não desejo matar os chamados Social Justice Warriors. Também não acredito que a liberdade de expressão na comédia dos países ocidentais esteja a atravessar uma crise. As dezenas de milhões na conta de Dave Chappelle, debitados a troco de apresentar mais de cinco horas de televisão nos últimos dois anos nas quais o objetivo é dizer o que lhe apetecer, contribuem para provar o contrário. A generalidade das pessoas convive bem com piadas. Parece é haver uma minoria ruidosa disposta não a erradicar a liberdade de expressão, mas a castiga-la severamente.

Em todo o caso, não vejo o surgimento da cultura de cancelamento como a morte anunciada da comédia, por duas razões. A verdade é que a liberdade de expressão é amiúde refúgio para a falta de originalidade, pelo que o escrutínio da comédia (claramente exagerado para a importância real da própria comédia) força os humoristas a reforçarem o seu compromisso com a originalidade. Não há temas proibidos, há abordagens cansadas. Em segundo lugar, a aparente construção de barreiras ao discurso é, obviamente, um fator de motivação enorme para quem tem prazer em derrubá-las. A ideia de que há novos censores cria uma sedutora possibilidade de transgressão que poderíamos julgar como perdida.

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