A senhora da livraria conhece-me, trata-me pelo nome, eu devolvo a gentileza e assim é há alguns anos. Hoje desabafava à porta da livraria, a ver o trânsito passar, enquanto fumava o seu segundo cigarro: “Só me perguntam pelo livro do Cavaco ou então uma porcaria qualquer que diz bestseller na capa. Este país é uma tristeza”. Encolhi os ombros, uma parte solidária, outra parte de mim a querer argumentar, mas sem tempo para o fazer. Fiquei a matutar naquilo, eu que trouxe meia dúzia de livros infantis debaixo do braço para oferecer aos meus miúdos do coração e que teria gasto o dinheiro que me resta este mês em meia dúzia de livros que quero mesmo ler.

A propósito da Conferência Anual do Plano Nacional de Leitura, a comissária, Teresa Calçada, disse: “Como não é tribal entre nós ler, mesmo os miúdos que lêem têm tendência a ler menos, ou a dizerem que não lêem, ou a acomodarem-se nisso, porque não é uma prática bem-vista. Nenhum miúdo se esconde de dizer os seus gostos musicais, mas livros, dizerem uns para os outros de livre e espontânea vontade, é muito difícil. E isto é cultural”. Dizem que a tristeza também é cultural, talvez seja.

Sou uma leitora compulsiva, sou assim desde que entendi que ler é viajar sem sair do sítio, posso dizer que já estive na Patagónia, no espaço, no fundo do oceano e em lugares nos quais habitam pessoas gigantes e pessoas minúsculas. Já fui, por causa dos livros, pirata, maléfica, ingénua, romântica, misteriosa, polícia e assassino. Já retive a leitura das últimas páginas de um livro, a ver se durava mais e, na impossibilidade prática de não chegar ao fim, fechar o livro para o abrir de novo e recomeçar a leitura. Invejo a primeira vez que alguém lê certos livros que me tiraram noites de sono, que me incomodaram, que me fizeram chorar.

Queria ter esse momento inaugural outra vez e mais outra. Quase que me comovo sempre que encontro alguém que leu A Fundação de Isaac Asimov ou A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. Não tenho qualquer atitude elitista no que toca à leitura, leio com igual prazer poesia, policiais, romances, ensaios, biografias, ficção científica, banda desenhada. Ursula K. Le Guinn explicou-me há muito esta realidade: nem todas as civilizações usam a roda, mas todas contam histórias.

Tenho necessidade de descobrir novas histórias, de imaginar o que o(a) autor(a) quis dizer, qual é a mensagem, que impacto é que pode ter em mim e nos outros. Dito isto, não creio que o país seja triste por ter quem queira ler a biografia de um político, creio que o país é triste por ter índices de leitura baixos, pelo consumo cada vez menor de livros, pelo tempo que dedica à leitura.

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