Gosto quando me dizem coisas como “Estamos na tasca, estás à vontade para aparecer”. Amigos não se medem às presenças, amizades vivem da medida da desobrigação. Há um certo conforto em sermos convidados para algo e que ao mesmo tempo se estipule que não é uma intimação e que não há problema em não comparecer. Há amigos que vemos frequentemente e com os quais, apesar de tantas oportunidades de fortalecimento de laços, não alcançamos a menor intimidade. Outros amigos há com quem só convivemos, digamos, de dois em dois meses mas com os quais mantemos uma relação de plena química, sem rotura de tema de conversa, dispensando rituais de conversa fiada, prescindindo de relatórios de banalidades e rejeitando escrutínios de reciprocidade. A amizade semi-telepática - aquela que não exige contacto permanente - é das melhores amizades.

António Costa e Rui Rio têm uma das melhores amizades. Não se poderá dizer que beneficia ambos por igual, mas até as melhores amizades vivem de acordos subentendidos que tangem a toxicidade. O que importa é que cada um viva a sua felicidade, e António e Rui parecem felizes. Estão perfeitamente confortáveis e conformados com o facto de se passarem a ver só de dois em dois meses. Talvez aleguem que uma maior frequência de convívio iria minar o carinho que têm vindo a nutrir um pelo o outro. De todo querem ter de cobrar um ao outro a obrigatoriedade de estarem juntos de quinze em quinze dias.

As amizades só têm de ser simples - e a maioria necessária para aprovar o fim dos debates quinzenais também. PS e PSD aprovaram a proposta do partido do governo que leva a que o primeiro-ministro António Costa só tenha de se apresentar perante a casa da democracia de dois em dois meses. A proposta do PSD, o maior partido da oposição, era ainda mais - imaginem - frugal: quatro debates por ano com o Primeiro-Ministro. Lá está, amigo não fiscaliza amigo.

Ou seja, doravante, os cidadãos portugueses verificarão mais frequentemente a pressão dos pneus do carro do que o parlamento por eles eleito verificará as medidas tomadas pelo governo. A partir de agora, os cidadãos portugueses ouvirão mais regularmente perguntas chatas da mãe (“quando é que metes algum dinheiro no banco”) do que o primeiro-ministro ouvirá perguntas chatas da oposição (“quando é que deixas de meter tanto dinheiro no Novo Banco”). No fundo, o escrutínio do trabalho do governo pelos representantes eleitos pelos cidadãos transformou-se num convite descomprometido para aparecer no café. "Estamos pelo plenário, estás à vontade para aparecer".

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