Os alarmismos e os exageros conseguem tornar-se nos cenários mais facilitados para um opinador, basta-lhe ser das poucas vozes a falar baixinho e com serenidade (esse sucedâneo de razão). Hoje - que é um plácido anteontem – apetece-me falar baixinho e com serenidade porque, embora não esteja optimista (como estar? É Hillary Vs Trump, não é Lincoln Vs  Roosevelt) ando bem distante dos alarmes mais pessimistas. Faltando-me esperança, já os níveis de desespero não pioraram; primeiro porque, tal como havia por aqui escrito há umas semanas, estou confiante na derrota de Donald e resignado com a vitória de Hillary. Para além disso, mesmo na hipótese de tanto eu como as sondagens mais recentes estarmos enganados, consigo readaptar uma célebre (pará)frase de Mark Twain: os relatos da morte dos E.U.A. foram largamente exagerados.

Não posso deixar espaço para equívocos, por isso até vou rematar com ponto de exclamação: é imperativo que Donald Trump perca as eleições! Desejo que ele não vença por inúmeras razões, sendo a principal um aglomerado de todas as outras – do que me lembro, Trump é o pior candidato de sempre à presidência dos Estados Unidos. Ainda assim, o alarmismo em torno do multimilionário consegue ser mais inchado que o próprio multimilionário, o que me leva a querer agora defender, não o imbecil Trump, mas uma América que sobreviveria à eleição do imbecil Trump. Não me tornarei, contudo, num advogado do diabo – isso seria a minha defesa de Hillary, figura muito mais mefistofélica. Donald Trump é um burgesso misógino, xenófobo e ególatra, mas neste momento “apenas” o pior candidato de sempre à presidência dos Estados Unidos.

Primeiro, se há coisa que esta corrida eleitoral provou foi que não conseguimos dosear seriedade em torno de Trump. Antes das coisas se nos esparramarem à frente dos olhos, poucos levaram a sério a possível candidatura, depois a nomeação republicana, e finalmente as hipóteses de discutir taco a taco com a candidata democrata.  Em muitos exemplos, os maiores laxistas são agora os maiores alarmistas e, embora eu compreenda e subscreva a função pedagógica do pânico neste caso, o mais certo continua a ser o incerto. É improvável que Trump destrua os EUA e consequentemente o mundo, mas nem isso seria bom argumento para nele votar. Não se vota na improbabilidade, e com Donald tudo é improvável, até a destruição global.

Segundo, acharmos que paira o perigo duma ditadura é andarmos equivocados quanto à pior qualidade da natureza política de Trump. O grande defeito dele não é o potencial despótico, é a confirmação demagógica. Por cá não há defeito político mais clássico do que candidatos a prometerem aquilo que não podem, nem querem, cumprir. Com Trump, são as promessas desagradáveis e abjectas (as mais marcantes da sua campanha) aquelas que me parece que ele nunca poderia pôr em prática. Não me choca nada que nos escandalizemos com os discursos trumpianos, ou que nos seja difícil entender a América que neles se revê e deleita - também me escandalizo, também me custa a entender. O que, sim, me faz confusão, é a condescendência e admiração que cultivamos por figuras com substâncias não muito distantes das de Trump, fazendo vista grossa a populismos, totalitarismos e desconsideração pela Democracia ou Constituições. Neste sentido, descortino uma réstia de simpatia pela figura antipática do candidato republicano, porque ali não existe engano: tem aspecto rude, tem discurso rude, logo mantemos distância. São os cordeirinhos, sejam eles gregos penteadinhos, ingleses finórios ou sul-americanos patuscos, que merecem o alerta redobrado. Enquanto se forçam comparações meio desonestas de Trump com Hitler, ignora-se que ele é muito mais um Huey Long inexperiente e sem maneiras – e há por aí tantos “Huey Longs” doutras barricadas...

A vantagem de estarmos a falar duma celebridade é que existem muito mais registos de opiniões e ideias. É portanto fácil encontrar os diversos aspectos em que Donald Trump recentemente se extremou ou tornou conservador, nem sempre correspondentes com ideias demonstradas ao longo de mais de 3 décadas sob olho público. Isto contraria a imagem generalizada de que Trump diz sempre o que pensa e raramente pensa antes de dizê-lo. Ponderou e disse muitas vezes o que não pensa, favorecendo o jogo político que quer vencer. É o reforço do meu ponto: o grande perigo que Trump representa não reside num mal novo que vai ocupar a cadeira mais poderosa do mundo, é pior que isso. O grande perigo é o da velha demagogia, as atrozes cedências e os desrespeitos típicos da arena política.  Populismo reaccionário e populismo revolucionário são apenas mesmidade perversa. As boas notícias são que o mundo não vai acabar, as más são que vai continuar.

Há coisas demasiado graves afirmadas por Donald Trump durante a campanha que deviam ser, no mínimo, suficientes para uma derrota retumbante. O facto dessas ideias escandalosas serem subscritas por tantos votantes não nos arranca palavras doces à democracia, nem grandes loas ao povo americano. Mas o meu terceiro ponto tem que ver com alguma grandeza estabilizadora da América, e até mesmo certa invariabilidade do poder político e partidário – uma rigidez que se resguarda das flutuações nas opiniões populares. Em Maio deste ano na New Yorker, Adam Gopnik foi o porta-voz dos pavores globalizados, pondo em causa o futuro duns E.U.A. com Trump ao leme.  Consolidou essa ideia no exemplo dos países que, respectivamente, não recuperaram de Perón, Castro, Putin, Franco e Lenin (cujos pendores autoritários compara ao do candidato americano). Gopnik, contudo, falha ao excluir o elemento que devia ser mais robusto nesta analogia: os próprios Estados Unidos. Não é possível equiparar ditadores quando nenhum dos países que lhes serviram de terreno é comparável aos E.U.A.. Nem a prosperidade, nem o vigor da cultura popular, nem o próprio tecido da democracia torna a América actual em qualquer coisa análoga a um desses países reféns de figuras totalitárias. No caso legislativo de Trump, o cenário seria logo complicado pelo próprio Congresso, onde mesmo uma maioria Republicana não reflectiria forçosamente a sensibilidade do presidente, ainda menos na pressuposta agenda tresloucada que nos anda a fazer roer as unhas.

Trump não pode ser eleito. Não deve! É o que espero, mas aqui no Passado onde escrevo torna-se impossível saber. Se ele ganhar, dêem-me a notícia com jeitinho porque, embora eu duvide que venham a subir muros e cair bombas atómicas a torto e a direito, não me sinto preparado. Ainda vos faria muita impressão um impeachment de fundamentos legais dúbios? Pois...

Sítios certos, lugares certos e o resto...

A incerteza e tensão nas eleições norte-americanas tinha de ser contraposta com  comic relief. O Twitter é um bom sítio para procurar, e o Daily Telegraph um bom sítio para compilar.

Porque continuamos a precisar de escapes, eis o embate da semana que nem mesmo Trump Vs Clinton vai conseguir encobrir.  É um dos grandes momentos televisivos de sempre: Iguana Vs Cobras – vida animal a superar os melhores filmes de acção.

Alec Baldwin a falar sobre a enorme imitação que fez de Trump no Saturday Night Live.  Tão igual que já nem lhe reconhecemos a voz natural.

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