Há quem argumente que o assunto não gerava expectativa entre as pessoas. Ou seja: não seria matéria que captasse audiências. É fácil admitir que essa seja a realidade. Interpela, porém, o critério e a responsabilidade dos jornalistas.

O interesse pelo que são opções essenciais é suposto ser criado e cultivado. Fica mais distante a atenção para o que é decisivo quando a prioridade na agenda das notícias vai para o acessório ou para o relato exaustivo e repetitivo do que promete audiências.

O discurso do Presidente da República foi dito no final de um dia com o noticiário português dominado por histórias chocantes de miséria humana. As revelações sobre os bastidores de um macabro assassinato e sobre os meandros do caso das armas roubadas em Tancos, assuntos que mobilizam a discussão pública, justificam, naturalmente, tratamento aprofundado. A prática mostra que casos com tensão informativa alta tendem a ser colocados em “loop”, com repetições incessantes, com absorção de quase todo o espaço da atenção. É aqui que fica evidente a distorção: perde-se o critério do essencial, a atenção é focada na exploração do emocional, despreza-se o mais que faz pensar. Como se o que não tem trincheiras e intriga não mereça interesse.

O Presidente da República fez na ONU um discurso que posiciona Portugal na vanguarda do melhor dos valores europeus. Marcelo mostrou-nos em frontal oposição ao perigoso unilateralismo pretendido por Trump e amigos, destacou que Portugal está no campo humanista na procura de um pacto global sobre as migrações e no campo certo das preocupações frente às alterações climáticas e à proteção dos oceanos. Defendeu o reforço da lusofonia na cena internacional e a reclamada, mas continuamente adiada, atualização do funcionamento da ONU. Realçou a prioridade portuguesa a África e não esqueceu a tão esquecida questão da Palestina. Também a mobilização para as questões da igualdade de género. É um discurso que mostra Portugal como um país cujas escolhas estão no lado mais humano e mais justo do mundo.

A atenção mediática – que há tempos gastou horas e horas, também com repetições incessantes com os episódios que envolveram o Sporting, idem com as toupeiras ligadas ao Benfica ou com a perseguição de um fugitivo – não se interessou por aí além por um discurso cuja espessura de posicionamento superou muito a da rotina dos discursos.

O ofício de jornalista é um serviço público. Implica explicação aprofundada que torne acessível o que é complexo, da ciência à economia. Também atenção ao que na política não tem intriga mas que importa para a tomada de consciência da sociedade.

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