Estive uns dias por Espanha e vinha a contar que com o meu regresso tivesse direito a 50% de desconto no IRS, mas parece que não contou como emigração. Gosto muito de Espanha, mas prefiro Portugal; há uns anos era comum ouvirmos portugueses a dizer “O nosso azar é já não fazermos parte de Espanha!”, mas hoje isso é mais raro ouvir-se. Espanha imitou-nos e entrou numa crise económica e com todos os movimentos separatistas fez com que, aos nossos olhos, descesse do pedestal onde tantos desejavam estar ou, talvez, tenha sido apenas o nosso orgulho por Portugal que aumentou e nos tirou a inveja de nuestros hermanos.

Portugal, tal como Espanha sempre foi, começou a ser um país mais atrativo para turistas e não só para aqueles que querem fazer praia e embebedar-se em Albufeira. A nossa comida começou a ser valorizada lá fora e também já temos restaurantes de tapas, porque chamar-lhes petiscos era pouco gourmet e chamativo para os estrangeiros. Ambos sofremos de falta de pontualidade, falamos alto em locais públicos e temos touradas. Por isso, o pior dos espanhóis nós sempre tivemos, mas achávamos que em qualidades eles nos superavam até que dois portugueses, Mourinho e Ronaldo, acamparam na terra dos nossos vizinhos e limparam aquilo tudo feito padeiras.

Muitos dizem que os espanhóis valorizam mais o que é seu e a sua cultura do que os portugueses e talvez seja verdade. Numa zona turística de Espanha, falam sempre contigo primeiro em espanhol e se por acaso não perceberes, continuam a falar em espanhol e querem que tu te jodas. Por cá, gabamo-nos de receber bem os turistas, mas refilamos se nos falam em inglês porque somos um bocado bipolares e nacionalistas bacocos. No entanto, parece-me que os espanhóis falam com os turistas em espanhol porque sabem que são ridículos a falar inglês e preferem não ser compreendidos do que passar vergonha. É o que dá dobrarem os filmes todos ao ponto de acontecerem situações como esta que vi: filme americano, todo ele dobrado, e, a certo ponto da acção, duas das personagens encontram-se com dois mexicanos que falam espanhol. As personagens americanas dizem aos mexicanos “No hablo espanhol”, tudo isto quando estiveram a falar espanhol durante o filme todo. Incrível. Assisti, ainda, ao crime de ver a voz do Morgan Freeman dobrada.

Os portugueses são bons de línguas, diremos a uma estrangeira enquanto lhe piscamos o olho, mas a verdade é que em comparação com um espanhol, o nosso inglês é quase perfeito. Com sotaque à Mourinho, é certo, mas percetível e correto na maioria dos casos. Já o nosso espanhol, que insistimos em tentar falar sempre que encontramos um hermano por cá ou estamos por lá, é igualmente ridículo. O chamado portunhol nada mais é do que português com uma entoação diferente e com palavras inventadas, como também ouvi por lá: “Nos outros somos um grupio de dezi pessoias para jantari, per favori. Mucho obrigadio!” dizia um português à menina de um restaurante.

A cultura espanhola consegue conquistar o mundo, especialmente na música. Existem vários exemplos de cantores espanhóis que são estrelas mundiais, ao contrário de Portugal em que apenas Amália, talvez, conseguiu tal feito. Numa discoteca espanhola é normal ouvir-se apenas música nacional e se fôssemos mais como eles, como tanta gente deseja, teríamos de ouvir Santamaria e algumas músicas da Luciana Abreu e da Ana Malhoa – aquelas onde elas não tentam falar espanhol – em todos bares e as discotecas. Acho que só este facto prova que estamos melhor em não sermos iguais aos espanhóis.

Sugestões e dicas de vida completamente imparciais:

Para ver: Alice

Para ouvir: B Fachada

Para visitar: Dornes, Ferreira do Zêzere

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