O ponto oficial já tinha sido fixado antes do voto: a discussão (vai implicar muita negociação) da repartição entre os vencedores dos postos-chave, o que por si só será revelador sobre a vontade de escolher para o comando operacional da Europa dirigentes com visão, audácia e pensamento próprio estruturado ou meros porta-vozes da vontade dos grandes. É uma oportunidade para proporcionar aos 500 milhões de europeus a possibilidade de terem na frente dessa coisa impessoal que é “Bruxelas” rostos e personalidades que possam gerar empatia e identificação, o que não aconteceu com a maior parte das escolhas desde o tempo do audaz e por isso discutido Jacques Delors (presidência da Comissão em 85/95).

Os liberais têm oito chefes de governo entre os “28”. Está-se mesmo a ver que vão começar a fazer lóbi para que a escolha para presidir à Comissão Europeia saia da família política liberal. A dinamarquesa Margarete Vestager, figura feminina popular, já se chegou à frente, é candidata, tem carisma – mas pode ser prejudicada por a Dinamarca não estar no Euro. O belga Verhofstadt, também fogoso, pode ser outra opção. O que parece óbvio é que o candidato oficial do PPE, o descolorido Weber fica posto de lado. Os socialistas Costa e Sánchez, em aliança com o centrista Macron deverão ser pivôs nesta negociação com o grupo de chefes de governo liberais, com figuras de peso como o holandês Rutte. Será que o PPE vai tomar conta da discussão ao avançar com um trunfo como Angela Merkel? Todas as surpresas podem surgir.

É evidente que, após o abanão nestas eleições, os “28”, um grupo em que grande maioria é euroentusiasta, vão discutir o que há a fazer para encontrar o bom rumo político que tem faltado à Europa. Este road map tende a ser o principal para a esperança ou nova deceção. Todos terão percebido que é preciso reorientar linhas mestras e sintonizar essas opções com os cidadãos.

Os “28” partem para esta nova etapa com o impulso – estímulos e alertas - que vem das eleições. Os estímulos são três:

  1. Os europeus mostraram que estão interessados na escolha política da Europa: a afluência às urnas superou os 51%, chegou aos 88,4% na campeã Bélgica – é uma tristeza que não tenha havido motivação entre os eleitores portugueses [a abstenção foi de 68%]; é um assunto a tratar.
  2. Os eleitores deram ampla maioria a partidos com discurso de confiança na Europa – ainda que estes partidos, até agora, pareçam míopes ou abúlicos sobre os caminhos a encontrar.
  3. O crescimento do voto verde é um sinal de que os cidadãos estão mobilizados para a questão das alterações climáticas. É uma boa causa comum para prioridade europeia.

Há também um alerta: os nacional-soberanistas que apostam no recuo da Europa são agora mais, ainda que o espelho dessa vontade entre os eleitos para o Parlamento Europeu esteja abaixo do sugerido nas sondagens – previam um terço dos lugares para essa frente de “contras”, afinal não chegam a ser um quarto do total. Esta corrente “contra o avanço da Europa” progride muito em Itália, mas mostra-se estável onde já era relevante (Hungria, Polónia, Áustria e França).

O caso britânico não traz surpresa: Farage, com 33%, corresponde a uma parcela forte dos que querem o Brexit consumado. O que surpreende é a enorme fraqueza dos partidos clássicos, o Trabalhista (14,1%) e o Conservador (9,1%), em descalabro.

Em França, também não há surpresa agora. Os 23,3% de Le Pen correspondem ao peso médio (agora até em ligeira baixa – um ponto percentual) que mostrou nos últimos cinco anos. Não há crescimento. O partido de Macron nos 22,4% também não é surpresa, constado o desgaste imposto pelo movimento gilets jaunes [coletes amarelos].  O que tem alguma surpresa é a queda de uma força que era de poder como a direita republicana (apenas 8,48%), tal como já antes tinha acontecido com os socialistas (um partido que ultrapassou os 56% em 81, agora está com apenas 6,19%). A tradicional clivagem esquerda-direita em França passou a ser entre o centro de Macron e a direita de Le Pen. Mas vale ter em conta a análise no Le Monde que mostra que se as fragmentadas esquerdas francesas aparecessem unidas chegariam aos 32%.

O debate europeu em grande parte do tempo antes das eleições esteve dominado pela questão das migrações de pessoas de fora da Europa, com o húngaro Orbán como chefe de fila na barricada pela civilização cristã. Talvez seja tempo de tratar esta questão com argumentos sérios.

Há dados curiosos nos números do Eurostat: desde a queda do “muro”, em 1989, um quinto da população romena, 12% da búlgara e 7% da polaca migrou para outros países da Europa, principalmente para a Alemanha e o Reino Unido. Este êxodo, nos anos da “troika” passou a ter forte origem em Portugal, Espanha e Grécia. No ano terrível de 2012 houve meses em que saíram de Portugal mais de 10 mil pessoas, tal como acontecia nos anos 60 da guerra colonial e de Salazar.

Números oficiais germânicos mostram que entre 2011 e 2015 a Alemanha recebeu 2,7 milhões de migrantes de outros países da União Europeia. Representa mais do que a grande vaga de refugiados que no ano crítico de 2015 rondou o milhão de pessoas.

Talvez seja um bom começo para o relançamento da Europa tratar de fazer acabar com a exploração demagógica de temas que se tornam populares, mas que não têm adesão à realidade. Os anti-Europa aparecem na linha da frente com figuras que sabem comunicar com energia (Farage, Salvini, Le Pen) enquanto nem se dá pelos pró-europeus.

Muito a mudar. Há países europeus onde o voto popular (caso da Hungria, mais de 52% para Orbán) legitima cenários políticos que suscitam o fantasma de pré-fascismo. Mas a maioria mostrou que quer uma Europa aberta, de esperança, o que implica haver progresso e audácia política.

A VER:

Cinco primeiras páginas escolhidas esta manhã: esta, esta, esta e esta.

Iñaki Gabilondo explica como a Espanha entra numa era em que vai finalmente haver negociação política.

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