Sei o que fizeste no confinamento passado. É a frase que tem marcado esta semana: Horta Osório demitiu-se da liderança do Credit Suisse aparentemente por ter quebrado as regras da pandemia e Boris Johnson está sob fogo no Reino Unido por ter alegadamente autorizado a realização de botellones em Downing Street. Para os britânicos, o mais grave é o facto de o primeiro-ministro ter violado as imposições quando o povo estava fechado em casa; para mim, o mais crítico é mesmo ter organizado uma festa displicente, em que cada pessoa tem de trazer a sua garrafa. Sejamos sérios, quem não toma a iniciativa de ir ao supermercado comprar bebidas para umas poucas dezenas de pessoas certamente não consegue liderar um país.

Portanto, em diversas ocasiões durante a pandemia, Downing Street transformou-se na Rua Cor-de-Rosa. Agora, Boris Johnson diz que achava que tais ajuntamentos eram reuniões de trabalho. Acontece a qualquer um. Às vezes, uma pessoa veste-se para ir a uma reunião de trabalho e de repente está no Lux. Aliás, eu não vou para nenhum encontro profissional sem levar a minha garrafa de Grey Goose, uma coluna daquelas que se usam nas festas da favela e a minha playlist de hits pop dos anos 2000. Se eu fosse eleitor no Reino Unido, ao invés de ficar desapontado, ficaria impressionado com o nível de compromisso que o PM tem com o país. Quem arranja desculpas esfarrapadas como esta quer mesmo salvar a relação que tem com o eleitorado. A julgar pela natureza das justificações, Boris Johnson está efetivamente casado com o povo britânico.

Boris Johnson tem sido censurado por ter violado regras que o próprio impôs. Mais uma vez, é um comportamento perfeitamente normal. Eu faço muito isso. Do género, "a partir de agora, não como mais hidratos a partir das 18h". Dois dias depois, lá estou eu a comer um folhado de salsicha na GALP de Telheiras sem ninguém ver. É bem mais tentador infringir restrições auto-impostas do que as que são impostas por outrem. Estou pasmado com o choque dos britânicos. Nada disto devia ser surpreendente, uma vez que Johnson enverga permanentemente um cabelo de quem acabou de acordar com uma ressaca. Com a roupa certa, podia perfeitamente passar pelo turista inglês que bebe pints às nove da manhã num café do aeroporto de Faro.

Boris Johnson sempre teve ambições de imitar Winston Churchill. Contudo, organizar festas em Downing Street regadas a vinho em pleno confinamento cai mal, ao passo que beber um uísque nos war rooms no fim do dia, após uma batalha como a de Dunquerque, não só não era malvisto como era provavelmente celebrado. Boris teve azar: calhou-lhe uma pandemia em vez de uma guerra.

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