Na reportagem do Expresso, conta-se a história de Pedro Feijó, o estudante que há uns anos, no centenário do Liceu de Camões, fez um discurso sobre o ensino e a política em Portugal que deixou o então Presidente Cavaco Silva sem fala, e a então ministra Lourdes Rodrigues bastante incomodada. Eu estava lá, e vi. Mas acabou por não ser esse momento que tornou Pedro Feijó um agente de mudança: num longo percurso, que o jornal conta, Pedro tornou pública a sua sexualidade, que diz não ser gay, nem heteressexual. Ele não tem sexo. Não é “ele” nem é “ela”. Tem barba mas veste saias - e depois de um caminho feito de rejeições, provocações, incompreensões, começa a ver sentido, com o que vai mudando no que o rodeia em diversas frentes, na sua atitude. Depois de, há 15 dias, a revista “Time” ter feito capa com um trabalho sobre as múltiplas identidades sexuais que o ser humano pode ter, sabemos pelo mesmo artigo de Christiana que a agência de notícias Associated Press acrescentou ao seu Livro de Estilo o pronome “They”, quando se fala de alguém que não é assumidamente “he” ou “she”...

Ao mesmo tempo, leio em jornais ingleses que os “MTV Awards” deste ano, agendados para Maio, aboliram a categoria masculina e feminina nos actores e cantores, agrupando ambos numa mais alargada área “gender-neutral”. Por agora, diz o “Telegraph”, a MTV está sozinha, no que a Prémios diz respeito, nesta “neutralização” das categorias de actriz e actor, ou voz feminina e masculina. Mas está acompanhada, por exemplo, no famoso espaço cultural londrino Barbican Center, onde já se podem encontrar casas de banho sem género sexual; ou na igualmente popular cadeia de farmácias “Boots”, que aboliu a secção de produtos femininos para a menstruação, passando a designá-la “Monthly Care” (qualquer coisa como “Cuidados Mensais”...).

Uma colunista do “The Daily Telepgraph” insurge-se contra algumas destas mudanças, pede “passos” mais lentos e cuidadosos, e reclama: se ao menos as casas de banho fossem bem limpas e tivessem papel higiénico em quantidade... Porém, não é despiciendo o debate sobre as palavras.

As palavras matam, como salvam, definem, agridem, amam. Mas no fim decidem. Não é “igual ao litro” a forma como nos expressamos, e nesse âmbito faz sentido que haja cuidados e rigor numa área tão sensível como a definição do género. Nos últimos anos, médicos e cientistas deram razão aos activistas e têm justificado, e tornado menos “estranha” à sociedade, as nuances que levaram a evoluções tão significativas quanto a legislação sobre os casamentos entre homossexuais ou a mudança de sexo.

Nem por isso, no entanto, temos de tornar absurdo o dicionário, a gramática e a ortografia, ao ponto de se considerar “discriminatório” o uso de palavras como “Homem”, no sentido de seres humanos em abstracto, ou na língua inglesa tentar proibir o clássico “freshman” (caloiro universitário) por “first-year”...

Isto digo eu, talvez politicamente incorrecto, mas para quem palavras são vida e profissão, ofício mas também gosto pela poesia, e que não tem qualquer espécie de preconceito: há muitas matérias (e seguramente, uma ou outra palavra) em que temos pela frente mudanças a fazer, paradigmas a recriar, homofobias a abater. Mas daí ao exagero que leva o que é justo, e natural, ao que se torna absurdo, desnecessário, e pasto para as chamas da homofobia mais selvagem (e, pior do que isso, dotada de frequente e irresistível sentido de humor...), vai o tempo que demora um fósforo a arder. Muito pouco. Ou quase nada. Se pensarmos bem, também não é o mesmo...

Por falar em descobertas, inovações, e o que muda ou nem por isso...

Nem sempre o que parece uma boa ideia passa disso mesmo: uma boa ideia. Sem aplicação prática, ou sem viabilidade, ou sem sucesso, ou tudo junto. Esta lista da revista "Time" lembra-nos um generoso número de falhanços da era moderna.

Pedem desportivismo no futebol, falam de “justiça desportiva”, inocentam jogadores mas crucificam treinadores e árbitros. São assim os comentadores televisivos, agora sob o fogo de alguma imprensa, como são assim os adeptos mais aguerridos. Mas depois sabem-se histórias como esta, que o diário espanhol El Mundo conta, com as provas que faltavam, e tudo vai por água abaixo... Nada resiste ao dinheiro. Pelos vistos, nada nem ninguém....

Um pouco mais a sério: os Estados Unidos da América entram na era Trump com um significativo agravamento do drama da droga em todas as suas frentes. Do tráfico ao crime, da dependência às experiências dos estados onde foi legalizada a venda de drogas leves, o país enfrenta um regresso a tempos que se julgavam, por escassos anos, ultrapassados. Nesta matéria do “Washington Post”, um olhar sobre o problema, a partir de quem a ele se dedica profissionalmente.

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