Joacine Katar Moreira está fartinha de ser insultada, não tenho a menor dúvida, basta ir à sua conta de Twitter para termos um arrepio e perdermos a fé no género humano. Os insultos estão na ordem do dia e destila-se fel nas redes sociais com a facilidade com que se respira. Não é um exclusivo da deputada, obviamente, mas a verdade é que existem extremos que me perturbam sobremaneira. Regularmente, dou comigo a defender a democracia, os deputados, as instituições, os políticos. Talvez por ter sido educada no sentido de respeitar o serviço público, e de entender ser crucial existir serviço público e de este ser exercido com dignidade e princípios. Bem sei que há quem fuja da vida política como o Diabo da cruz, entendo perfeitamente que alguém que está no sector privado, e que tenha dado provas de excelência, recuse um lugar público. Além de toda a exposição e escrutínio, quem entra na vida pública é confrontado com obstáculos atrás de obstáculos e, entre elogios e críticas, há a maledicência.

Há uns dias, um vice-presidente (também agora eleito vereador) de um partido cujo nome me recuso a escrever, achou engraçado (será isso? Engraçado…? Democrático, decerto não é) publicar um tweet, acompanhado pela imagem de uma mão que escondia duas letras num cartaz onde se pode ler “Descolonizar este lugar”. Se vos disser que as letras ocultadas pelos dedos são o L e um O, creio que ficam com a ideia certa do que se pretendia dizer. Este cartaz estará na porta da deputada não inscrita Joacine Katar Moreira. O tal senhor que acha que descobriu, no português, uma palavra dentro de uma palavra e que a ofensa é remédio para tudo, escreveu, a acompanhar a imagem: “Senhora Deputada, prepara-se para desco**nizar a Assembleia da República! Se a porta ficar estragada pelo autocolante, espero que lhe enviem a fatura do arranjo. Ciau, querida.”

Não há espaço nesta crónica para enumerar tudo o que está mal aqui. Não é só o racismo, é a discriminação das mulheres, é a ofensa, a misoginia. Se este indivíduo acha que conseguiu fazer uma graça nas redes sociais, e que visa somente a deputada em questão, está redondamente enganado. Tudo o que escreve – e a imagem complementa – é um atentado às mulheres e, obviamente, na casa da democracia por excelência, a todas as deputadas. Tudo leva a crer que estamos a caminho de eleições e, à direita, este partido perfila-se para fazer coligações que possam dar-lhe mais poder. O precedente dos Açores está aí, não nos deixemos enganar. Portanto, é urgente reflectir se queremos que a nossa democracia, a pouco tempo de fazer 50 anos, incorpore gente misógina, racista e por aí adiante. A democracia não é uma brincadeira, não é uma anedota. Quem nos representa, eleito por muitos ou poucos votos, deve ser tratado com dignidade. Quem é eleito, ou pretende vir a ser eleito, deveria saber isto. E os partidos, com os quais as coligações são feitas, deveriam considerar a ética de certos comportamentos. Mas depois lembro-me do que aconteceu nos Açores e, francamente, penso: estamos lixados.

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