Nem sempre foi assim. Quando era puto passava horas ao telefone de casa até a minha mãe me berrar que precisava de ligar para a minha avó. Mas reparem: não havia telemóveis e estávamos numa idade estúpida onde aquilo nos fazia sentido. Além disso, não passávamos os dias em permanente contacto pelo WhatsApp, Instagram, Facebook, Twitter, Tinder, Gmail, SMS ou caixas de comentários de notícias para quem insiste em manter lá discussões a achar que vão dar a algum lado. Como se isto não bastasse, ainda há pessoas que telefonam mesmo. Mas desde quando é que um telemóvel serve para telefonar? No máximo, manda-se uma voice note para o outro ter a liberdade de responder quando lhe apetecer.

Claro que há muitas pessoas que usam os telefonemas com normalidade. Ligam, dizem o que têm a dizer rapidamente e fica tratado. Mas há demasiada gente que devia urgentemente frequentar workshops de formação cívica ao telefone antes de poder continuar a ligar. Vocês acreditam que há realmente gente que me liga antes das 10h da manhã? Mas está tudo doido? Não é que não esteja já acordado na maioria dos dias, mas é impensável àquela hora querer falar com alguém, ter de ouvir seja que inutilidade for que tenham para me dizer, e ainda estar a fazer aquele esforço para falar quando ainda tenho as cordas vocais cheias de ranço do sono e a voz me sai como se tivesse a boca cheia de pudim flan fora do prazo. Ganhem noção, por favor.

Também temos as pessoas que ligam para dizer alguma coisa útil e fazem-no em aproximadamente 15 segundos. E depois, sem qualquer parcimónia, sugam-me mais uns 6 ou 7 minutos de vida para me dizerem banalidades de profundo desinteresse. Atenção, estas banalidades até podiam ser giras, cara a cara, numa esplanada e a beber uma ou duas. Agora, ao telemóvel? Com aquele pedaço de plástico a esfregar-se na minha cara e a queimar-me desnecessariamente a orelha? Dispenso bem. Junte-se a isto a tendência natural de quase toda a gente de se despedir com “Então pronto, depois falamos, beijinhos, vá, beijinhos, beijinhos, ‘tá, para ti também, vá, beijinhos, até amanhã, beijinhos, beijinhos”, em  vez de “Beijinhos”, e lá se foi quase metade do meu dia por causa de 2 ou 3 telefonemas.

Estou a dramatizar, bem sei. Os telefonemas são muito chatos, mas só na escala das coisas mundanas. Não são problemas a sério como doenças terminais, alterações climáticas ou ditaduras, como é óbvio. São só chatos como lavar a loiça, ir pôr o lixo lá fora e ficar sujo com aquele líquido nojento que dele escorrer, ou como a ditadura em Portugal (segundo o João Miguel Tavares foi de baixa intensidade, foi só chata, portanto).

Ainda assim, mesmo que não seja o fim do mundo, evitem telefonar tanto, por favor. Antes das 10h estão proibidos.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Manual do Bom Fascista: Livro do Rui Zink. Muito engraçado.

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