O que há de novo neste movimento é a grande dimensão territorial (os manifestantes provocaram milhares de bloqueios por toda a parte do território francês), o caráter popular espontâneo, fora de qualquer estrutura partidária ou sindical, com organização totalmente conduzida através de redes sociais.

Não há dúvidas sobre a grande adesão ao movimento de protesto. A policia reconhece que, no conjunto da França, terão sido umas 280 mil pessoas, todas identificadas pelo “gilet jaune”, a participar nas barragens. Para evitar que tudo descambasse para violência fora de controlo, a polícia optou por ir negociando com os manifestantes, assegurando corredores de emergência e tentando que os bloqueios fossem transitórios. Mas os manifestantes funcionaram como milícias populares que usam o colete como uniforme e que protestam contra o impopular poder político.

O protesto não é de direita nem de esquerda. Não se vê qualquer marca ideológica. É gente de classes médias e baixas que está farta de políticos e de sindicalistas, gente que se sente desprezada pelos poderes, povo que protesta contra injustiças fiscais e contra a má qualidade de serviços públicos.

Os “gilet jaunes” são pessoas de diferentes gerações que descobriram que têm uma ferramenta eficaz para mobilizar aderentes ao ponto de conseguirem bloquear o país. Essa ferramenta são as redes sociais. É ali que tudo é organizado e combinado, com emoções em espiral.

Este protesto que está gigantesco e com tendência para continuar (na manhã de um dia de trabalho como esta segunda-feira continuava a haver muitos “gilet jaunes” em muitos pontos de bloqueio) evidencia a rutura entre povo e representantes. É um fracasso para todos os partidos e movimentos sindicais. Tudo lhes está a escapar.

Impressiona nesta movimentação a evidência de falta de corpos intermediários. Os manifestantes têm algumas figuras que assumem mais notoriedade, mas não há líderes. E não há quem esteja a negociar com eles – exceto, caso a caso, os polícias, que têm evitado responder com uso de força desproporcionada.

Os manifestantes, está demonstrado que em centenas de milhares, levam para a rua e para a estrada a fúria de todas as frustrações que têm. Transportam a revolta contra a falta de resposta política aos desequilíbrios sociais.

O governo de Emmanuel Macron e Édouard Philippe argumenta que a subida do preço dos combustíveis é irreversível, como parte da necessária transição energética. Os manifestantes mostram que não querem agora saber das ameaças do clima, o que querem, e já, é melhoria das condições de vida. Fica aqui evidente o falhanço dos políticos que não têm sabido conjugar a indispensável transição energética com as óbvias necessidades sociais.

Pretender reduzir o uso do automóvel ou promover a substituição do velho automóvel por um não poluente implica criar condições, seja o desenvolvimento de alternativas de transporte, seja possibilidades de compra do automóvel limpo.

O depósito social francês está cheio de combustível para provocar derrapagens, seja para episódios violentos, seja para escaladas populistas. A Itália está ali ao lado a funcionar como exemplo de derivas, tanto para a direita (a Liga, de Salvini) como para a esquerda (o 5 Estrelas, agora de Di Maio).

À primeira vista, parece emocionante ver emergir um movimento popular espontâneo. Mas, a falta de refinaria para tantas aspirações em confronto, tem potencial explosivo. Há o risco de decomposição social.

Estamos mesmo a viver tempos novos, cheios de incertezas. Inquietantes.

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Duas primeiras páginas nesta segunda-feira: esta e esta.

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