No sábado passado escrevi um texto para o SAPO24 em que transcrevia o discurso de tomada de posse do 45º Presidente dos Estados Unidos, indicando no título que se tratava do primeiro discurso do recém nomeado Chanceler da Alemanha, Adolf Hitler, em 1933. Só no último parágrafo é que revelava a verdadeira autoria das palavras atribuídas a Hitler. Portanto, o leitor que não tivesse ouvido a discurso de Trump, era levado a pensar que estava a ler outra coisa e só no final ficava a saber que não. Poderia eu ter dito logo de entrada qual era a intenção, mas pensei que isso tiraria o significado do que queria provar.

Alguns leitores reagiram mal a esta analogia. E isso fez-me pensar que se impunha um esclarecimento - ou se quiserem, uma clarificação das preocupações que procurei transmitir. E não são poucas. Antes de entrar no conteúdo propriamente dito, há que salientar que o texto saiu como um artigo de opinião, devidamente identificado da secção Opinião do SAPO24. Portanto nunca pretendeu ser uma notícia, nem falsa nem verdadeira. As colunas de opinião são isso mesmo, pontos de vista assinados por um autor, e não informações jornalísticas vinculadas à neutralidade. Baseiam-se em factos, mas retiram desses factos análises e avaliações que, muito naturalmente, podem não ser partilhadas por quem as lê.

No caso da coluna em questão, e agora falando do conteúdo, o facto concreto era o discurso de Trump, que traduzi à letra, apenas substituindo América e Washington por “país” e “capital”, para manter a duplicidade até ao fim. Ao contrário do que alguns leitores pensaram, não misturei o discurso de Trump com o de Hitler. Aliás a arenga de Hitler nesse dia 30 de Janeiro de 1933, que está no YouTube, é bastante curta, desinteressante, e nem expõe tão abertamente o ideário do ditador, nem revela as terríveis acções que viria a desenvolver e que provocaram a morte de cerca de cinco milhões de pessoas (os números variam).

Outros discursos de Hitler, normalmente muito longos, são relambórios específicos sobre temas concretos, como a invasão da Polónia ou a declaração de guerra aos Estados Unidos. É preciso ler o “Mein Kampf” ou os jornais controlados pelo partido único para encontrar afirmações de princípio mais específicas.

O que eu pretendia mostrar, é que as ideias programáticas e as propostas concretas de Trump se assemelham de uma maneira preocupante à filosofia e a certas soluções económicas praticadas pelos nazis.

Essa percepção está tanto no que Trump disse, como no que ele não disse. Não disse, por exemplo, como é de praxe nos primeiros discursos presidenciais nos Estados Unidos e na generalidade das democracias, que queria sarar as feridas da campanha eleitoral e trabalhar irmamente com o partido adversário. Não falou nas virtudes da democracia que o elegeu, nem o respeito pelos compromissos assumidos pelo país ao longo dos anos com outras nações do mundo.

Foi exactamente o contrário. Trump disse aquilo que Hitler e tantos outros ditadores sempre dizem: que tem um desígnio nacional, acima da política podre e dos políticos incompetentes ou corruptos, e que esse desígnio é proporcionar ao povo uma vida melhor.

“Os políticos de Washington prosperaram” enquanto o povo sofria – tal como Hitler dizia que os políticos da república democrática de Weimar não queriam saber do problema do desemprego dos trabalhadores alemães.

Só Trump sabe o que o povo quer – daí que tenha ganho as eleições – e só ele sabe como satisfazer os seus desejos.

O que ele pretende é colocar os interesses do seu país acima dos interesses de todos os outros países, com os quais só fará alianças não na base do interesse mútuo, mas com o objectivo de ganhar mais do que eles: “America First!” Isto não soa terrivelmente semelhante ao slogan do nacional -socialismo, “Deutschland Über Alles”? Aliás, será uma coincidência (ou não será?) que “América First!” também era o moto dos americanos que não queriam que os EUA atacassem a Alemanha hitleriana.

Depois, há a demonização dos estrangeiros, dos não nascidos no solo pátrio, que só lá estão para roubar o emprego aos nativos, a vender drogas e a cometer crimes. A solução é correr com eles, prendê-los, catalogá-los, privá-los de quaisquer direitos.

Até na solução mais concreta para acabar com o desemprego – grandes obras públicas para refazer as infraestruturas – o trumpismo recorre à solução encontrada pelos nacional-socialistas entre 1933 e 1939.

Quero com tudo isto dizer que Trump é nazi? Evidentemente que não. Trump é trumpista. Não professa a mesma ideologia que os nazis (embora tal não se possa dizer de alguns dos colaboradores que escolheu). Mas o seu discurso é igualmente totalitário.

Foi eleito democraticamente, dirão. Pois foi, mas quantos ditadores não o foram, inclusive Hitler?

Há que dar-lhe tempo, ver o que ele vai fazer, antes de o classificar. Quanto tempo é preciso dar-lhe? No primeiro dia como Presidente, assinou decretos acabando com a incipiente segurança social (Obamacare), cortou os subsídios aos centros de Planeamento Familiar e cancelou a participação norte-americana nos Acordos de Paris sobre Alterações Climáticas e saiu do Tratado Trans-Pacífico de Comércio Livre.

Na primeira conferência de imprensa da Administração Trump, o porta-voz Sean Spicer acusou a comunicação social de ser mentirosa, hostil e desonesta, só porque provou (com fotos) que havia mais público na tomada de posse de Obama do que na de Trump. A constante hostilidade dos nazis para com a imprensa “liberal, dominada pelos judeus” é um facto histórico conhecido.

Apesar de tudo, será difícil que Trump se torne um ditador. A democracia americana está consolidada, existem diversos mecanismos de controlo e travões a possíveis excessos presidenciais e o próprio aparelho de Estado é refractário a mudanças muito radicais. Por outro lado, a pressão internacional será muito grande para que tratados não sejam rasgados, alianças desfeitas, cooperações anuladas.

A NOTÍCIA de que Trump caminha para a ditadura certamente que seria uma fake news. Agora, a OPINIÃO de que ele tem uma atitude ditatorial é um ponto de vista legítimo, que se pode exprimir livremente.

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