Em 2016, numa entrevista publicada no livro “As raízes mais profundas”, a Rainha Margarida II da Dinamarca afirmou que as regras e valores da cultura dinamarquesa deveriam ter sido mais bem explicadas aos novos imigrantes. Os dinamarqueses teriam sub-estimado as dificuldades da integração e as regras da democracia não foram clarificadas, nem se obrigou que as seguissem.

Esta atitude, numa altura em que a entrada de muçulmanos no país crescia para níveis inéditos, mostra como um país tradicionalmente tolerante se via – e ainda vê – a braços com um problema incontornável: uma população de cerca de seis milhões de habitantes, laicos e protestantes, recebeu, em 2015, 21 mil imigrantes pouco dispostos a abdicar dos seus valores.

Ali em frente, na Suécia, a mesma questão: dez milhões de habitantes convivem com 160 mil refugiados, maioritariamente sírios.

Não é nova a questão dos imigrantes vindos para a Europa do Magrebe e Próximo Oriente, uma região que vai de Marrocos à Turquia – muçulmanos, a maioria –, mas ganhou um novo peso e significado nas últimas décadas. (Pode ver todos os dados aqui)

“Imigrante” aplica-se a quem muda de país por motivos económicos, diferente de “refugiado”, que é aquele que está a emigrar do seu país por razões políticas. Por exemplo, os turcos começaram a imigrar para a Alemanha há cerca de sessenta anos, porque os alemães precisavam de mão de obra. Actualmente, há mais de dois milhões a viver lá, sendo que meio milhão adquiriram nacionalidade germânica. Pode dizer-se que estão integrados, no sentido em que trabalham e têm uma coexistência pacífica, mantendo as suas tradições. Não se misturam e há muitos alemães que não gostam deles, mas em geral não constituem um problema.

Em França, a imigração começou na década de 1950 e actualmente soma quase 9% da população. Os franceses sempre seguiram uma política de que os magrebinos não constituem um problema, tendo toda a liberdade de se integrar ou não; só na última década é que se aperceberam que não houve uma integração real e há muitos problemas por resolver, como a baixa criminalidade e redes de tráfico várias (prostituição e drogas).

A ocorrência de um grande número de refugiados em direcção à União Europeia – isto é, imigrantes por razões políticas – é muito mais recente; terá começado cerca da época das guerras no Iraque e a revolução na Síria. Em 2016, os muçulmanos, entre imigrantes e refugiados, constituíam quase 5% da população europeia, com graus muito variáveis de integração. A grande maioria dos últimos anos querem ser considerados refugiados, um estatuto que lhes dá certas vantagens, mas que exige provas concretas de perseguição no país de origem. A situação em alguns países, especialmente a Síria, atingiu tais extremos de dureza, que se torna difícil distinguir o que é perseguição política ou exclusão económica.

O que também é relativamente recente é a ida de candidatos a refugiados para os países do Norte da Europa, onde as ajudas sociais, organizadas para os nacionais que têm por princípio uma atitude de honestidade, atraem especialmente quem quer tirar partido de um aparelho governamental eficiente e condescendente.

No caso da Dinamarca, a sobrecarga nos serviços sociais tornou-se brutal, além do aumento exponencial da criminalidade – tanto pequena e fortuita, como organizada. Os casos de abuso dos subsídios, assim como falsificação de documentos, casamentos de fachada e outras ilegalidades atingiram proporções impossíveis.

Em países como a Grécia, a França e Itália, o aumento dos problemas com os refugiados provocou um crescimento proporcional dos partidos xenófobos. Na Polónia e na Hungria, já governadas pela direita nacionalista, simplesmente se proibiu-se a entrada de muçulmanos, sejam quais foram as razões. Mas na Dinamarca e na Suécia são governos social-democratas que estão a promulgar medidas que há pouco tempo seriam impensáveis e revelam desinteresse pelo destino dos requerentes de asilo.

Assim, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, social-democrata, propõe simplesmente que os imigrantes sejam enviados para países terceiros, fora da União Europeia – ainda não estão definidos quais, mas fala-se no Ruanda e no Malawi, que receberiam um pagamento pelo “favor”. Ou seja, os imigrantes, fugidos da fome e da perseguição política, irão acabar em países onde a fome e a perseguição política são norma.

Na Suécia, o primeiro-ministro Stefan Löfven, também social-democrata, vai propor este Verão novas regras para imigrantes, como a obrigatoriedade de aprender sueco e ter aulas de educação cívica.

O fluxo de imigrantes de países maioritariamente muçulmanos para a União Europeia é uma situação que não só está longe de ser resolvida, como não tem solução à vista. Propostas, há poucas, e geralmente condicionadas por motivos ideológicos. A maioria não são delinquentes nem radicais, apenas famílias (e pessoas) cujos países entraram em decomposição e esperam um futuro melhor no “paraíso” europeu, sem contudo quererem abdicar da sua cultura.

Resumindo, estamos em mais uma daquelas encruzilhadas civilizacionais em que os movimentos migratórios, imparáveis, são um drama sem saída.

A União Europeia tem tentado uma solução conjunta para todos os membros, mas as diferenças entre países, uns mais afectados do que outros, impede um consenso.

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