Boris Johnson afirmou que iria impedir “os imigrantes de tratarem o Reino Unido como se fosse o próprio país”. Não admira que o Brexit Party, de Nigel Farage, tenha abdicado de concorrer aos assentos parlamentares onde os deputados tories têm maior probabilidade de ganhar – ao que parece, os partidos partilham o discurso como quem partilha casa em Londres, ou seja, sem limites higiénicos.

Amigo Boris Johnson, eu, na qualidade de cidadão europeu a usufruir por legitimamente da presença em território britânico, gostaria de lhe pedir encarecidamente que o right honorable gentleman requeresse um visto de imigração e residência permanente para um local que estilisticamente não é aceitável referir nesta crónica. Não só não cumprirei com as suas intenções de proceda de acordo com a cartilha britânica, como até procurarei intensificar o à-vontade com que me comporto em Londres.

Caríssimo senhor Johnson, posso garantir-lhe que irei continuar a pedir café no fim da refeição; a prolongar os meus almoços por mais de duas horas, a chegar 17 (dezassete) minutos atrasado em média aos meus compromissos; a lamentar o facto deste local estar repleto de espanhóis (também temos direito à nossa xenofobia bacoca); a fazer questão de refogar sempre o arroz, enfim, a levar a cabo toda uma panóplia de atos que demonstrem uma tentativa de aculturação portuguesa do país de destino, no fundo, gritarei “esta merda é toda nossa” até que os seus serviços de imigração me enfiem no aeroporto de Stansted para um voo de ida da Ryanair, orçado em 9 libras.

Mais acrescento que, assim que o senhor entusiasticamente expulsar todos aqueles que não ajam de acordo com as lições de boas-maneiras que o caro terá aprendido no Eton College, viajarei para a rua da Oura, em Albufeira, no sentido de iniciar um processo de purga dos seus compatriotas que foram impondo, ao longo de décadas, a sua cultura ruidosa e indigente nessa zona do país. Num local onde se assa peixe como em poucos sítios do Mundo, a nossa cultura conservadora não se poderá dar ao luxo de tolerar, de ora em diante, o consumo desenfreado e irresponsável de fish and chips. Não estamos em Brighton, meus amigos. Peçam um robalinho escalado com uma salada de pimentos, caso contrário o SEF terá de agir em conformidade.

Ao que tudo indica, as eleições desta quinta-feira concederão legitimidade a mais um perigoso despenteado. Em princípio, Jeremy Corbyn sairá claramente derrotado. Só um milagre pode impedir este desfecho. Jeremy Corbyn está longe de ser consensual no seu próprio partido e é um dos políticos menos populares. Os britânicos podem apenas esperar um volte-face absurdo em que o elemento mais impopular se torna numa espécie de salvador da pátria. Improvável. Nem todos têm direito a um Éder.

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Esta deliciosa entrevista.

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