No debate parlamentar desta segunda-feira sobre racismo, o deputado da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, disse que o seu partido está empenhado na “frontal oposição ao racismo e ao discurso de ódio que lhe está subjacente”. Até aqui tudo bem, alinhou com aquele que foi o tom do plenário.

Mas a seguir pôs o dedo na ferida: “Se substituirmos as palavras ‘negro’ ou ‘cigano’ (...) por investidor privado ou investidor bolsista é arrepiantemente próximo da discriminação e do ódio que aqui (...) queremos condenar”.

É verdade. Manifestantes um pouco por todo o Mundo investem em fúteis protestos pela causa menor do combate ao racismo, quando aqueles que têm vindo a ser sistematicamente ostracizados são, sem sombra de dúvida, os investidores da Bolsa. Basta olhar para os guetos problemáticos de Wall Street e da City of London, onde muitos nem sequer ousam entrar, para vermos as condições em que estes seres humanos são obrigados a viver.

É tempo de reconhecermos o privilégio de quem não tem de andar na rua com este peso. O peso de ter uma carteira de investimentos diversificada. Para termos noção do inferno que é viver como um investidor da Bolsa em Portugal, temos de calçar os seus sapatos Ermenegildo Zegna. Não podemos ignorar a história e o passado que levou a esta discriminação bolsista.

O bolsismo grassa neste continente desde o século XVI, quando os Descobrimentos levaram à criação de empresas que precisavam de investidores, desde logo marginalizados. O nosso privilégio não nos permite compreender o sofrimento desta comunidade. Poucos conseguem imaginar a dor daqueles que compraram as fatídicas ações da Kodak em 2008.

Mas a luta de Cotrim de Figueiredo é a de todos nós. Um dia, quando menos esperar, também o leitor pode ser investidor privado. Pode vir a ter meia bitcoin ou a comprar uma ação da Alphabet. Pode interessar-se por trading ou começar a minerar criptomoedas. Pode ter no seu vocabulário palavras como 'ativo intangível', 'dividendos' e 'commodities'.

E aí vai valorizar a luta daqueles que defenderam o seu direito a ser proprietário de um Tesla Model 3. Daqueles que combateram a discriminação dos investidores bolsistas em jantares de intelectuais. A luta do pacífico mas inabalável Martin Luther Cotrim.

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