Toda a gente sabe, mais coisa menos coisa, a história do político mais competente e mais sagaz do estrelato internacional: simples operacional da KGB (Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti, cuja fama e eficiência não precisamos recordar), estava em Dresden em 1990 e assistiu ao desmantelamento da República Democrática da Alemanha. Foi então para Leninegrado, onde assistiu ao desmoronar da URSS. Em 1991, aquando do segundo golpe contra Gorbachev, vendo o caminho errático que o seu país estava a tomar, jurou que um dia haveria de devolver à Mãe Pátria o seu esplendor de grande potência mundial. Não como URSS, pois, como diria mais tarde, “o comunismo é um beco sem saída, um desvio civilizacional”, mas como Rússia, e uma Rússia onde o seu poder pessoal se encarregaria de garantir a glória nacional.

Leninegrado voltou a chamar-se São Petesburgo, e nos anos seguintes a Rússia passou da dolorosa transição duma ditadura anquilosada para uma democracia atrapalhada. Habituados a ser dirigidos com mão de ferro desde, pelo menos, os tempos de Pedro o Grande (1721), os russos estavam desnorteados e, sobretudo, continuavam pobres. Foram precisos anos para se passar do sistema de economia de Estado para uma economia de mercado, período em que o aparelho do antigo Partido Comunista e as máfias que sempre tinham sabido conviver com ele se encarregaram de ocupar os postos chave da sociedade – os famosos “oligarcas”, um termo que significa poder e dinheiro aglutinados, proporcionando o controle do processo pseudo-democrático e a acumulação de mega fortunas .

Durante esse período, Putin foi subindo lenta mas seguramente pela hierarquia estatal, até se tornar, em 1999, Primeiro Ministro da Federação Russa, com Boris Ieltsin como Presidente. Na altura desconhecido do grande público e visto como um fiel a Ieltsin, poucos esperavam que durasse muito tempo na direcção de uma economia que mal começava a recuperar da anarquia e da bancarrota, já puxada pelas enormes riquezas minerais do seu vasto território. Mas o “nosso” Vladimirovich mostrou-se competente a reprimir a anarquia reinante e as tentativas de independência da Chechénia. Ao mesmo tempo que se afirmava como um poder a ter em conta, eliminou, de uma forma ou de outra, as suspeitas de corrupção que o envolviam.

No último dia de 1999, Ielstin, abdicou subitamente num anúncio que apanhou o mundo de surpresa, ficando Putin automaticamente com o seu posto. Nas eleições montadas à pressa, três meses depois, em março de 2000, Putin, teve 53% dos votos. Restava-lhe consolidar o poder.

Durante quatro anos bateu-se com os oligarcas, prendendo alguns sob variados pretextos (e pretextos não faltavam) e acabou por estabelecer um acordo que permanece até hoje; os donos do dinheiro podem fazer os seus negócios à vontade, a troco de apoiarem o senhor do poder. A Rússia chegava finalmente ao modelo que os chineses já tinham implantado (precisamente por terem aprendido com a Rússia o disparate de separar a política da economia) e a partir daí entrou em velocidade de cruzeiro. A população continuou – e continua – a flutuar na linha de pobreza, mas o controle total do aparelho de Estado e o apoio explícito dos donos daquilo tudo, deram espaço de manobra a Putin para se consolidar no quadro constitucional.

Ora, o quadro constitucional incluía a tão conhecida limitação de mandatos: o presidente só pode ser eleito por dois mandatos. Na segunda eleição, em 2004, Vladimir já obtivera uns confortáveis 71% dos votos, mas tinha o fim à vista, em 2008. Neste segundo mandato, prosseguiu o seu método infalível de prender indefinidamente os oligarcas que tinham a veleidade de mandar mais do que ele – caso de Mikhail Khodorkóvski. O assassinato da jornalista Anna Politkovskaya, que tinha feito a cobertura da guerra na Chechénia e denunciado violações de direitos humanos, chamou a atenção do mundo ocidental e dos media. Anna era filha de diplomatas de origem ucraniana em missão na ONU, nasceu em Nova Iorque e regressou à Rússia para estudar. Foi assassinada em 2006, no mesmo dia em que Vladimir Putin completava 54 anos, e só em 2011 seriam apontados os responsáveis, um ex-coronel russo, Dmítri Pavliutchenkov, que foi preso sob a acusação de ser o arquitecto do crime.

Entretanto a Rússia, impulsionada pelas suas fabulosas reservas de petróleo, gás natural e minério, recomeçava a mostrar poder no cenário internacional, um factor importante para a auto-estima dos cidadãos, que viam em Putin o agente de glórias passadas. Mas permanecia a questão da limitação de mandatos.

O problema resolveu-se com uma solução que já é clássica no funcionamento das pseudo-democracias. Dmitri Medvedev, um fiel seguidor de Putin, foi eleito Presidente em 2008, e no dia seguinte nomeou o seu patrono como Primeiro Ministro. Por muito que gostasse de Putin, a população não viu com bons olhos esta jogada, e em 2011 ocorreram manifestações nunca vistas contra a entourage que efectivamente detinha o poder. Houve prisões em massa, desaparecimentos e apareceram grupos paramilitares. Em 2012 Putin voltou a ganhar as eleições presidenciais.

A sua consolidação no poder seguia em todas as frentes. Estabeleceu um acordo com a Igreja Ortodoxa, que inclusive lhe forneceu voluntários nacional-religiosos. Colocou os seus amigos e correligionários  em postos chave do Estado e da economia. E começou, finalmente, a expansão da Rússia para os territórios que a URSS tinha perdido, com a anexação do sul da Crimeia. Também tomou um papel mais activo na cena política internacional, substituindo os Estados Unidos em certas áreas do Mediterrâneo – caso da Síria. Em 2016, o Brexit primeiro e as eleições americanas depois trouxeram um tema completamente novo para o xadrez político internacional que foi a interferência ou manipulação de eleitorados ocidentais por parte da Rússia.

Nos seus discursos, Putin cada vez mais apresenta uma espécie de teoria política civilizacional: as democracias ocidentais são fracas, promovem a dissolução da família e a decadência dos valores culturais seculares; estão destinadas à extinção e ele, Vladimir Putin, está disposto a contribuir por todos os meios para esse fim. Com ele, a Rússia passou da defesa do comunismo internacional para a propagação do autoritarismo mundial – sem rebuço e sem hesitações. Pode dizer-se que é o mais poderoso político ultra-conservador do espectro atual.

E assim chegamos a 2020, com as eleições presidenciais de 2024 à vista. Certamente que se esperava que Putin seguisse o modelo de 2008, escolhendo um candidato a Presidente absolutamente fiel, que por sua vez o nomeará primeiro ministro. Mas a questão é que um primeiro ministro não tem os poderes de um presidente, ou pelo menos não tem os poderes que Putin acha ter ou dever ter direito. Daí que esta terça feira tenha apresentado uma proposta de revisão constitucional, destinada precisamente a corrigir esse precalço. O fiel Medvedev demitiu-se de Primeiro Ministro – os russos andam a queixar-se muito do seu baixo nível de vida, portanto é uma boa oportunidade de trocar o posto que, precisamente, tem a cargo a economia e as estruturas administrativas.

Mantendo o guião que acha adequado, Putin nomeou logo na quarta feira uma comissão especial de 75 membros para propor as mudanças constitucionais – comissão essa que imediatamente se reuniu na datcha presidencial de Novo-Ogaryovo, nos arredores de Moscovo. Klishas, um membro escolhido para o Conselho, e um dos poucos com conhecimentos constitucionais, já indicou que o grupo certamente aprovará as mudanças propostas por Putin. Na quinta feira, a Agência Tass publicou que se espera um referendo nacional às mudanças constitucionais ainda antes do 1º de Maio.

Vladimir Vladimirovich Putin sabe o que quer para a Rússia e não vai perder tempo com leis que não se mostram eficientes. Não há nada mais seguro do que um regime forte, sem demissões, comissões de inquérito e outros engulhos.

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