Este ano a pensão social do regime não contributivo foi aumentada em 0,81 euros, para 202,34 euros. Já o complemento extraordinário de solidariedade subiu sete cêntimos, para 17,61 euros, para quem tem menos de 70 anos, e 14 cêntimos, para 35,20, para os que têm mais de 70 anos.

Paralelamente, a administração da Caixa Geral de Depósitos vai passar de 14 para 19 membros e, com as alterações que estão a ser preparadas, deverá passar a custar mais 70%. Com o fim do tecto salarial no banco do Estado, o novo presidente, António Domingues, poderá passar a ganhar na ordem dos 46 mil euros por mês - tanto quanto ganhou, em média, no BPI nos últimos três anos. O presidente cessante, José de Matos, ganha 16 mil euros por mês.

Está também a ser preparada uma capitalização da instituição na ordem dos 4.000 milhões de euros. Uma boa parte deste montante é para fazer face a perdas na concessão de crédito e a operações como a que financiou Joe Berardo em cerca de 600 milhões de euros para comprar acções do BCP, na década passada.

E estamos no meio de uma polémica com a redução do âmbito dos contratos de associação com escolas privadas onde o Estado prevê poupar 30 milhões de euros.

Sim, estes argumentos são altamente demagógicos. Colocar estes dados uns ao lado dos outros, comparando-os, é populismo em estado puro. Pessoalmente, até concordo com algumas destas opções do governo. Defendo que o Estado deve pagar bem se quer contratar os melhores para gerir os seus activos. Deve pagar bem e deve fazer depois uma avaliação criteriosa dos resultados desses gestores. E também concordo - já o escrevi - com o príncipio de não duplicar custos a financiar ensino privado se a rede pública tiver capacidade instalada para acolher mais alunos e isso for mais barato para os contribuintes.

Satisfeitos estes critérios, não discordo das opções para a liderença da Caixa nem dos cortes no financiamento de turmas em escolas privadas.

Se coloquei estes dados lado a lado foi para mostrar como uma boa parte da esquerda está agora a provar do seu próprio veneno. Nada como uma experiência de governo para perceber que as opções nem sempre são fáceis e que não é bom quando nos vemos ao espelho da demagogia. Não há dinheiro para aumentar decentemente as pensões de miséria. Mas há para equipas de luxo no banco do Estado. Não há dinheiro para a educação das nossas crianças. Mas há para acorrer a perdas que esse banco do Estado teve a financiar negócios privados que correram mal e que agora são pagos pelo contribuinte. Tão fácil de dizer, tão bom efeito que estas frases têm. E tão demagógico.

Uma boa parte da esquerda está agora, com esta experiência de governo, a perder a virgindade nas difíceis opções da governação. Só não perdem a inocência porque esta nunca a tiveram. Lá no fundo, quando passaram os últimos anos ou décadas a argumentar desta maneira, sabiam que estavam a ser tudo menos inocentes. Mas nem por isso deixaram de o fazer, com a plena consciência do que faziam.

O PCP diz que o aumento dos gestores da Caixa "é inaceitável". Mas lá terá que aceitar.

O Bloco de Esquerda "estranha" esse aumento. Mas, como Pessoa disse da Coca-Cola, primeiro estranha-se, depois entranha-se. É uma questão de hábito.

Também o PS, sempre de palavra fácil a denunciar injustiças sociais e a prometer que nem mais um tostão iria para a banca, está a caminho de uma média de cerca de mil milhões de euros por mês de governação para acorrer ao sector financeiro (Banif+CGD). E é ouvir agora o PS a defender o aumento de remunerações na administração do banco com o argumento dos "valores de mercado". Claro, sabemos como é: "you pay peanuts, you get monkeys". Só descobriram agora?

Sapos engolidos, todos dariam um enorme contributo ao pobre funcionamento das nossas instituições se promovessem uma verdadeira auditoria independente à gestão da Caixa no passado. Que abrangesse a última década e meia, por exemplo. Um período em que tivemos governos de vários partidos, várias administrações com vários formatos, uma época pré-crise e outra de crise. Para perceber o que foi feito, por quem, com que objectivos, com que méritos e com que falhas. E tirando consequências legais ou criminais, se as houvesse.

Podia ser uma espécie de colocação dos contadores a zero, antes deste novo ciclo. Mas as instituições são fracas, os telhados de vidro são muitos e o regime funciona muito na lógica de "uma mão lava a outra".

Com a generalidade da esquerda agora também integrada no arco da governação e a ser cúmplice destes branqueamentos do passado não há esperança de que alguma coisa mude. Para mal dos nossos pecados.

Outras leituras

  • Diz um estudo da Reuters: "uma segunda onda de disrupção abateu-se sobre as organizações noticiosas a nível mundial, com consequências potencialmente profundas, tanto para os editores como para o futuro da produção jornalística". Nada que não saibamos já: metade de nós já acede às notícias através das redes sociais. A crise dos media segue dentro de momentos.

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