Portugal: votaram 3.314.325 eleitores de 10.777.754 inscritos (30,73%).

Abstenção: 69,27%, ou seja, 7.463.429 eleitores

Votos brancos e nulos: 6,92% (229.909 eleitores), mais do que o PCP-PEV conquistou nestas eleições, 228.156 votos.

Conclusão do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa: Temos uma “maioria clara” pró-europeia em Portugal.

Bela aritmética. Só que não. Pessoalmente, acredito até que Marcelo tenha selfies com mais portugueses do que aqueles que foram votar.

Marcelo diz que "temia pior, uma abstenção de 75 a 80%". E eu tremo com os temores de um Presidente da República que acha tudo isto normal. Num momento tão decisivo para a Europa - e, consequentemente, para Portugal - como o próprio admitiu, esperava mais. Mas esperava mais do presidente e esperava mais da chamada classe política, que tem dificuldade em entender que esta não é uma situação sustentável e, mais do que isso, é desequilibrada.

Há anos que se diz que é necessária uma reflexão profunda, mas ninguém a faz. Marcelo devia, antes de mais, dizer que não é nesta democracia frouxa que quer viver. E devia dar um valente puxão de orelhas aos partidos e aos seus responsáveis por não terem conseguido convencer pelas suas ideias cerca de sete milhões e meio de portugueses a votar. Mas é mais confortável ser brando.

Resta a esperança de que os portugueses que não votaram (e os que votaram também) olhem para os resultados das eleições europeias e, quanto mais não seja por um exercício de curiosidade, façam a extrapolação dos números para as legislativas, entusiasmando-se com a possibilidade de mudança: na Assembleia da República teríamos hoje não sete, mas dez partidos representados. Aliança, Livre e Basta conseguiriam eleger deputados. Outros ficariam perto. 

Quanto ao resto, é bom que os portugueses percebam para onde caminha a União Europeia e ponderem se é isto que querem:

A participação nos 28 países foi a mais elevada dos últimos 20 anos, atingindo uma média de 50,9% (contra 42,61% em 2014). A abstenção foi, assim, de 49,1%.

Os partidos populistas "assaltaram" o poder em quase toda a Europa e três formações eurocépticas impuseram-se no cenário político comunitário: os grupos Europa das Nações e da Liberdade (ENL), de Marine Le Pen e de Matteo Salvini, Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), dominado pela Polónia, e Europa da Liberdade e da Democracia Direta (EFDD), de Nigel Farage e do Movimento Cinco Estrelas, elegeram 175 deputados e passaram a ser a segunda maior força do Parlamento Europeu. Se decidirem aliar-se, constituem uma verdadeira força de bloqueio.

As duas famílias dominantes, o Partido Popular Europeu (PPE), os democratas-cristãos, e o S&D, socialistas e democratas, perdem a maioria absoluta pela primeira vez em 40 anos. Os primeiros perdem 42 deputados e os segundos 38 deputados.

Os liberais disparam um pouco por toda a parte, e o Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (ALDE) ganha 38 deputados, passando para um total de 105.

Os Verdes são a segunda força que mais cresce na Europa, embalados pela consciência das alterações climáticas, e passam a ocupar mais 19 lugares no hemiciclo: 69 deputados.

Lembro que para apoiar os objectivos climáticos da União Europeia, a Comissão propôs que pelo menos 25% do próximo orçamento de longo prazo da UE (2021-2027), que ultrapassa os 1,2 biliões de euros, seja para este fim. Propôs igualmente um reforço de 60% dos fundos do programa LIFE (ambiente e clima) e um montante de 8,7 mil milhões de euros para apoiar investimentos nas redes europeias de infra-estrutura de energia ao longo de sete anos, mais 6,07 mil milhões de euros para o projecto internacional de construção e exploração de uma instalação experimental para testar a viabilidade da energia de fusão enquanto fonte de energia sustentável. Ainda, a Comissão propões que 40% do orçamento global da Política Agrícola Comum contribua para a acção climática.

Nesta altura, os eurodeputados eleitos já estão a negociar a formação dos grupos políticos, que, inevitavelmente, sofrerão alterações. Para formar um grupo político são necessários pelo menos 25 eurodeputados de um quarto dos Estados-membros e a composição final do novo Parlamento terá de ser comunicada até ao próximo 24 de Junho. A legislatura, essa terá início a 2 de Julho, com a eleição, em Estrasburgo, do novo presidente do Parlamento Europeu, 14 vice-presidentes e cinco questores.

Mas não é tudo. Os Estados-membros terão agora de nomear um candidato para o cargo de presidente da Comissão Europeia, tendo em conta, obrigatoriamente, os resultados das eleições europeias. É daqui que poderá vir o maior perigo. O nome terá de ser aprovado pelo PE por maioria absoluta (metade dos deputados mais um, ou seja, 376). Caso a proposta não seja aceite, no prazo de um mês os Estados-membros (Conselho Europeu) terão de propor novo nome. Em Novembro tudo tem de estar oleado e pronto a funcionar. Vamos ver se a máquina não gripa.


*A distribuição dos assentos parlamentares está de acordo com os dados do Parlamento Europeu, actualizados a 29/05/2019 às 11h55.

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