Portugal parece estar dividido entre dois tipos de pessoa: as que adoram André Ventura e odeiam Joacine Katar Moreira; e os que odeiam André Ventura e adoram Joacine Katar Moreira. Quando digo que parece é exactamente porque não é. Na verdade, a esmagadora maioria da população não simpatiza com nenhum deles e, pasmem-se, isso é mesmo possível.

O caso da mulher alegadamente agredida pelo polícia também parece ter dividido a opinião pública: por um lado, os que acham que foi um abuso de poder inqualificável, racismo, e violência gratuita; outros que acham que a mulher resistiu e só teve o que mereceu. Mais uma vez, pasmem-se, é possível achar que a senhora é muito provavelmente uma idiota que não respeita as leis, mas, ao mesmo tempo, afirmar que um polícia nunca, mas nunca, por mais que seja agredido e injuriado, nunca pode agredir alguém que já está algemado e imobilizado como parece ter acontecido.

Como se pode ver, vivemos num mundo binário, de preto e branco, sem nuances ou reflexões sobre as partes cinzentas, mas há assuntos em que não temos de ver os dois lados e dou alguns exemplos:

- Sim, o Hitler matou aquela gente toda, mas os judeus também se podiam ter suicidado em vez estarem ali a tentar sobreviver sem comida nem nada. Temos de ver os dois lados? Talvez não.

- Sim, o senhor Alfredo matou a mulher à paulada, mas ela queimou o arroz duas vezes seguidas. Temos de ver os dois lados. Temos de ver os dois lados? Talvez não.

Quando digo ver os dois lados, digo especular em busca de uma desculpa:

- Aquilo não era a saudação nazi, era a saudação da bandeira.

- Se calhar a senhora caiu mesmo à porta da esquadra e caiu com a cara mesmo no passeio.

- O Hitler não era bem nazi, o pessoal que faz a legendagem é que não sabe bem alemão e põe-se a inventar.

Já que falo da saudação nazi, há um provérbio alemão diz o seguinte: se existe um nazi sentado à mesa a conversar amigavelmente com outras 10 pessoas, então há 11 nazis sentados à mesa. Fazendo o paralelismo com o que aconteceu no comício do Chega, enquanto o André Ventura palrava o hino: se está um nazi no teu comício a fazer a saudação nazi, tu vês e não dizes nada imediatamente, então há pelo menos dois nazis no teu comício ou és um cobarde aproveitador.

Esta semana, também não podemos esquecer que André sugeriu, por outras palavras, que Joacine Katar Moreira voltasse para a terra dela. Ao André resta-nos sugerir que volte para o seu tempo que é algures no Séc. XIX, para a genitália da mãe ou, pior, para a sua terra de origem, se bem que isso é ultrapassar os limites porque uma coisa é desejar a morte e ofender, outra é desejar que ele volte para Mem Martins. Mais uma vez, reparem que é possível achar que um deputado não pode tecer comentários destes e, ao mesmo tempo, não nutrir qualquer simpatia pela deputada Joacine e pelas suas ideias.

Voltando ao outro caso: a mulher mordeu o polícia? Sim. Justificadamente? Não parece, mas e então? Não interessa para o caso. Primeiro, está previsto na lei o direito de todos nós resistirmos à autoridade policial se a considerarmos abusiva e deixar para os tribunais decidirem quem tem razão. Depois, mesmo que ela não tivesse qualquer razão e tivesse mordido, chamado nomes, arrancado os testículos do polícia com um canivete ou dito que a mãe dele era de Mem Martins, um polícia nunca pode agredir alguém que está algemado e imobilizado. Nunca. Deve dar vontade? Deve. A mim apetece-me agredir pessoas todos os dias e imagino que a um polícia que lida com o pior da sociedade também. No entanto, não pode. Nunca. Poder pode, mas tem de sofrer as consequências e, provavelmente, deixar de ser polícia porque a parte do servir em “Proteger e Servir”, não é servir uma carga de pancada. Dito isto, pensando isso, é possível também achar que os polícias não são valorizados, são mal pagos e que deviam ter outro tipo de apoio e acompanhamento? É. É possível achar até que se tivessem mais condições estes casos aconteceriam menos vezes? É. Isso desculpa? Não.

Para ver: Filme do Bruno Aleixo
Para rir: Maxime Comedy Club, em Lisboa.

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