O Sudão, para quem não se lembra, ou quando estudou o país ainda não existia como tal, antes de 1956, é aquele imenso espaço subsaariano (quase dois milhões de quilómetros quadrados) imediatamente a Sul do Egipto, à direita da Etiópia e com vista para o Mar Vermelho.

Colónia dos faraós, tornou-se o Califado de Omdurmã até ser conquistado pela Grã-Bretanha em 1898. Desde a independência, conheceu uma sucessão de governos pseudo-democráticos e ditatoriais, num banho de sangue tribal que culminou com a separação do Sudão do Sul em 2011. Uma vida atribulada, típica da África subsaariana muçulmana, dominado pela feroz ditadura de Omar al-Bashir, considerado pelo Tribunal Criminal Internacional um dos mais brutais delinquentes deste mundo cheio de tiranos delinquentes. Os seus cerca de 30 milhões de habitantes (todos os números referentes ao Sudão são cálculos), miseráveis e iletrados, não são contudo mansos, e fartaram-se de tanto abuso.

Comparar o Sudão a Portugal, como fizemos no título, é, evidentemente, um exercício de estilo. Mais ainda, uma comparação de esperanças. A semelhança está na passagem da ditadura para um sistema que todos esperam melhor, mas que ainda não se sabe – e durante algum tempo não se saberá – se será redentor ou mais do mesmo.

Os factos: em 1953, o Egipto de Nasser não queria o encargo de tomar conta dum Sudão incontrolável politicamente. Os ingleses estavam desejosos de se retirar dum “protectorado” que lhes dava mais problemas do que lucros. (A riqueza do petróleo e gás sudaneses, localizados no sul do país, ainda não tinha sido descoberta.) Fez-se um referendo que resultou oficialmente numa república democrática presidencialista, sob as leis da Sharia, proclamada em 1956. Desde logo tornou-se notória a hostilidade entre as populações do norte do país, muçulmanas, e as do sul, animistas e cristãs. As diferenças de costumes das 597 etnias também são muito fortes, com 400 idiomas, 70 deles de origem local. O resultado foi uma guerra civil com barbaridades de parte a parte, que só terminou – a guerra, não as barbaridades – com a independência do Sudão do Sul. Calcula-se que nestes conflitos tenham morrido 300 mil civis.

Ao fim de vários golpes de Estado e mudanças constitucionais, provocadas por diferentes facções do exército e ideologias conflitantes – os comunistas chegaram a deter o poder durante um curto período – em 1989 o coronel Omar al-Bashir conseguiu consolidar-se no poder. Instituída a lei islâmica para todo o país, foram abolidos partidos e associações e procedeu-se a uma purga geral das forças armadas, políticos e jornalistas. Em 1993 al-Bashir dissolveu o que restava das instituições e tomou para si os poderes executivo e legislativo. A partir daí passou a haver um partido único, o Partido Nacional do Congresso e al-Bashir venceu as poucas “eleições” que ocorriam quando lhe dava jeito. Ainda na década de 1990 Osama bin Laden esteve refugiado em Cartum e o Sudão foi oficialmente classificado como protector do terrorismo.

Em 2003 o Darfur (zona do sudeste) revoltou-se, o que levou a uma guerra selvagem que terminou em 2011 com a independência do Sul.

Num país onde a miséria é endémica, todas as vilanias podem acontecer. Escravatura, trabalhos forçados, violência contra mulheres e crianças. Um artigo do “The Independent” revela que a Arábia Saudita tem comprado adolescentes no Darfur para lutar no Iémen.

Finalmente, em Dezembro do ano passado, a população, onde se incluem as baixas patentes do exército – os “capitães” - achou que chegava de repressão, baixo índice de vida, inflação de 70%, corrupção e detenções aleatórias. Vieram para a rua, com um tal ímpeto que al-Bashir mandou prender cerca de 800 pessoas e assassinar 40, de acordo com o Human Rights Watch, muito mais segundo os testemunhos locais. A 11 deste mês os altos comandos militares – que na realidade beneficiavam do regime tanto quanto o Presidente – viram que a situação era insustentável e prenderam o homem de 75 anos que estava há 30 no poder.

Mas a população não ficou saciada com esta demissão. Teme, como toda a razão, que a claque que apoiava al-Bashir faça apenas uma mudança cosmética nas instituições e fique tudo como dantes. As ruas de Cartum estão permanentemente ocupadas por populares e militares. No dia 12 o Ministro da Defesa, Awad Ibn Auf, há menos de 24 horas no poder, demitiu-se. No dia seguinte foi a vez de Salah Abdallah Gosh, o chefe da temida polícia política.

A 13, o general Abdel Fattah Abdelrahman Burhan veio para a televisão prometer que a Junta Militar dará lugar a um governo civil proveniente de eleições, dentro de dois anos, e que quem assassinou manifestantes será julgado.

As notícias são constantes: foram encontrados 120 milhões de euros em notas na casa de al-Bashir; a polícia não pára de atirar nas ruas e vêem-se snipers no alto dos edifícios. Há uma luta de poder nos gabinetes, a ver quem fica com os despojos da ditadura, assim como a calcular se é mesmo preciso fazer reformas democráticas, de fachada que sejam.

Dois anos é muito tempo. Para ficar na rua, a bloquear a entrada do Ministério da Defesa – o único que conta – e para manter viva a esperança. Mas as mudanças de regime, se fisicamente ocorrem em horas ou dias, no papel são muito mais complicadas.

Uma revolução é um acto de desespero, mas isso não quer dizer que acabe com os desesperados. Os próximos capítulos são fundamentais.

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