Os cientistas alertam há décadas para os riscos que temos pela frente com os efeitos nefastos da alteração do clima. Muita gente escolheu negar a ameaça, outros ficaram indiferentes. Mas, nestes últimos 20 anos, a realidade impôs-se, com os fenómenos meteorológicos extremos que já estavam a afetar pessoas em regiões distantes agora a perturbarem também o nosso quotidiano: sucedem-se os episódios de calor excessivo, a seca instala-se em muitas regiões (uma barragem na Beira Interior que quase secou, tal como porções do Tejo Internacional) e constatamos aumento da frequência de inundações e cheias (foi recente o alagamento da baixa de Albufeira). Há cada vez mais refugiados climáticos, são muitos milhões os que procuram esperança fora de África. Não há como negar, é uma evidência para todos. Até a primavera e o outono parecem perder o estatuto de estações amenas intermédias, com a sensação de que o verão e o inverno, em muitos anos, se sucedem diretamente.

Nos meses antes da chegada do coronavirus, o movimento de luta contra as alterações climáticas estava a impor-se nas avenidas, ruas e praças por meio mundo com marchas muito participadas por gente de todas as gerações, mobilizada para a exigência de políticas climáticas eficazes. A crise do covid fez desaparecer essa expressão pública que crescia de consciência climática coletiva. Mas a crise climática não fez pausa com o confinamento – embora tenha acontecido o efeito benéfico de menos emissões maléficas, consequência da baixa de atividade imposta pela luta contra o vírus.

Reduziu-se um mal (as emissões), disparou um outro (a emergência económica e social).

Resulta óbvio que o essencial é que sejam cultivados modelos de desenvolvimento que conciliem economia e harmonia social robusta com proteção consistente da natureza e do clima.

A febre do planeta está sempre a aumentar. Vamos estar cada vez mais expostos às tormentas do clima se não forem decididas e aplicadas políticas competentes de desenvolvimento sustentável, compatibilizadas com mudanças no nosso comportamento.

Ou seja, há tarefa para os políticos e há tarefa para cada um de nós.

O combate ao covid tem mostrado o valor de os políticos basearem a decisão no conhecimento do saber científico. Ficamos a ganhar se o pensamento criado pela ciência passar a determinar as escolhas feitas pelas instituições e por quem faz as leis.

Também é preciso que mudemos os nossos comportamentos. Em casa, nas deslocações, nos modos de consumo. É preciso tratar a pobreza e cuidar de a erradicar para que o quotidiano de todas as pessoas possa ficar amigo da natureza e do clima. É mais difícil que quem está aflito com a falta de dinheiro para comprar alimento se preocupe com a proteção do clima, tal como tantos antes seguidores da mensagem protagonizada por Greta Thunberg entrámos em pausa de atenção pelo efeito absorvente total do vírus.

Mas o alerta para a emergência climática segue igual e a crise do covid até nos pode ajudar para agarrarmos as mudanças necessárias. O confinamento mostrou-nos a todos caminhos pelos quais importa continuar a avançar sem hesitações. As reuniões através do Zoom ou qualquer outro tipo de videoconferências e o teletrabalho são excelente contributo para dar respiração ao trânsito, espaço para melhor transporte público, oportunidade para mais tempo disponível e tudo a concorrer para menos emissões de CO2. O governo português já está a incitar ao teletrabalho, com a ambição de 25% na administração pública, nesta legislatura. Que assim seja.

Todos os pequenos gestos de cada um de nós importam. Já estamos, muitos, a preferir a água da torneira e a virar costas à embalada em garrafas de plástico. A exigir sacos reutilizáveis. A escolher que o pão seja metido num saco de papel, como nas padarias de antigamente, em vez de enfiado num saco de plástico. A preferir pilhas recarregáveis.

Todos nós sabemos que é preciso um valente relançamento da economia. Aproveite-se a oportunidade para corrigir erros instalados e inovar com audácia no desenho do modelo. A União Europeia, ainda antes do covid, propôs bom incitamento com o Green Deal. Que ele não fique em plano secundário, antes que seja o motor para a recuperação, no tempo com o covid.

O coronavirus trouxe à nossa vida uma chamada de atenção para o reconhecimento da importância da ciência para vivermos num mundo mais seguro e mais próspero. Chegou o momento para elevar a ciência e o conhecimento científico às estruturas que legislam e decidem.

Quantos deputados e governantes têm formação científica? Tenham a sabedoria de ouvir os cientistas.

O covid persiste mas as alterações climáticas são outra crise persistente.

Preocupem-se e atuem também em relação ao clima, se fazem favor.

A TER EM CONTA:

Este exemplo de ação concreta para resolver um problema:  os serviços de polícia em Minneapolis (também em outras cidades) são desmantelados para que seja criado um modelo alternativo de segurança pública. A ver se resulta melhor serviço, mais respeitador das pessoas mas garantindo a proteção de todos.

Os cursos universitários de 2020 foram atacados pelo vírus. Mas há quem, de Beyoncé a Obama, não tenha querido perder a celebração da graduação.

O que está a acontecer na Venezuela?

Uma primeira página escolhida hoje.

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