As sondagens foram variando ao longo do tempo, mas é evidente que todas mostram o mesmo cenário: uma profunda divisão interna, provocada por fenómenos tão díspares quanto a imigração e a moeda única, o terrorismo e a balança comercial. Neste quadro, o debate foi de tal forma confuso, que até a intenção de voto dos ingleses se foi dispersando ao longo do tempo.

Como português, e defensor da causa europeia, espero que o referendo mantenha o Reino Unido debaixo da bandeira azul estrelada. Mas não deixo de pensar nos paradoxos desta "união", um mês depois de ter aterrado em Manchester, onde estuda o meu filho, e me ter voltado a confrontar com duas moedas, câmbios e taxas de juros nas operações bancárias. Na verdade, a Grã-Bretanha tem estado sempre com um pé dentro e outro fora do projecto europeu, numa fina mistura entre o "adepto" e o "sócio". Sem colocar numa balança o que ganha e perde com esta postura, ela traduz uma eterna desconfiança em relação à UE, e uma ameaça permanente sobre a ideia fundadora desta União. Por outro lado, ao mesmo tempo, enquanto trocava euros por libras, não deixava de notar em placas como a que está pregada numa pequena ponte no MediaCityUK, uma renovada zona da cidade onde hoje funcionam, entre outras, a BBC: "This project has been part-financed by the European Community"...

… O melhor dos dois mundos, portanto. Não deixa de recorrer aos financiamentos possíveis na Europa, como não deixa de criticar políticas sociais que podem levar a um fluxo migratório indesejável neste momento. Duvida da União, mas beneficia por lhe pertencer, ainda que parcialmente.

O que daqui resulta, neste dia de referendo, é uma questão mais global e abrangente: saber até que ponto o Reino Unido, centro da democracia mundial, vai saber, com a palavras dos seus cidadãos, mostrar que permanece fiel às ideias humanistas que também orientam a União Europeia, mesmo quando falha nas suas intenções. E tem falhado bastante.

Porém, há que reconhecer a evidência: estaríamos hoje bem piores se não tivesse havido quem pensasse um projecto europeu. E não falo apenas dos países mais pobres. Falo também daqueles que, no equilíbrio possível entre economias diferentes, puderam crescer num espaço sem ameaças maiores nem abismos nas fronteiras. Nesta Europa cheia de imperfeições, todos ganhamos com a União - ao contrário da ideia feita segundo a qual os países mais pobres beneficiam mais do que os ricos… -, e até o dividido Reino Unido faz parte dos que têm mais a ganhar do que a perder. Mais logo saberemos se os britânicos pensam o mesmo…

Leituras boas da semana

Excelente o artigo de Nora Kelly na revista norte-americana The Atlantic sobre a relação entre Donald Trump e a televisão, e como pensa o putativo candidato resolver a questão…

José Milhazes é, indiscutivelmente, o português que melhor conhece a Russia e o que a rodeia. Num excelente artigo publicado há dias no jornal online Observador, explica com clareza as relações entre o país de Putin e os seus vizinhos - ou seja, nós, os europeus…

Aconteça o que acontecer com a nossa selecção no próximo sábado, o conselho serve: perdoar, esquecer, prolonga a vida. O artigo vem na insuspeita Time e serve para qualquer resultado: se sairmos vitoriosos, podemos perdoar os erros passados. Se perdermos, é mais saudável esquecer do que ficar a remoer e a culpar os Ronaldos desta vida…

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