Há 125 anos, dois irmãos visionários, juntaram pela primeira vez pessoas para que vissem num ecrã imagens em movimento. Esses irmãos têm o nome de Lumière (um é Auguste, o outro é Louis) e deram à luz, em 1895, o cinema. Nove meses depois passaram a cobrar por essas projeções, com os espectadores deslumbrados ao verem no cinematógrafo acontecimentos da vida, como a chegada de um comboio a uma gare, captados e fixados pelo olho de uma câmara. Era a maravilha da reprodução da realidade em imagens que, sendo aquelas artesanais, pareciam mágicas. Tudo do cinema começou ali.

Em 1915, a Primeira Grande Guerra já tinha em poucos meses entrado em fase de inferno na terra europeia e, ao mesmo tempo, o cinema podia gabar-se de ter entrado na primeira idade adulta, com grandes espetáculos de longas metragens em salas de cinema. Um desses primeiros grandes filmes, ainda no tempo do cinema mudo, é The Birth of a Nation (Nascimento de uma Nação), realizado por D.W. Griffith, filme que gerou muita controvérsia e acusações de racismo pelo modo com representou os negros e por parecer pretender justificar a segregação racial, com enredo focado na guerra da Secessão (ou guerra civil dos EUA), com Atlanta a ser  palco de violentas batalhas entre as tropas do Norte (a União) e as do Sul (os Confederados), esclavagistas. Se os Lumière inventaram o cinematógrafo, Griffith inventou o cinema ao pôr no ecrã histórias de uma nação em guerra.

Precisamente esse 1915 em que surgiu o filme pioneiro de D.W. Griffith, foi o segundo dos quatro anos de tremendo massacre da Primeira Grande Guerra Mundial. Um dos tantos terríveis episódios cruéis dessa guerra aconteceu em 17 de março desse 1915, quando o general francês Géraud Réveilhac decidiu punir os seus soldados que recusaram atacar um muito mais numeroso batalhão alemão na colina de Souain, no nordeste da França. Os soldados franceses do 136º Regimento de Infantaria, tinham a noção de que, se lançassem o ataque, seriam dizimados, mas o comandante Réveilhac exigia-lhes que estivessem prontos para o sacrifício. Para os castigar pelo motim e pelo que viu como cobardia, escolheu, aleatoriamente, cinco deles e mandou que outros tantos companheiros de armas os fuzilassem, perante todo o regimento naquela colina da região da Marne. O romancista Humphrey Cobb, soldado americano na batalha de Amiens, testemunha do horror da guerra nas trincheiras e nos acampamentos, soube da história e, a partir da indignação, escolheu-a para tema do livro Paths of Glory (Horizontes de Glória), publicado em 1935.

Um dos mais puros e geniais realizadores de toda a história do cinema, Stanley Kubrick ( o cineasta de 2001: uma Odisseia no Espaço, Laranja Mecânica, Barry Lyndon, Lolita, Spartacus, The Shining, Eyes Wide Shut, Dr. Strangelove e outros grandes filmes), leu Paths of Glory e quis passar a história ao cinema. Os estúdios de Hollywood começaram por torcer o nariz, mas o empenho solidário do recém-falecido Kirk Douglas ajudou-o a convencer a United Artists a produzir  o que provavelmente é o melhor filme de guerra na história do cinema: Paths of Glory (Horizontes de Guerra). É um filme que, por denunciar abusos do militarismo, esteve vários anos proibido em vários países.

Há outros filmes admiráveis com foco na Primeira Grande Guerra, como A Grande Ilusão (Jean Renoir, 1937), The Big Parade (King Vidor, 1925), King & Country (Joseph Losey, 1964), Gallipoli (Peter Weir, 1961) ou Cavalo de Guerra (Steven Spielberg, 2011) mas nenhum é tão poderoso a mostrar aquela catástrofe que entre 1914 e 1918 tombou a Europa como o de Kubrick. No entanto, a produção cinematográfica sobre a Primeira Grande Guerra não é imensa, ao contrário do que sucede com a Segunda Grande Guerra como tema. São dezenas de filmes, da Batalha de Midway (John Ford, 1942) aos Canhões de Navarrone (J. Lee Thompson, 1961), do Dunkirk (Leslie Norman, 1958) ao 1941 (Steven Spielberg, 1979), do Days of Glory (Jacques Tourneur, 1944) a Letters from Iwo Jima (Clint Eastwood, 2006), de A Batalha de Stalingrado (Vladimir Perov, 1949) ao A Bridge Too Far (Richard Attenborough, 1977) do Dia Mais Longo (Zanuck e outros, 1962) ao Catch 22 (Mike Nichols, 1970), de Duelo no Pacífico (John Boorman, 1968) a Pearl Harbor (Michael Bay, 2001). São, de facto, centenas de filmes sobre esse inferno de 1939-45, com teatros de guerra dispersos pelo planeta, que propiciou grandes aventuras para o cinema, quer como indústria, com superproduções, quer como arte. O desembarque na Normandia, decisivo para a derrota o monstro de Hitler, é dos momentos mais retomados pelo cinema. A batalha e a resistência em Estalinegrado, por si só, gerou uma dezena de filmes. Também não faltam histórias como a de Casablanca (Michael Curtiz, 1942), a de A Ponte sobre o Rio Kwai (David Lean, 1957), O Paciente Inglês (Anthony Minghella, 1996), Lili Marleen (R.W. Fassbinder, 1980), Inglorious Basterds (Quentin Tarantino, 2009), Império do Sol (Steven Spielberg, 1987) ou A Lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993).

Agora, o britânico Sam Mendes, a partir dos relatos que ouviu do avô, regressa à Primeira Grande Guerra de um modo inovador que, com o filme 1917, nos mete dentro do pesadelo da guerra a sentir o peso daquela angústia, sofrimento e devastação no inferno das trincheiras. Somos metidos na primeira linha de fogo ou muito perto. Salta-nos pólvora para os olhos. Vemos o que o cinema já nos tinha mostrado daquela última guerra de trincheiras, e também, com virtuosa economia narrativa, o que ainda não tínhamos visto. Sentimos o vazio do abandono à mercê do acaso. Sam Mendes inova com o tão discutido exercício estilístico do plano único. É um modo para nos fazer parte do que sente quem está dentro daquele pesadelo,  sem saber se sai dali vivo, estropiado ou morto.

Há estrategos militares que contestam pormenores sobre o modo como Sam Mendes conta a guerra. Argumentam que os comandantes militares não iam para a linha da frente da guerra como neste filme nos é mostrado com a figura do coronel interpretado por Benedict Cumberbatch, esses chefes ficam bem instalados e protegidos em castelos e mansões onde planeavam a guerra. Também há quem discuta que o filme se foque no calvário de dois jovens soldados ingleses, passando ao lado do facto de, naquela batalha da Somme, em escassas horas terem morrido 8.000 soldados ingleses mortos pela incompetência dos comandos à distância.

Sam Mendes vem da cena teatral. Fez Shakespeare. Mostrou com brilhantismo o sarcasmo e a capacidade e subtileza que tem para analisar comportamentos e personalidades em filmes como American Beauty, que há 21 anos arrebatou os óscares de melhor filme e melhor realização ou Revolutionary Road. Agora, com 1917, Sam Mendes entra para a história dos grandes filmes de guerra, através da comovente história do medo de dois lance corporals (soldados de primeira classe) a quem é entregue uma missão suicida. Sam Mendes acrescenta linguagens cinematográficas ao modo de fazer cinema. Faz contrariar a míngua do amor pelo cinema.

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