Tudo o que nos disseram em criança está errado. Prepararam-nos mal para o futuro. Afinal, são os batoteiros que vão longe na vida. Quando andava na escola, sempre ouvi dizer que copiar era feio e que não ir às aulas dava direito a chumbar por faltas. Vamos crescendo e percebendo que aldrabar o sistema faz parte da vida e que são esses batoteiros que vemos na escola que chegam a cargos de poder e de decisão sobre a vida dos restantes, mais honestos.

Lembro-me de adormecer e faltar à primeira aula da manhã e levar uma justificação, assinada pelos meus pais, onde podia ler-se “Adormeci”. Era uma justificação tão boa como outra qualquer até porque dormir é muito importante para a nossa saúde, no entanto, a honestidade não é uma qualidade que muita gente aprecie e tive professores que achavam que adormecer não era uma justificação válida, mesmo que assinada pelos meus encarregados de educação. Tinha colegas que faltavam dias inteiros, diziam que um familiar tinha morrido e falsificavam a assinatura dos pais e conseguiam, assim, aldrabar o sistema e ter as faltas justificadas. Matavam a família toda durante o primeiro período e chegavam a ter dez avós falecidas. Começo a perceber que são esses que vão longe na vida e chegam a políticos, pois de certeza que são os mesmos que pedem a colegas da Assembleia para lhes assinar a folha de presenças.

Nunca usei cábulas na minha vida de estudante. Era um idealista parvo, bem sei. A verdade é que nunca precisei delas para ser bom aluno, mas na faculdade tive colegas que tinham melhores notas do que eu nos exames, pois muniam-se de auxiliares de memória na calculadora, nas mangas, nas calças, e em todo o lado onde coubessem. São esses que hoje chegam a primeiros-ministros com licenciaturas duvidosamente terminadas e com equivalências manhosas conseguidas à base da cunha. Sempre achei que copiar algo era receber louros indevidamente, tal como continuo a achar hoje na minha nova profissão em que há muita gente que plagia deliberadamente. Plagiar é como ir para a cama com uma mulher, apagar as luzes e entrar outro homem para lhe dar a melhor noite de sexo. No fim, acendem-se as luzes e ela elogia-nos a dizer que fomos o melhor de sempre. Recebemos o elogio, mas sabemos, lá no fundo, que o mérito não é nosso.

No futebol também temos visto, ao longo de muitos anos, que são os batoteiros quem ganha os troféus, seja no Benfica ou no Porto. Como sportinguista, sinto que o meu clube devia ser menos honesto ou devia aprender a fazer boa batota, pois se também a faz – e é possível – é incompetente. Nos negócios, igual, são os batoteiros que fogem aos impostos, que desviam dinheiros para offshores, que acabam por integrar as listas dos mais ricos e mesmo quando são apanhados, a justiça parece ter uma tendência para favorecer quem escondeu trunfos nas mangas e viciou os dados.

Lembro-me de uma vez, na faculdade, assumir que não tinha contribuído para um trabalho de grupo, pois tinha sido uma decisão de todos, e iria fazer o próximo projecto, criando assim um sistema de rotatividade e divisão de carga de trabalho igual por todos. O professor chamou-me à parte e disse que sabia que era prática comum, mas que como eu tinha assumido, teria de me dar zero na pauta. Disse-me “Se calhar nunca vais ter um Ferrari, mas vais ser mais feliz porque és honesto e sincero”. Acertou na primeira parte, não me parece que algum dia vá ter um Ferrari, mas acho que não sou mais feliz porque tento ser íntegro. Basta olhar para muitos na Assembleia para ver batoteiros que chegam ao poder com um sorriso muito mais rasgado do que o meu. Não sei se é bem felicidade, ou só um sorriso de quem está a gozar com a nossa cara.

Sugestões e dicas de vida completamente imparciais:

Para aprender: Workshop de escrita de humor e stand-up comedy. Informações neste link.

Para ver: 12 Angry Men

Para ouvir: Podcast Ar Livre, de Salvador Martinha.

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