1. No domingo passado a história da América mudou. Pela primeira vez em gerações um homem de esquerda foi eleito presidente do México. Mas não apenas: teve 53 por cento dos votos, a larga distância dos oponentes, e o partido que ele mesmo fundou, o MORENA (Movimento para a Regeneração Nacional), ganhou as duas câmaras do Parlamento, além de cinco dos nove governos estaduais em disputa.

Uma vitória clamorosa, que pôs o Zócalo a gritar, pular, chorar de alegria, dezenas de milhares de luzinhas na grande noite mexicana, à espera que o vencedor chegasse. E ali, naquela praça que já era o centro do mundo para os aztecas e continua a ser o centro do país, Andrés Manuel López Obrador jurou: “Não vos falharei, não vos desapontarei, não trairei o povo.”

2. As espectativas são, pois, gigantes. López Obrador promete mudar tudo o que tem devastado o México: corrupção, violência, pobreza. E a promessa vai além da fronteira. Para cima, onde dezenas de milhões de mexicanos vivem sob a ameaça Trump. Para baixo, de onde dezenas de milhares de centro-americanos querem fugir, atravessando o México. Para outras partes da América Latina, onde o colapso do chavismo ajudou a eleger governos de direita. Para o mundo, que tanto precisa de acreditar que este não é o fim dos tempos, que da derrota virá algo bom quando não se desiste. Essa é a história de Andrés Manuel López Obrador (chamam-lhe AMLO). De derrota em derrota até à vitória de domingo.

3. López Obrador, 64 anos, cresceu no estado de Tabasco. Se virmos o mapa do México como um gancho, Tabasco fica no fundo do gancho. Ali existiu uma das primeiras civilizações da Mesoamérica, os olmecas. Selva, rios, lagos, terras inundáveis. A sul, as montanhas de Chiapas, a oriente, a península do Iucatán, mundos maias.
Filho de pequenos comerciantes, foi estudar Ciência Política para a lendária UNAM da Cidade do México nos fervilhantes anos 1970. Começou cedo nas lutas, da ecologia aos movimentos sociais, entrou e saiu do PRI, o partido que foi governo por décadas. Trinta anos depois de chegar à capital, tornou-se presidente da câmara. Ou seja, governou uma cidade que não só tem o dobro da população de Portugal como é uma das mais convulsas megalópoles do mundo, brutal, desigual, braços em mil direcções. Um distrito em si, Distrito Federal, ou DF, como os mexicanos lhe chamam.

Não é qualquer um que governa esta cidade por meia dúzia de anos e sai com elogios aos programas sociais, às mudanças nos transportes, às alianças que deram frutos. A governação de Obrador tornou-o favorito na corrida para a presidência do país, em 2006. E essa foi a primeira grande derrota. Durante a campanha, a direita fez dele o esquerdista que come as criancinhas todas (e o capital) com guacamole, e Obrador perdeu por menos de meio por cento para Felipe Calderón. Até hoje há fortes indícios de não ter sido uma eleição limpa. Calderón desencadeou a chamada “guerra às drogas”, metendo nisso o exército. A violência disparou. Em 2012, Obrador voltou a concorrer e perdeu para Piña Nieto. A violência continuou a disparar, tal como a corrupção, até dentro do círculo familiar de Piña Nieto. Neste ciclo de sangue, 200 mil pessoas foram mortas. Massacres nunca totalmente esclarecidos como o dos 43 estudantes contestários que desapareceram no estado de Guerrero, um caso que envolverá políticos locais, polícia, exército e cartéis. Cocktail mexicano do terceiro milénio.
Em 2017 foram assassinadas 25 mil pessoas, um recorde. Em 2018, as estatísticas já registam 15 por cento de aumento. À corrupção do círculo presidencial junta-se a total incapacidade de Piña Nieto face aos desmandos anti-mexicanos de Trump.
Um observador desta última campanha mexicana disse a um site dos EUA que a raiva é mais forte do que o medo. Essa raiva, a dos mexicanos em relação aos responsáveis que foram afundando o país, ajudou Obrador a ganhar no domingo. Ele sabe disso, e por isso jura não os desiludir. “Tenho uma ambição: ficar na história como um bom presidente do México.”

4. Inimigos, ou nem por isso, comparam-no a Trump, pela ventania anti-sistema. Uma espécie de Trump de esquerda, por ser temperamental, não ligar aos críticos, ter zangas com os media. Mas López Obrador é político há décadas, tem um currículo de luta, já mostrou que pode governar uma megacidade, publicou vários livros de história e política, tenciona cortar o salário de presidente para metade, e continuará a morar no seu pequeno apartamento da Cidade do México, sem aproveitar o palácio. Conta também vender o avião presidencial, usar voos comerciais. Pelo menos quanto a isto parece bem mais próximo do uruguaio Mujica que do espécime na Casa Branca.
Outros inimigos acenam com os fantasmas de Castro ou Chávez. Obrador seria um castrochavista (os tais que comem criancinhas e capital). Mas Obrador é tão pragmático que a sua coligação vitoriosa tem esquerdistas, religiosos de várias espécies, sindicatos e ultraconservadores. O que, aliás, é motivo para toda a prudência. Está por ver que preço López Obrador terá de pagar por isto. Se vai querer agradar a todos. O que fará com eles. O pragmatismo coligador de Lula da Silva teve preços altos para o Brasil.
De resto, Salvador Allende — o presidente chileno socialista que se suicidou (ou foi morto, depende das versões) quando Pinochet tomou o poder, em 1973 — é um dos heróis do recém-eleito presidente mexicano. E López Obrador homenageou outros dois heróis, Cristo e “Che” Guevara, no nome do seu filho mais novo: Jesús Ernesto.

5. Prudência também em relação aos acordos comerciais, a renegociação em curso do NAFTA (Tratado Norte-Americano de Comércio Livre, envolvendo EUA, Canadá e México). Obrador parece ter uma visão igualmente pragmática quanto a isso, ser a favor. Uma das suas sugestões, em contraponto ao muro de Trump, é abrir uma faixa de fronteira de 30 quilómetros para que empresas se possam instalar com benefícios.
Em Ciudad Juárez, pesadelo de cidade-fronteira onde muitas fábricas dos EUA (e não só) se instalaram com benefícios, os salários de quase-escravos contribuíram para fragilizar a população mexicana, aumentar a dependência de drogas, fortalecer os cartéis. Não consegui perceber, do que li, qual é a visão de Obrador em relação a isto. Como compatibilizar o pragmatismo económico e o fim deste ciclo desumano.
Por um lado, ele garante que não vai guerrear os EUA. “Não nos vamos meter em brigas”, disse à televisão mexicana. “Vamos estender a nossa mão honestamente, na expectativa de uma cooperação amigável e respeitosa.” Por outro, não se espera que ele obsequie Trump.
E para contrariar a perda de gente, quer para os cartéis, quer para a emigração, Obrador tem planos de bolsas para jovens, criação de infraestruturas, plantação de milhões de árvores. O objectivo, diz, é que “ninguém, por fome ou pobreza, tenha a necessidade de abandonar o seu lugar de nascença”.

6. Há dias, na “New Yorker”, o repórter veterano Jon Lee Anderson, que acompanhou Obrador em várias viagens nesta campanha, escreveu: “A sensação com que fiquei foi que López Obrador tem uma forte noção de sentido histórico no que está a fazer, e que genuinamente acredita na capacidade dos mexicanos se erguerem acima das circunstâncias com a sua ajuda. Aqueles que comparam o seu populismo com o de Trump estão fundamentalmemnte enganados, creio. O populismo de López Obrador não se baseia no ódio do ‘outro’, ou numa necessidade de vencer à custa de outros, mas antes numa fé intuitiva em que os mexicanos podem superar a realidade actual com uma reconversão dos seus traços nacionais mais notáveis: trabalho duro, engenho, orgulho, modéstia e bravura.”
Anderson cita uma jornalista veterana mexicana, Carmen Aristeguí: “O objectivo de Andrés Manuel López Obrador é passar à História, nada mais, nada menos. Ser lembrado como os pais fundadores são. Não se espera que ele seja mais um manager do caos. Espera-se que ele conduza o país em direcção a uma nova lógica de poder político, e de cidadania, que permita o desmantelamento de estruturas e práticas profundamente enraizadas, que sempre dominaram o México. Se Andrés Manuel conseguir erradicar a corrupção sistémica, e não fizer mais nada durante o seu governo, isso já será razão suficiente para lhe erguer uma estátua, e contar a sua história nos livros de escola.”
Toma posse a 1 de Dezembro, será interessante lá estar. Histórico, seja o que for que venha a seguir.

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