Os políticos estão preocupados, mas nem por isso a alheira consegue o tão ambicionado pacto de regime que tantos outros temas reclamam. E foi assim que durante a tarde de ontem, não uma, mas quatro propostas de intervenção sobre o tema subiram ao plenário da Assembleia da República para discussão. PSD, PS, PCP e BE esgrimiram argumentos sobre a alheira e mesmo o CDS-PP, que não trouxe uma proposta, lembrou o quanto tem sido diligente na "aposta no sector agro-alimentar como motor de crescimento económico". Ou seja, foi uma espécie de beauty contest do elogio à alheira, da esquerda à direita, passando pelo centro.

Das variadíssimas considerações que a discussão sobre a alheira nos poderia oferecer, há duas que vale a pena destacar.

Há certos temas que são uma espécie de íman para qualquer politico. A alheira - e a de Trás-os-Montes em particular - é um deles. Porquê? Porque alheira é povo, é tradição, é ruralidade, é portugalidade e, no fim do dia, é sinónimo do bom prato português acompanhado de uma bela pinga e há lá coisa mais consensual no país do que esta.

Claro que neste consenso há a política e cada um escolhe o seu estilo. O deputado bloquista Carlos Matias, por exemplo, falou da "identidade única e genuína" das alheiras e lembrou que este é um produto que "emergiu do engenho das populações locais” numa alusão à forma como judeus e muçulmanos usaram o consumo deste produto para fazer prova da sua integração na sociedade católica. (Caramba, até isso a alheira é, um ícone da convivência entre os povos e as religiões!)

A segunda nota a destacar é que a alheira é perfeita para uma espécie de “orçamento para totós” – um manual simples para quem nunca percebe o que se discute no orçamento.

Repare-se, por exemplo, nos items da proposta do PSD para a defesa da alheira: criação de uma linha de crédito de 30 milhões de euros para apoio de tesouraria e financiamento de investimentos que funcione durante 2016 e 2017, redução do IVA das alheiras para 6%, redução da taxa social única dos trabalhadores das empresas que produzem alheiras para 20,75%, co-financiamento do Estado a campanhas de comunicação de promoção das alheiras, majoração em 20% no âmbito de projectos apoiados por fundos do Portugal 2020 dos investimentos no sector feitos na região de Trás-os-Montes. Aqui temos uma espécie de exercício prático sobre o impacto de um Orçamento de Estado. Via a alheira.

E claro que há a política da alheira, tão intensa quanto têm sido os debates entre o actual Governo e a actual oposição. Os socialistas não deixaram por isso de lembrar a demagogia dos sociais democratas vertida neste pacto da alheira, nomeadamente quando foi o PSD que subiu o IVA da restauração para o seu valor recorde de 23% - sim, claro que se falou do IVA da restauração, o que apenas reforça a versatilidade da alheira enquanto ícone do orçamento e da política à portuguesa.

A sessão parlamentar de ontem deveria ter acabado com uma degustação da alheira. Infelizmente acabou por não acontecer. O que talvez explique porque persistem divergências políticas fracturantes na forma como os partidos com assento parlamentar encaram o tema. Todos sabemos que nada resolve melhor as nossas diferenças do que uma boa mesa. Se resultasse com a alheira, seria provavelmente uma fórmula de futuro – contemplando nesse pacto de regime uma solução vegetariana para o deputado André Silva, do PAN, o único que se pronunciou contra qualquer uma das vias políticas na defesa da alheira.

Tenham um bom fim-de-semana e, se possível, petisquem uma bela alheira, que é como quem diz, façam política activa.

Outras leituras

Muita tinta vai correr este ano sobre startups, empreendedorismo, inovação à boleia da Web Summit. Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, não tem deixado os seus créditos por mãos alheias e as suas visitas a Lisboa já são um happening na comunidade de novas empresas. Ele diz que a Web Summit é apenas a cereja no topo do bolo e esperamos todos que esteja certo.

E já que se fala de empreendedorismo, vale a pena ler este artigo do El Pais. Fala de unicórnios e gatos persas, e sim, é sobre as novas formas de fazer empresas e de criar riqueza.

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