A resposta a essa hipótese está nas 450 estremecedoras páginas da ficção A Conspiração contra a América, escrita para publicação em 2004 por um mago da literatura, Philip Roth, seguramente um dos mais dotados romancistas deste tempo.

O dicionário define ucronia como a reconstrução da história tal como poderia ter acontecido e não como realmente aconteceu. Nesta ucronia escrita pelo judeu genial Philip Roth, a partir da tragédia pessoal de uma família judia de Newark, seguimos pela alternativa de inferno: com o Presidente Lindbergh os EUA não teriam entrado na II Grande Guerra e consumado a intervenção decisiva para libertar a Europa da devastação provocada pelo nazismo de Hitler, os judeus continuariam a ser perseguidos, as liberdades seriam mais restringidas e o pesadelo da ideologia e prática nazi alastraria pelo mundo.

Este livro foi publicado quando George W. Bush era de facto o presidente dos EUA, num tempo de limitação de liberdades após os ataques terroristas em 11 de setembro de 2001. Na ocasião, muita gente viu no “subtexto” deste exercício literário de Roth um ataque às políticas de medo da administração americana daquela época. Roth repetiu que começou a escrever esta ficção antes da chegada de Bush ao poder e antes da restrição de liberdades após o 11/9.

Mas as leituras metafóricas são imparáveis e puxam paralelismos com a atualidade.

Esta trama de ficção-política criada por Philip Roth passou para o pequeno-ecrã, em 2020, com a adaptação deste The Plot Against America por David Simon para uma mini-série na HBO. Aqui vemos a construção do discurso populista do popularíssimo ex-aviador e herói nacional Charles Lindbergh, vemos como é desenvolvida a máquina emocional que leva à derrota nas urnas de Roosevelt e à entrada na Casa Branca de um líder alinhado com o Terceiro Reich e propulsor da xenofobia e do antisemitismo.

Chama-nos a atenção num desses episódios a palavra de ordem de movimentos extremistas, em resposta à hecatombe económica com terríveis perdas em postos de trabalho. É “Make my country great again”. A analogia com o slogan de Trump é óbvia. David Simon, criador da série, assume que o enredo construído por Philip Roth tem para ele paralelos com o que está em volta de Trump e do seu estilo messiânico. Claro está que toda a comparação entre Lindbergh e Trump exige excluir a adulteração do nazismo. Mas está lá o isolacionismo e o exagero de ameaças com origem no exterior. Onde Lindbergh fazia a apologia do antisemitismo, Trump agita a ameaça islâmica.

O texto de A Conspiração contra a América abre com um parágrafo que nos transporta, com estupefação, para o dia da eleição em 2016: “Embora na manhã seguinte às eleições predominasse a incredulidade, entre os peritos em sondagens, toda a gente percebeu tudo e os comentadores nas rádios e os colunistas nos jornais analisaram o que estava a acontecer como se tudo estivesse pré-determinado”.

Há quatro anos, na véspera das eleições, as sondagens davam Hillary Clinton em vantagem sobre Donald Trump em todos os três estados da zona dos Grandes Lagos que costumam oscilar, de eleição para eleição, entre republicanos e democratas: Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. Trump veio a conquistar os três, embora por apenas, no somatório, 77 mil votos de diferença. Nenhuma sondagem tinha previsto esse resultado.

Agora, Biden está em vantagem nesses três estados, com uma margem  de cinco a sete pontos percentuais que dobra a então atribuída a Hillary. Mas tudo continua a ser possível.

A TER EM CONTA:

Há muitos medos em volta destas eleições nos EUA. Há milícias armadas e o risco de violência é sério. Vale ver esta reportagem da France2.

O regresso das longas viagens de comboio, pela noite fora 

Nadal é a figura do dia nas primeiras páginas: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui.

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