Cada um dos dois rivais, Biden e Trump, apareceu decidido a insultar mais e a gritar mais alto. É improvável que algum dos poucos indecisos tenha, após este penoso confronto, optado por algum dos candidatos. Talvez uma ou outra pessoa que preza a compostura tenha ficado a pensar em votar Biden, para se livrar das grosserias de Trump. Mas há imensa América que vibra com essa hostilidade e arrogância. A eleição continua com resultado muito incerto.

Em campanha, espera-se que os candidatos suscitem empatia. Não se viu Trump sorrir uma só vez que fosse. Biden também não seduziu, embora tenha parecido menos tenso do que Trump. Essa será a surpresa: o atual presidente pareceu estar a sentir o peso das sondagens que, de modo continuado, o colocam perdedor.

Trump tem 40 anos de experiência com as câmaras de televisão. Raramente olhou o espectador nos olhos, esteve sempre voltado para Biden para lhe cortar cada raciocínio. As interrupções foram contínuas. Talvez tenham acabado por ajudar Biden a recuperar alguma ideia.

Biden foi hábil a intercalar as interrupções de Trump com sorrisos, em jeito de menosprezo pelo adversário. Chegou a chamar-lhe palhaço, numa ocasião obviamente estudada. Trump também tinha preparado desqualificar Biden como o pior da turma, aquele que tinha piores notas na universidade.

Os insultos sucederam-se, recíprocos. Trump disse coisas que noutro causariam escândalo. Por exemplo, ao recusar condenar os supremacistas brancos. Também ao não negar que pode pôr em causa o resultado das eleições. Toda a gente sabe há uns quatro anos que ele é assim. É um estilo que consolida os favores da base extremada. Mas não conquista a estreita faixa que oscila de eleição para eleição e decide os resultados.

Biden esqueceu o conselho de Michelle Obama (”Quando o adversário baixa muito, trata de voar alto”). Entrou no jogo de provocações ao chamar-lhe, entre outras coisas, “o pior presidente da história da América”. Biden não soube afastar decisivamente os fantasmas quando Trump puxou, e insistiu, pelos negócios obscuros do filho, Hunter Biden, a que juntou as especulações sobre dependências de drogas.

Substância política neste confronto? Nenhuma novidade.

Biden acusou Trump de responsável por tantas mortes evitáveis na crise da pandemia. Trump ripostou que o caminho defendido por Biden estrangula a economia. A mesma divergência sobre as alterações climáticas: Trump vê as políticas ambientalistas com custo insuportável para a economia, Biden contra-ataca a dizer que manter tudo na mesma vai custar muito mais caro.

Muito que interessava discutir ficou por tratar. Talvez possa ser matéria para os próximos dois confrontos e para o debate dos vices.

O moderador deste duelo, o veterano Chris Wallace, da Fox, bem tentou proporcionar discussão de ideias e evitar as constantes interrupções, até tentou o humor (ao desafiar Trump: “quer mudar de lugar?), mas nada resultou. Wallace tinha anunciado o bom propósito de “tentar ser um condutor invisível”. Faltou-lhe  ter em conta que este era um duelo de luta livre em que há quem despreze as regras.

Os quatro anos de presidência Trump têm mostrado que ele tem o objetivo de estilhaçar as convenções e as instituições. O debate presidencial é outra instituição que Trump também quer destruir e Biden não fez grande coisa para o contrariar.

A mais antiga democracia liberal, o país que exibiu com orgulho ser “o farol do mundo livre” está agora às escuras. O confronto não acendeu qualquer farol - nenhum dos candidatos ganhou e toda a gente perdeu.

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